171 - Os preocupados
Nos últimos tempos, políticos, comentadores, “especialistas” de assuntos diversos, de Portugal e não só, enfim, todos os que se acham formadores da opinião pública, têm algo em comum: estão preocupados. O motivo vai variando e o seu grau também, mas talvez seja altura de analisar as muitas preocupações que os eivam e pensar se também nós, o povinho banal, as deve partilhar. Como são muitas e variadas, irei falar apenas de algumas.
Comecemos por uma bem local, a tão badalada operação policial no Martim Moniz. Fartámo-nos de ver “preocupados” a falar de atentado à dignidade daqueles bons cidadãos, de racismo, xenofobia, fascismo, etc. Isto apesar de terem sido apreendidas drogas e armas brancas e sabe-se lá que mais.
Mas... o facto de quem ali vive ou por ali passa ser constantemente assediado, insultado, agredido, roubado, não preocupa ninguém. Aliás, fica-nos a ideia de que nada disso acontece, é apenas uma “perceção”, outro termo muito na moda por parte dos “preocupados”. Nem o facto de muitos dos que ali estão não terem qualificações nem profissão – isto partindo do princípio de que vieram para trabalhar – e, pior ainda, não terem a menor intenção de se adaptar ao país que os acolheu e, acima de tudo, de respeitar as suas leis e costumes.
Já agora, não é curioso que os ditos estejam preocupadíssimos com o aproveitamento político da dita operação por parte do Governo quando os partidos da sua estima não falam de outra coisa há semanas? Afinal, quem é que se está a aproveitar do que aconteceu?
Outro tema muito caro aos “preocupados” é a pedofilia da Igreja e as suas vítimas. Mas... quando veio recentemente a lume que em Inglaterra e durante 30 anos milhares de raparigas brancas e pobres, entre os 11 e os 16 anos, foram vítimas de violações por grupos de paquistaneses, qual foi a sua reação? De revolta, sim, mas contra o mau do Musk por ter falado do assunto e apontado que o atual Primeiro-ministro inglês foi um dos que varreu o assunto para debaixo do tapete para “não favorecer a extrema-direita”.
Quanto às raparigas, muitas das quais sofreram, até, lesões físicas graves, sem falar nas psicológicas, bom, pelos vistos não contam. Mas, claro, se alguém ficar farto, reagir e atacar quem cometeu o crime, verá a rapidez com que polícia e “justiça” atuam.
Continuando com o Musk, outra coisa muito mencionada pelos “preocupados” é a enorme influência que irá ter no governo americano – estranhamente, passam a vida a dizer que o Trump nunca escuta ninguém, que só faz o que bem lhe apetece... Há até memes a dizerem que a América se vendeu. Mas... quando o Soros, esse tão bom rapaz, deu muitos milhões à campanha da Hilary Clinton, ninguém piou. Fê-lo, aparentemente, por pura bondade, sem esperar nada em troca. Pois!
A Meloni tem toda a razão quando diz que a fonte desta preocupação está, apenas, em o Musk não ser de esquerda, ou antes, de extrema-esquerda como dizem que o Soros é... curioso, um multibilionário de esquerda!
Temos, também, como não podia deixar de ser, a “desinformação”. Vem isto a propósito do anúncio por parte do Facebook e do Instagram de que iriam deixar de fazer a verificação de factos, o que deixou em polvorosa os “preocupados”.
Primeiro, não lhes compete fazê-lo, são apenas locais de convívio e de troca de impressões. Mas mais importante ainda, quem é faz essa verificação? Os factos demonstram que na maioria dos casos “desinformação” é apenas informação que não agrada aos donos da verdade (DDV). Pior ainda, muitas coisas que foram vistas como tal acabam por provar ser verdadeiras o que, muito francamente, só serve para aumentar o descrédito de todo esse sistema que, chamando os burros pelos nomes, não passa de censura nem sequer muito bem encapotada.
Os “preocupados” também brilham na saúde, veja-se o abaixo-assinado e os inúmeros comentários contra a hipótese de o SNS deixar de tratar de imigrantes ilegais. Curiosamente, um português com pulseira laranja estar 15 horas à espera nas Urgências é algo que não os incomoda minimamente. Ou estar anos a aguardar uma operação que chega, muitas vezes, tarde demais. Ou não ter médico de família há anos. Mas nada disso importa.
Um outro tema seu favorito é a concorrência desleal das grandes superfícies e centros comerciais ao comércio tradicional. Mas quando se trata de pessoas a venderem nos passeios, sem pagarem impostos de espécie alguma e muitas vezes a impedirem o acesso a essas mesmas lojas que os “preocupados” supostamente defendem, tudo bem, não há nada a criticar. Nem que seja comida feita no local, com condições de higiene altamente duvidosas.
E há ainda o aborto. Para os “preocupados”, o grande problema das mulheres em Portugal está no prazo que têm para fazer um aborto legal. Ou seja, as muitas mulheres maltratadas e mortas pelos respetivos companheiros são algo bem menor comparado com a questão de passar das 10 semanas (+6 dias atuais) para 14 semanas.
Já agora, e mantendo-nos no aborto, não preocupa ninguém haver tantas jovens a abortarem numa época com tantos métodos contracetivos? Nem o facto de, na consulta para fazerem um aborto, não lhes falarem de alternativas, por exemplo, apoios se quiserem ter a criança ou como dá-la para adoção? Nem pensar, os “preocupados” têm mais em que pensar!
Finalmente, ser “preocupado” não é exclusivo de pessoas, as entidades também sofrem disso. Veja-se o Tribunal que ordenou que se mudasse o nome da Comissão de Inquérito às gémeas brasileiras “para preservar a sua privacidade”. É óbvio que isso é muito mais importante do que os 4 milhões gastos – ou mais, contando com as cadeiras de rodas – ou com a nacionalidade dada a ritmo de Usain Bolt.
Resumindo, estou a chegar à conclusão de que se algo preocupa os “preocupados” a minha melhor opção é preocupar-me com o oposto!
Para a semana: A economia precisa de emigrantes. Uma das frases mais ouvidas para justificar a política de portas abertas dos últimos anos
