101 - A cultura do cancelamento
O tema desta semana é, de certo modo, a continuação do que disse no post O Woke. Haverá, futuramente, uma terceira fase deste tema, a “apropriação cultural”.
Basicamente, “cultura do cancelamento” significa retirar o apoio a uma pessoa, à sua carreira, popularidade ou fama por causa de algo que disse ou fez e que é considerado inaceitável. Bom, tal como a definição inicial de “woke”, até soa bastante bem... Só que o problema é exatamente o mesmo, ou seja, quem define o que é inaceitável. E, claro, são os mesmos vidrinhos (termo que uso muito e a que me referi em Partam-se os vidrinhos) do costume.
Concordo plenamente que se “cancelam” pessoas como Harvey Weinstein, apesar de me incomodar o facto de ser impossível muitos dos seus famosos apoiantes ignorarem o que se passava. Mas a maioria esmagadora dos casos seria hilariante se não fossem as suas tristes consequências.
Vamos a alguns exemplos.
No seguimento do célebre caso George Floyd foi cancelada a série Cops. Para quem não a viu, era um programa de não ficção, em que câmaras acompanhavam patrulhas policiais em várias cidades americanas. Pois bem, passou a ser considerada ofensiva para as suscetibilidades da comunidade negra.
O filme Legalmente Loira foi vítima de uma tentativa de cancelamento por duas razões. Primeiro, a ideia de que só homens homossexuais reconhecem estilistas. E segundo por a protagonista ter revelado publicamente que alguém era homossexual à revelia dessa pessoa.
E o filme Fantasia, de 1940, esteve também sobre a mira dos vigilantes do que é aceitável. E porquê? Bom, na secção Sinfonia Pastoral, com mulheres centauro, há uma personagem meio burro, meio ser humano, de pele escura (o único), que age como se estivesse ao serviço das outras – pois, a cena foi retirada do filme nos anos 60.
E há uns dias descobri, por razões profissionais, que um episódio do Tom e Jerry (animações curtas de cerca de 7 minutos) tinha sido banido! Não consegui descobrir porquê, mas... francamente, Tom e Jerry?
Passando à literatura, os exemplos são imensos, de Roald Dahl a Agatha Christie, Enid Blyton e os livros do Dr. Seuss – são dos primeiros livros das criancinhas de língua inglesa. Sem falar em J K Rowling, a autora de Harry Potter, que tentaram cancelar por ter apoiado uma mulher que perdeu o emprego por ter dito que só há dois sexos – masculino e feminino.
Outro problema com esta cultura do cancelamento está, mais uma vez, em haver dois pesos e duas medidas. Por exemplo, não se inclui a música Fat Bottomed Girls numa nova compilação dos Queen porque a expressão é ofensiva para as mulheres. Mas as letras dos muitos rappers negros, essas, sim, profundamente ofensivas e que, muitas vezes, incentivam até à violência contra mulheres (e não só), bom, quem é contra devia ser cancelado por racismo...
E não pensem que as vítimas são só os famosos, muito longe disso. Por exemplo, em Inglaterra um professor foi despedido e impedido de dar aulas fosse onde fosse porque, numa turma só de raparigas, disse, “Bom trabalho, meninas” após a resolução de um problema difícil. E qual foi o problema? Pois, uma delas identifica-se como rapaz e ficou toda ofendida, daí “cancelarem” o ofensor!
São inúmeros os exemplos de vidas estragadas por esta “cultura”. E desenganem-se se pensem que acontece apenas por causa de algo que a pessoa realmente disse ou fez. Não! Também aqui o que interessa não são os factos mas sim a perceção que os tais bem-pensantes têm sobre eles. Ou seja, uma afirmação é racista, homofóbica, islamofóbica ou similares se alguém achar que o é. Mas atenção, alguém do “lado certo”. Um branco sujeito a insultos raciais nunca é vítima de racismo nem um cristão o pode ser, mesmo que o agressor declare abertamente que o fez devido à sua religião.
O mais curioso – ou talvez não – nisto tudo é que os maiores defensores de todos estes cancelamentos ficam profundamente ofendidos quando as coisas funcionam ao contrário.
Por exemplo, inúmeras empresas americanas foram ameaçadas por este movimento devido a produtos que vendiam (armas, por exemplo), logótipos considerados racistas, não proeminência dada a artigos para os LBG..., enfim, por não serem consideradas woke. Só que, depois de terem mudado tudo e mais alguma coisa para entrarem em conformidade com as exigências, aconteceu uma coisa interessante: sem ameaças, sem boicotes “oficiais”, as vendas caíram na vertical. É que muitos dos seus clientes sentiram-se ofendidos por toda esta chachada – para falar bem e depressa – e, sem estardalhaço, “cancelaram-nas”, ou seja, deixaram de comprar a essas empresas.
E é essa a única forma de combater esta cultura de cancelar o que desagrada ao que não passa, de facto, de uma minoria. Cancelam um livro ou alteram-no para que fique “aceitável”? Boicota-se! Ou, melhor ainda, procura-se a edição original – e sim, resulta, já há editoras que recuaram nesta nova censura e passaram a publicar duas edições, uma delas (a original) com o aviso de que pode ferir suscetibilidades. O mesmo para música e filmes. A Internet está cheia de canais de streaming que só passam filmes e séries vítimas de cancelamento nos canais “bem-pensantes”.
Se pensam que estou a exagerar, pensem na chamada Lei dos Serviços Digitais, também ela apresentada como sendo absolutamente necessária para combater a desinformação e conteúdos indesejáveis na Internet, ou seja, para proteger os “coitadinhos” dos seus utilizadores. Só que... quem define o que isso é, sobretudo a desinformação? Pois, quem está interessado em “vender” apenas um determinado ponto de vista, impedindo qualquer discussão ou desacordo, por muito bem abalizados que sejam.
Enfim, como se tem provado com o falhanço do cancelamento de alguns livros e autores e com o desastre económico que foi a adesão a essa “cultura” por parte de algumas empresas, o importante é não ficar de braços cruzados. É que se não o fizermos, bom, acreditem, acabaremos, mais cedo ou mais tarde, a viver num autêntico clima de terror.
Para semana: E começam as aulas A propósito do início de mais um ano letivo
