211 - Mitos perigosos, parte 2
Como o título indica, já tratei deste tema anteriormente em Mitos perigosos, parte 1, em que falei de dois mitos, “Quem luta contra um ditador é um democrata” e “Os sindicatos protegem os trabalhadores”. E se não acreditam que são simplesmente mitos, leiam esse post, onde dou vários exemplos.
Hoje falarei de mais dois, também eles muito entranhados nas nossas sociedades e que não serão nada fáceis de erradicar.
Esse dinheiro distribuído por quem precisa...
Esta frase aparece sempre que se fala em certos projetos, como uma ida à Lua ou a Marte ou, mais corriqueiramente, gastos com a Defesa, por exemplo. A ideia que lhe está subjacente é, claro está, que se em vez de se fazerem esses gastos distribuíssemos o dinheiro “por quem precisa”, passaríamos todos a viver muito melhor.
Há, ainda, uma outra versão, bem mais popular sobretudo em certas camadas políticas e trazida de novo à ribalta pelo “génio” que acabou de ser eleito Presidente da Câmara de Nova Iorque e que é “taxar os ricos para dar aos pobres”. Ou seja, espalha-se o dinheiro dos tais ricos – e os lucros das empresas, claro – e acaba-se assim com a pobreza.
Curiosamente, esta distribuição “igualitária” foi tentada há uns anos na Mongólia. Ali, com exceção dos poucos que têm um emprego, a capacidade económica das pessoas mede-se pelo número de animais que possuem. Pois bem, o governo da época confiscou-os todos e dividiu-os irmãmente por todos os cidadãos, tendo em conta o agregado familiar. Só que... pois, comigo já sabem que há sempre um “só que”.
Dois ou três anos depois foram analisar o resultado desta experiência e o que viram levaram-nos a abandoná-la. É que alguns – bom, a maioria – assim que se viram com aqueles animais obtidos sem qualquer esforço, prontamente os comeram ou venderam para obterem luxos passageiros, fiando-se na ideia de que voltaria a haver nova benesse. Já outros cuidaram do seu quinhão e tudo fizeram para o aumentar.
Resultado, apesar de terem partido da mesma base, voltara a haver pobres e ricos.
Mas há pior. Essa teoria de tirar aos ricos para dar aos pobres tem outra consequência grave. É que os ricos mudam-se, simplesmente, para outras bandas ou, caso não o possam fazer, deixam de produzir riqueza porque não lhes compensa fazê-lo. Há uns anos a Suécia tentou pôr impostos altíssimos em rendimentos do trabalho acima de um certo valor e a consequência é que ficou sem médicos e outro pessoal especializado uma parte do ano: é que entre trabalhar e dar o dinheiro todo ao Estado ou tirar férias não pagas, adivinhem o que é que escolheram!
O feminismo defende as mulheres
Mudando de tema, passemos a outro assunto muito na moda, o feminismo tão apregoado por algumas dirigentes políticas e fazedoras de opinião.
Pela minha idade e leituras de longa data, sei bastante sobre as feministas iniciais que, essas sim, tiveram uma luta difícil para obter direitos que hoje vemos como básicos, como o direito de voto ou o de frequentar qualquer curso.
A ideia subjacente ao movimento feminista inicial era a de que nenhuma mulher poderia ser impedida de desenvolver o seu potencial e de se dedicar ao que queria fazer apenas por ser mulher. E, muito francamente, estou totalmente de acordo. Mas sempre discordei da ideia de que a culpa era toda dos homens, algo que expressei em São as mulheres que oprimem as mulheres.
O problema é que esse impulso inicial para dar direitos às mulheres e para que elas pudessem ser o que desejassem ser mudou rapidamente para uma quase imposição do que as autodenominadas feministas achavam que uma mulher devia ser. Ou seja, em vez de ser o chamado “patriarcado” a impor regras às mulheres, estas passavam a estar sujeitas às ideias do feminismo.
Por exemplo, se uma mulher queria, realmente, ficar em casa a cuidar dos filhos era vista como uma traidora ao movimento e desprezada pelas que tinham um “trabalho a sério”. E se acham que exagero, olhem à vossa volta e vejam as pressões a que as mulheres de agora estão sujeitas para terem tudo: êxito no emprego e serem boas mães.
Outra das bandeiras do feminismo inicial era a legalização do aborto. E tendo em conta a falta de alternativas da época, estou, mais uma vez totalmente de acordo. O problema é que continua a ser o grande cavalo de batalha das atuais feministas, que tentam alargar cada vez mais os prazos legais – em Nova Iorque até foi proposto que fosse legal até 24 horas após um parto normal!
O grande argumento é que o corpo é da mulher e que é a ela que compete decidir. Mas pelos vistos não lhes ocorre que a melhor decisão é tomar as devidas precauções para não engravidar. E ainda mais curiosamente, essa do “corpo é dela e é ela que deve decidir” não abrange tudo. É que se uma rapariga decide manter-se virgem até encontrar alguém de quem goste a sério torna-se, de imediato, alvo de chacota.
E passando à última grande batalha do feminismo inicial, uma mulher poder estudar e ter o emprego que quisesse, não é curioso que as grandes defensoras de quotas só o façam em certas áreas? Se as querem para diretores de empresas, porque não para carpinteiros ou eletricistas? Isto para não falar do desporto com a defesa acérrima da participação de mulheres transgénero. Falei, aliás, disto tudo em A Anulação das Mulheres.
Mas para mim a gota de água foi ver a defesa acérrima do uso da burca com o argumento de que são essas mulheres que decidem usá-la! E claro que exibiram umas tantas a dizê-lo, ignorando, pelos vistos, que uma mulher que acredita de facto no uso da burca nunca falaria em público e muito menos na presença de homens que não são da sua família.
Sei que é um cliché, mas se as primeiras feministas vissem o que é dito e feito em nome do movimento que criaram com tantos sacrifícios pessoais estariam, certamente, às voltas no túmulo.
Para a semana: Funcionários públicos. Com as greves anunciadas, talvez seja altura de falar desta classe cheia de direitos consagrados
