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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Luísa Opina

06
Set25

204 - Politiquices

Luísa

Face a acontecimentos recentes, decidi alterar o tema desta semana e falar de umas “coisinhas” que me incomodaram, dentro e fora do país.

Começo, como não podia deixar de ser, pelo desastre catastrófico do elevador da Glória. Só o usei uma vez, num dos anos em que fiz turismo em casa, ou seja, em Lisboa, mas passei muitas vezes junto dele, em baixo e no topo, parando sempre para o observar caso estivesse em movimento. Também usei os outros todos, uma vez que fiz questão de “averbar” o máximo possível de coisas a ver e a fazer em Lisboa,

Fiquei chocada com o que vi quando liguei a televisão – já tinha passado cerca de uma hora, penso eu – e, acima de tudo, intrigada, sendo engenheira e sabendo como funciona não conseguia entender o que poderia ter acontecido. É que mesmo que o cabo se quebrasse, a hipótese logo avançada, há sistemas de travagem nas cabinas precisamente para essa eventualidade.

Mas para além do resultado trágico do acidente, há outras coisas que me chocaram nas reações que se seguiram.

A primeira foi a dos sindicatos. Ainda estavam a retirar vítimas do local e já havia um representante sindical a dizer que a culpa era toda de terem entregue a manutenção a uma empresa privada e que nunca teria acontecido se fosse feita pelos trabalhadores da empresa. E não só, ao longo da noite foram surgindo várias declarações dos ditos trabalhadores a afirmarem que a manutenção andava a ser mal feita, as vistorias não eram suficientes, etc.

Para além do tremendo mau gosto de virem com conversas destas quando ainda nem se sabiam ao certo as consequências do acidente e muito menos as suas causas, não acham incrível que todas estas denúncias só surjam quando já não há remédio? É um pouco tipo violência doméstica, depois de alguém morrer não faltam pessoas a virem dizer que sabiam de tudo...

Já agora, terá ocorrido a estes senhores e aos “jornalistas” do costume que se calhar o acidente não teve uma única causa mas um conjunto delas? É o que costuma acontecer quando há casos destes, uma pequena falha leva a outra que leva a outra até ao colapso total.

O segundo cenário que me incomodou foi a pressa de muito boa gente em atirar culpas políticas. Sim, entendo que estamos em plena campanha eleitoral, não a oficial, claro, mas quem liga às datas? Mas atirar as culpas para o Moedas, enfim, não que eu goste dele ou pertença à sua Câmara, não é o caso, mas, muito francamente, não entendo, mesmo que tenha sido ele a assinar o contrato com a dita empresa de manutenção, algo que ainda não vi devidamente explicado, será que um Presidente da Câmara tem de vistoriar pessoalmente tudo e mais alguma coisa?

Pois é, a política obriga a muito, mas nunca pensei ver Chega e PS com o mesmo discurso...

E no caso do PS, é mesmo preciso ter muito descaramento! O então PM responsabilizou-se pelos 66 mortos e tremenda devastação do incêndio de Pedrógão? E tinha bem mais razões para o fazer, muitos dos dirigentes, ou antes, dos supostos dirigentes dos serviços responsáveis pela resolução do problema tinham sido nomeados por ele, mais ainda, o SIRESP não funcionava devidamente porque ele – ou o seu Governo – tinham decidido poupar dinheiro e cortar componentes sem saberem o que faziam.

Pior ainda, muitos ainda estão à espera de receberem os fundos que lhes foram prometidos. Onde está a responsabilização política desse partido?

Citam também muito o que Moedas terá dito aquando do envio para a Rússia dos nomes de manifestantes por parte da Câmara de Lisboa, como se a situação fosse similar. Que eu saiba, a Carris é uma empresa com gestão privada – apesar de ter fundos totalmente públicos. Já uma Câmara está, ou devia estar, sobre a alçada do seu presidente. E que eu saiba o Sr. Medina nada fez, tal como nada aconteceu à pessoa responsável por esse “erro”.

E aquela Sra. Leitão, a que almoçou no Martim Moniz e garantiu que era perfeitamente seguro e que só racistas diziam o contrário, irá responsabilizar-se por todos os crimes que ali aconteçam a turistas ou cidadãos que, fiando-se na sua palavra e nas imagens que viram, por ali circulem?

Não sou ingénua, sei muito bem que na política vale tudo, infelizmente, mas há coisas que me dão a volta ao estômago. E ver o aproveitamento que se está a fazer de uma tragédia é uma delas, desde sindicatos a partidos, tudo com a ajuda, claro está, do “jornalixo” cada vez mais abundante.

E por falar disso, fiquei muito satisfeita ao saber que, sem muitos gastos, posso ter um “navio”. É que se um barco de motores fora de borda passa a “navio venezuelano atacado pelo Trump”, então há esperança para mim.

Mantendo-me nas politiquices internacionais, ficamos a saber que os cortes de ajuda humanitária do Trump, que ainda não entraram em vigor, já foram responsáveis por milhões de mortos por SIDA. E haver um alto dirigente sul-africano a dizer que a cura para a dita está em ter sexo com uma virgem não tem absolutamente nada a ver com isso. Nem o facto de os muitos biliões enviados sobretudo para África para combater a fome, doenças, etc., nunca tenham efeitos visíveis, mas que os líderes destes países, as suas famílias e amigalhaços tenham um nível de vida e de despesas de fazer inveja a muito milionário. Não, a ênfase vai para os cortes e, evidentemente, para o folclore da “flotilha”, de que falarei quando houver mais evoluções nesse ato “corajoso”.

Enfim, enquanto houver politiquices com coisas sérias, será muito difícil conseguir a tal mudança do país e do mundo que muitos dizem querer. Pelo menos não uma mudança positiva.

Para a semana: Falemos de educação. Perante alguns comentários e notícias que li recentemente, é altura de voltar ao assunto.

12
Jul25

196 - Pequenas mudanças, grandes resultados

Luísa

Estão neste momento em discussão propostas de alteração de várias leis / sistemas, alterações essas muito contestadas pelos “suspeitos do costume”, claro está, apesar de ainda ser tudo muito vago e sujeito a alterações. Mas nem outra coisa seria de esperar atendendo a que temos na Assembleia da República um partido que anunciou que iria votar contra o programa do Governo – só que, pequeno detalhe que se calhar lhe passou despercebido, ainda nem sequer havia Governo...

Uma dessas questões tem a ver com a Lei da Greve no sentido de ter de haver sempre serviços mínimos. Ora, na minha opinião, claro, isso nada resolve, mesmo partindo do princípio que se consegue fazer essa alteração. Mas há outras medidas que se podiam tomar para que passássemos a ter greves a sério e não ao sabor de interesses políticos nem sequer muito bem encapotados.

Comecemos pelo princípio. Temos inúmeros sindicatos que se gabam de ter muitos milhares de membros. Curiosamente, sempre que ouço isso lembro-me dos clubes de futebol. Há muitos que afirmam o mesmo, só que, quando é altura de eleições e é preciso ter as cotas em dia para votar, os muitas dezenas de milhares ficam reduzidos a muito pouco.

Pior ainda no caso dos sindicatos, temos o modo como decretam as greves: ou pura e simplesmente por decisão da sua direção ou, nos mais “democráticos”, por voto de braço no ar, um estilo de votação que não é praticado em nenhum país civilizado.

Proponho, pois, o seguinte para pormos fim às greves selvagens que assolam o dia a dia de quem trabalha de facto e que é sempre quem mais prejudicado é por essas atitudes a favor dos “trabalhadores”.

Primeiro, os sindicatos teriam de partir todos da estaca zero, ou seja, teriam de reinscrever os seus membros. E, pequeno detalhe, lembro que não é obrigatório pertencer – ou continuar a pertencer – a um sindicato. Veríamos, assim, o peso real dos ditos nos setores que dizem representar.

Segundo, uma greve só pode ser decretada por voto secreto dos membros desse sindicato. Ou seja, urna fechada. Mais ainda, podíamos ir buscar o exemplo inglês em que acima de uma determinada dimensão tem de ser contratada uma empresa externa para contar os votos. Último detalhe, a greve só pode ir em frente se for votada por mais de 50 por cento dos sindicalizados – atenção, não são 50 por cento dos votos expressos mas sim dos membros desse sindicato, ou seja, a direção teria mesmo de os convencer da justeza da greve.

Não sei porquê, suspeito que, sobretudo com esta segunda medida, o número de greves cairia a pique...

Passemos, agora, a outro tema muito na moda, o reagrupamento familiar. Acho ótimo que os imigrantes que cá estão queiram mandar vir a família. Só que... pois, há sempre um senão nestas coisas. E neste caso é até bem simples, basta fazer uma simples pergunta: o imigrante em questão tem como sustentar os ditos familiares? Ou quer mandá-los vir para passar a receber ainda mais ajudas e subsídios e / ou, com o pretexto de ter filhos menores, receber de imediato uma casa a custo baixíssimo (isto se pagar a renda)?

Para evitar que os que vêm sobrecarreguem ainda mais as nossas pobres finanças públicas, aqui fica a minha proposta:

Primeiro, para pedir o dito reagrupamento familiar é preciso ter trabalhado legalmente – ou seja, com descontos e impostos – durante um mínimo de cinco anos.

Segundo, o imigrante em questão tem de ter casa onde instalar a família que vier ter com ele. E, pequeno detalhe, mas muito importante, não terá direito à chamada habitação social durante pelo menos dez anos. O mesmo se aplica a subsídios e ajudas de todos os tipos – incluindo o RSI.

Terceiro, é responsabilizável pelo bom comportamento escolar e social de filhos que mande vir para cá, com um sistema de tolerância zero. Isso inclui a aprendizagem do português caso não o falem.

E se estão a pensar, coitados, assim só podem mandar vir a família os que tiverem um bom emprego, bom, acham bem que sejamos nós a pagar pela vinda e sustento dessas pessoas? É que se acham que sim, a solução é simples, criem uma associação que o faça com as vossas cotas...

Finalmente, e de certo modo associado ao tema anterior, a muito contestada alteração da lei da nacionalidade.

Sim, é preciso reformulá-la muito a sério, mas até lá, que tal aplicar como deve ser a que já existe?

Que eu saiba, inclui pelo menos dois pontos: emprego e conhecimento da língua portuguesa. Ora a avaliar pelos resultados que grassam por aí, muitos dos primeiros são falsos, “criados” apenas para apresentar o papel na altura do pedido e esquecidos mal resulta. E quanto ao português... não faltam por aí “portugueses” que nem uma palavra dizem, levando-nos a questionar como é que obtiveram a nacionalidade.

Como o combate à corrupção está também muito na moda, que tal investigar as atribuições de nacionalidade dos últimos cinco anos? Ou seja, prova de que tinham, de facto, um emprego a sério quando fizeram o pedido – e uma explicação decente para o que lhe aconteceu depois, suspeito que muitos esfumaram-se mal foram obtidos os documentos da praxe. E um exame a sério dos conhecimentos de português do dito cidadão.

Caso não satisfaçam estas exigências, a atribuição da nacionalidade será, pura e simplesmente, considerada dolosa e fica sem efeito – eu diria, até, que se fosse investigar quem lhe deu o aval, mas como serão funcionários públicos, não vale a pena, se forem despedidos lá virá o Tribunal Administrativo zelar por eles.

Resumindo, sem alterar as leis teríamos, certamente, um resultado bem melhor do que continuar à espera das medidas perfeitas, sobretudo com um PM que oscila entre querer agradar à população que votou, claramente, contra a esquerda e as suas tendências naturais de se chegar ao PS.

Para a semana: Protegemos mesmo as crianças? Com o choro e ranger de dentes a que assistimos recentemente, é altura de fazer esta pergunta.

28
Jun25

194 - É desta! Vamos acabar com a burocracia!

Luísa

Quando vim definitivamente para Portugal nos anos 80, uma das promessas que me lembro de ouvir logo nas primeiras eleições que aqui passei foi, precisamente, “vamos acabar com a burocracia”. E quarenta anos depois lá vem a mesma promessa, entretanto repetida em todos os períodos eleitorais. Houve, até, governantes que se gabaram de a ter conseguido simplificar – e houve, de facto, alguma simplificação em certas áreas, mas que foi prontamente colmatada por novas burocracias.

O pior até nem é haver tanta mas sim a sua ineficiência. Geramos, há séculos, toneladas de documentos mas, quando é preciso encontrar alguma coisa, bom, aí a história é outra. Até nesta era supostamente informatizada, o cruzamento de dados deixa imenso a desejar, sobretudo porque muito frequentemente os sistemas dos vários ministérios ou, até, de departamentos deles, são totalmente incompatíveis.

E muitas vezes os próprios serviços não fazem ideia do que é preciso para determinado resultado. Por exemplo, as Finanças exigiram-me em tempos um documento do meu Banco – a mim e a muitos outros – e este não o tinha. Fui tentar resolver o assunto, perdi horas à espera e o que me valeu foi um dos funcionários, já idoso, ter ouvido a questão e dado a solução, com grande espanto dos seus outros quase 30 colegas presentes, que a desconheciam.

Eliminar ou, até, reduzir a burocracia, de facto, uma missão impossível, não só devido à tremenda inércia de todo um sistema criado e refinado ao longo de séculos mas também porque há duas forças que lutam para manter as coisas como estão: sindicados e Tribunal Administrativo. Bom, três, os próprios funcionários públicos.

E é por estes que vou começar.

Sempre que os utentes se queixam de atrasos ou complicações, a reação é sempre a mesma: falta de meios – mas, atenção, se lhes pedirmos que digam exatamente do que precisam para cumprir a sua missão, bom, bem podemos esperar sentados. Junte-se a isso o “choradinho” na altura das greves de que estão sobrecarregados de trabalho e fica a imagem de um pobre funcionário público que trabalha arduamente sem ferramentas de trabalho à altura da dificuldade da tarefa.

Só que... será sobrecarga, o velho “deixa andar” ou incompetência e falta de produtividade?

Quando o país se começou a informatizar, ou antes, já muito depois disso, quando quase todo o gato sapato usava computadores com à vontade, ainda se ouvia muito dizer em repartições públicas, “tem de voltar noutro dia, a pessoa que usa o computador não está.” E sei que podiam ter acesso a cursos de informática do utilizador em horário laboral.

E há também a rotina. Há uns anos tive de ir às Finanças de Cascais entregar um documento, era uma simples entrega, pois bem, tive de voltar duas semanas depois porque “a pessoa que trata disso está de férias”. Já agora, como corolário, uns tempos depois tive de voltar lá por outra questão e ouvi a conversa entre uma das funcionárias e uma solicitadora que estranhara a sua presença naquele balcão, que não era o seu usual – dito em tom queixoso e de vítima assoberbada, “O Portas exige que todos aprendam o trabalho uns dos outros para que nos possamos substituir quando for necessário.”

Passemos aos sindicatos. Com a diminuição ou, até, a extinção de certas indústrias com muita mão-de-obra e a sua substituição por outras que nada querem com sindicatos enfeudados a partidos políticos, o funcionalismo público é o seu último grande bastião. Escusado será dizer que as únicas mudanças que querem ver é mais pessoal, menor horário de trabalho e mais regalias. E tudo o que cheire a ir alterar, por muito pouco que seja, os interesse instalados dá logo direito a manifestações e greves.

Ora, ao contrário do que disse o atual PM, não é possível reduzir a burocracia sem que haja alterações nos quadros que a sustentam. A simplificação, fusão ou extinção de muita dela implicaria, inevitavelmente, a transferência de pessoal de uns serviços para outros, a sua formação em novas técnicas de trabalho ou, até, o seu despedimento.

É claro que toda esta mudança passa, também, por um levantamento a sério e célere dos funcionários existentes, das suas habilitações e, acima de tudo, do que fazem, exatamente, no serviço a que estão afetos. Suspeito, fortemente, que se iria descobrir que muitos pouco ou nada fazem porque as suas tarefas mudaram e eles não acompanharam a mudança. E se acham que estou a exagerar, sabiam que a RTP, empresa pública, teve de manter durante anos nos seus quadros alguns eletricistas que nada faziam porque o tipo de equipamentos que mantinham fora retirado de serviço e se tinham recusado a aprender a cuidar do novo?

Já tivemos um PM que propôs a transferência de excedentários para outros serviços, sendo vilipendiado por isso, claro. Uma das propostas dele é que a parte burocrática das esquadras ficasse a cargo de funcionários públicos não polícias, libertando estes para trabalho policial. Comentário dos sindicatos? “Mas o que é que essas pessoas sabem do funcionamento de uma esquadra?” Bom, pelos vistos nasceram ensinadas para as suas atuais funções...

E quando se fala em reduzir pessoal, bom, vêm sempre com os médicos, enfermeiros e professores. É que, evidentemente, estes constituem a totalidade, ou quase, dos 758 889 funcionários públicos existentes no primeiro trimestre de 2025 (em 5,1 milhões de trabalhadores).

Quanto ao Tribunal Administrativo, não sigo de perto as suas decisões, mas nunca o vi ir contra um “trabalhador”. Como o caso que me chocou profundamente de uma chefe de secção presa e condenada por roubar os seus subordinados (malas, carteiras, o que calhava) e que, tendo sido despedida, o dito Tribunal ordenou a sua reintegração, mais ainda, com direito aos aumentos e regalias a que teria direito se não estivesse presa!

Com tudo isto contra qualquer reforma a sério da burocracia que, repito, tem de passar por mudanças nos que a criam e perpetuam, não acredito que se consiga mudar seja o que for, por muito boa vontade que haja em fazê-lo.

Para a semana: Profissão: manifestante  Já repararam que Ocidente fora temos sempre os mesmos a protestar contra tudo e mais alguma coisa?

03
Mai24

134 - Só alguns são trabalhadores...

Luísa

A minha vinda definitiva para Portugal deu-se no início dos anos 80, apesar de ter passado anteriormente dois anos neste país, a partir de 76 / 77, mas como estudante. Como sempre faço quando mudo de país, dediquei-me a ler jornais de fio a pavio e a ver o máximo de noticiários – bom, na altura só existia a RTP – para tentar perceber o que se passava no meu novo lar.

E uma das coisas que me chamou de imediato a atenção foi o número de greves e protestos laborais, era rara a semana em que não houvesse pelo menos um desses acontecimentos. E posso garantir-vos que tentei, muito a sério, entender o que se passava e o que pretendiam, até porque tinha lido bastante sobre sindicalismo.

Houve várias coisas que me chocaram, digamos, sendo a principal o enfeudamento – sim, é o termo correto – da maioria esmagadora dos sindicatos a partidos políticos, sobretudo de esquerda. E também, provavelmente por influência destes, as votações de braço no ar, com a inevitável pressão para “ir na onda” com o que quer que a respetiva direção quisesse.

Mas aquilo que mais me intrigou foi o modo como usavam o termo “trabalhador”. Ouvindo-os, acabei por chegar à conclusão de quem trabalhava por conta própria ou até mesmo quem o fazia por conta de outrem, mas sem ser sindicalizado, não entrava nessa definição.

Infelizmente, esse foi uma dos conceitos que perdurou até hoje.

Por exemplo, quando “especialistas” – e se costumam ler-me sabem porque usei aspas – afirmam que se pode pôr o funcionalismo público com a semana de quatro dias porque isso não trará grandes contratempos financeiros. Espantoso! É esse o único critério? Pelos vistos, é, pelo menos para os ditos e também para os sindicatos.

Mas... e o resto da população, a tal que não tem direito a um dia por mês para tratar de assuntos? Se com cinco dias já é complicado resolver as coisas, imagine-se como será em quatro! Mas tudo bem, na maior parte dos casos não entram na definição de “trabalhador”.

À parte tudo isto, já repararam que a definição de trabalho e de emprego têm evoluído imenso em todo o mundo Ocidental mas que para muitos dos nossos partidos – e sindicatos – continua tudo na mesma? E que, por defeito profissional ou por nunca terem trabalhado, como acontece com muitos dos nossos políticos, não fazem a menor ideia do que se passa o mundo real?

Por exemplo, durante a pandemia, em que as empresas que o podiam fazer optaram pelo trabalho à distância, só ouvimos falar de problemas, na maior parte inexistentes exceto nas suas cabecinhas. Basicamente, era uma desgraça a ser evitada a todo o custo porque trabalho a sério só é num local de trabalho de betão e aço, com horários a cumprir e rodeado dos restantes trabalhadores.

Hum... porque será que suspeito que muitos dos abrangidos só não ficaram nessa opção após a pandemia porque não lhes foi proposta? É que a tendência mundo fora é haver cada vez mais pessoas a escolherem trabalhar em casa, até mesmo em tarefas que à partida se poderia julgar serem inadequadas para tal. E fazem-no por vontade própria e com grande satisfação pessoal e profissional, tanto deles como de quem os contrata.

Mas políticos, sindicatos e até muitos patrões continuam parados no tempo, pior ainda, muitos trabalhadores, no sentido amplo do termo, também, não tentando, sequer, explorar outro modo de fazerem o que fazem ou, até, de passarem a fazer outra coisa, o mundo atual está cheio de possibilidades para quem não está agarrado à ideia do “emprego para a vida”.

E sim, estou ciente de que ainda há muitos portugueses sem habilitações para muitos destes empregos, mas, em vez de choradinhos, que tal possibilitar-lhes uma mudança de rumo? A começar logo no ensino obrigatório, aposto que muitos dos alunos nem sequer fazem ideia deste tipo de opções, a menos que conheçam alguém a trabalhar deste modo.

E como um dado recente diz que os patrões portugueses são dos menos qualificados da UE, que tal fazer ações educativas que os tenham como alvo? É que este novo mundo é algo verdadeiramente assustador para muitos deles, de tal modo que nem tentam começar a conhecê-lo ou às vantagens, muitas delas financeiras, que lhes poderia trazer.

Há ainda um outro aspeto, o chamado trabalho precário. Diga-se de passagem que, tantos anos depois da minha chegada a Portugal, esta expressão ainda me faz imensa confusão. É que nunca entendi como pode ser o sonho de um jovem entrar para uma empresa – ou para o Estado – onde ficará, muito quietinho, até à Reforma e a fazer, de preferência, praticamente sempre a mesma coisa.

Se fosse essa a minha perspetiva de vida, garanto-vos que entraria em depressão profunda. Sim, trabalho há muitos anos como freelancer na mesma área, mas apenas porque o que faço é suficientemente variado para não se tornar rotina. E sim, não tenho um salário garantido ao fim do mês, mais o resto das regalias que muitos parecem ver com o Bem Supremo, mas posso trabalhar à minha vontade.

E não sou a única, é que trabalhar por conta própria está a tornar-se uma opção cada vez mais popular, sobretudo aliada ao uso de novas tecnologias. É que se pode ser, até, um chamado nómada digital, ou seja, alguém que anda a viajar, parando uns tempos em cada local, mas mantendo-se a trabalhar a maior parte do tempo. Há cada vez mais profissões e trabalhos em que não interessa onde estamos, desde que haja uma boa ligação à Internet, o que importa a quem nos contrata é que as tarefas sejam cumpridas.

Ora aqui está uma boa opção para as aldeias desertificadas, torná-las apelativas para esta nova onda de trabalhadores à distância, em muitos casos bastava garantir a tal boa ligação à Internet que o resto iria aparecendo.

Só que, para quem manda na política e para os sindicatos, todas estas pessoas não têm direito pleno ao nome de trabalhador...

Para a semana: Em vez de... Sugestões de opções para alguns problemas  atuais

02
Fev24

121 - E vivam as greves!

Luísa

Quando vim definitivamente para Portugal em finais dos anos 80 um dos aspetos da vida portuguesa que mais curiosidade me despertou foi a enorme quantidade de greves. Como eram novidade para mim, dei-me ao trabalho de ler e ouvir cuidadosamente as notícias sempre que havia uma – ou seja, quase todos os dias...

O primeiro detalhe que achei giríssimo foi ouvir sindicatos da CGTP a usarem todo o tipo de propaganda comunista para defenderem o que diziam e faziam. Acontece que eu tinha acabado de viver e trabalhar uns 4 anos num país comunista e, muito francamente, se alguém ali dissesse essas coisas teria um futuro muito negro – e curto!

Mas, enfim, cada um é livre de pensar o que quiser, pelo menos é essa a minha opinião, não partilhada, obviamente, por wokes e similares.

O detalhe seguinte foi a tremenda quantidade de greves que se realizavam neste país tão pequeno em área e população. Pensei, até, várias vezes que seria útil existir um site na Internet – que, lembro, estava na infância – onde os cidadãos normais, digamos, pudessem ir ver quais eram as greves desse dia para tomarem algumas medidas, se o pudessem fazer, ou, no mínimo, para não serem apanhados desprevenidos.

E quando comecei a analisar um pouco mais as coisas, espantou-me o modo como uma greve era decretada, pela direção do sindicado ou pelo “voto” dos sindicalizados presentes numa reunião. Sim, voto entre aspas, tive sempre muitas dúvidas sobre a validade democrática de votar de braço no ar, especialmente em certos ambientes claramente hostis a quem não fosse na onda.

Como tinha lido bastante sobre sindicalismo e greves em outros países, confesso que este sistema me chocou bastante. Em Inglaterra, por exemplo, uma greve tem de ser votada – com votos a sério – pelos sindicalizados todos, mais ainda, se a empresa estiver acima de uma certa dimensão, não muito grande, o resultado tem de ser apurado por uma empresa de fora. Pois, bem parecido...

Outra coisa que me intrigou foi ver a repetição de greves do mesmo setor, sem que percebêssemos bem o que queriam. Será que as direções dos respetivos sindicatos nunca perceberam que a habituação leva à indiferença? Lembro-me de há uns anos um dos grandes sindicatos alemães ter decretado uma greve – bom, votado, também aqui com votos a sério. Pois bem, o país inteiro ficou em polvorosa, queriam saber as razões, o que pediam, tudo. E porquê? Bom, era a primeira greve que faziam desde a sua criação décadas antes, em geral resolviam tudo a bem.

Bem parecido com o que se passa em Portugal onde, se alguém diz “Os transportes estão em greve” o comentário que mais se ouve é, “Outra vez?” E ninguém pergunta porquê.

Mas a melhor, para mim, claro, é a figura da greve de aviso. Sabem, vão começar as negociações e o dito sindicato decreta uma greve para avisar de que fala a sério!

É claro que a maioria das greves neste país são feitas pelos “coitados” dos funcionários públicos. Não que não as haja no setor privado, sobretudo as de um tipo que me deixa sempre intrigada, a greve de trabalhadores de uma empresa que está em dificuldades económicas... pois, ajuda imenso ao futuro económico da dita!

Depois há o pequeno detalhe da definição do termo “trabalhador”. É que para um sindicato só merece esse nome quem lhes pertence. Lembram-se das greves há uns anos contra a abertura de supermercados ao domingo, com o grande argumento de “os trabalhadores têm direito a descansar nos mesmos dias do resto da população”? Pelos vistos as muitas pessoas que trabalham e só podem fazer compras com mais calma nesse dia não são “trabalhadores”.

Há também a definição do termo “negociar”. Pelos vistos, para um sindicato isso significa o outro lado dar-lhes tudo o que pedem – perdão, que exigem! – sem que eles tenham de dar nada em troca.

O que me leva às exigências e justificações. A frase mais comum, sobretudo quando se trata de sindicatos das áreas dos transportes, educação e saúde, é a defesa da qualidade – ou, até, a sua melhoria. Curiosamente, mal conseguem mais dinheiro e regalias, pronto, fica tudo bem, e os papalvos que lhes pagam têm de acreditar que mais uns euros nos bolsos deles vão traduzir-se em melhoria do serviço, da qualidade do ensino e dos cuidados de saúde prestados. Pois!

Há, também, greves com que eu até concordaria, se não viesse depois a saber o que pedem. Como exemplo, há uns anos os trabalhadores de um matadouro entraram em greve porque as instalações eram antigas e potenciavam um real perigo para a saúde de quem ali trabalhava. Aplaudi, claro, quem não o faria? Só que... a sua única exigência era passarem a receber um subsídio de risco! Atenção, não enquanto renovassem o dito matadouro ou fizessem outro, isso nem foi mencionado, não, simplesmente um subsídio – e para sempre, claro, isso estava implícito.

Curiosamente, não vi ninguém fazer uma perguntinha de algibeira: se as instalações eram más a ponto de porem em perigo a saúde de quem lá trabalhava, isso não afetava a qualidade da carne que produzia?

Como último ponto, o que se passa atualmente com os polícias. Entendo que não há dinheiro para o que pedem, mas, muito francamente, porquê dar só a uns e não a todos? Ou os nossos ainda (des)governantes esperavam que não acontecesse nada?

Só mais uma coisinha, há uma greve “ameaçada” que eu adorava que se concretizasse: a dos jornalistas! Será que dávamos por ela?

Para a semana: Desejos para as eleições Como ainda falta um mês, pode ser que alguém escute...

05
Mai23

82 - Dia dos Trabalhadores

Luísa

Quando anunciei o tema desta semana esqueci-me de olhar para o calendário não tendo, por isso, reparado, que tinha pelo caminho o 1º de Maio, o chamado Dia dos Trabalhadores. Irei, pois, falar de assuntos em torno desta data.

Primeiro, um pequeno contexto pessoal. Não nasci nem cresci em Portugal e quando para cá vim, uns bons 2 anos após o 25 de abril, foi para estudar. Saí depois para trabalhar e só regressei em finais dos anos 80. Não assisti, pois, ao grosso das contestações laborais, mas ainda vi o suficiente para haver certas coisas que me metiam alguma confusão.

A primeira delas é o total enfeudamento dos sindicatos a partidos políticos, uma situação inédita em países democráticos. Sim, noutros países os vários sindicatos ou uniões de sindicatos podem declarar-se por um ou outro candidato quando é altura de eleições, mas não “pertencem” a nenhum partido político.

E esse é um detalhe que, repito, sempre me fez confusão. Como é que um sindicato (ou central sindical) pode afirmar que “defende os interesses dos trabalhadores” se tem, ao mesmo tempo, de atuar dentro dos limites das políticas económicas e ideológicas do partido a que está ligado? Quantas das greves em Portugal são realmente por questões laborais e quantas por razões políticas? Pois, suspeito que a grande maioria caiu, durante décadas, nesta segunda categoria.

Um outro aspeto em que diferimos de outros países, e não em nossa vantagem, é o modo como uma greve é convocada. Ou é simplesmente anunciada pela direção do respetivo sindicato ou, quando há “votação”, esta é feita de braço no ar numa sala apinhada. Muito francamente, com as cenas a que temos assistido de insultos e agressões por parte dos piquetes de greve, alguém acha que uma votação feita nesses termos é mesmo um ato democrático e que reflete a vontade dos sindicalizados?

Já agora, nos tais países democráticos uma greve só pode ser convocada após uma votação a sério com urnas fechadas, percentagens de votantes e de sins, enfim, algo a sério. E se um sindicato tem mais do que um certo número de membros, a contagem e verificação dos votos têm de ser feitas por uma empresa externa ao sindicato!

Ouvimos, também, falar muito do peso dos sindicatos. Mas esses números dizem exatamente o quê? Serão mesmo reais? Ou teremos também aqui o cenário de certos partidos que arranjaram inicialmente o número de assinaturas para serem criados mas que, a avaliar pelo que fazem em campanhas legislativas, o mais provável é agora nem um décimo conseguirem (digo um décimo porque sou uma otimista nata...).

Outro aspeto que me faz confusão quando ouço sindicalistas é a questão dos contratos coletivos. Sim, a teoria até é boa, é óbvio que, até um determinado nível de desenvolvimento económico de um país e para certos setores, cem ou mil têm muito mais poder negocial do que um ou até dez. O problema está numa outra curiosidade do nosso país, os problemas em despedir. Graças a isto, o que um contrato coletivo faz é tratar do mesmo modo quem cumpre e trabalha e quem nada faz.

Mas tudo isto nem sequer é o pior do nosso sindicalismo. Infelizmente! Já repararam que para os líderes sindicais “trabalhador” é apenas alguém com um emprego abrangido por um sindicato? E notaram que ao ouvirmos os seus discursos e declarações nos sentimos em pleno século 19 ou, quanto muito, em meados do 20?

O mundo mudou imenso mas para eles continua tudo na mesma.

Vejamos, por exemplo, os trabalhadores por conta própria. Estão em número crescente em todo o Ocidente e Portugal não é exceção. Temos até agora os chamados “nómadas digitais” que, muito simplesmente, vagueiam pelo mundo enquanto trabalham para clientes em países dispersos e que só por mero acaso coincidem com o da sua atual residência. Mas para os nossos sindicatos nada disso existe. Ou, se fazem o favor de admitir que há pessoas dessas, bom, não são bem “trabalhadores” e, sendo assim, não lhes interessam.

Perante tudo isto, admiram-se que cada vez mais portugueses mandem o sindicalismo “dar uma curva? Que os que o podem fazer prefiram negociar o seu próprio contrato de trabalho do que sujeitar-se ao tal contrato coletivo que dá o mesmo salário e benesses ao bom trabalhador e ao mau?

Acho que é mais do que altura de os nossos sindicatos olharem bem para o país e para os trabalhadores que dizem representar e fazerem um esforço para serem o que sempre deviam ter sido: organizações que defendem as melhores condições possíveis, de um modo realista. Sim, realista, quando ouço algumas das suas reivindicações fico logo a pensar o que é que aqueles dirigentes andarão a tomar...

E acabarem de vez com estas greves atrás de greves que, analisadas como deve ser, não resultam em nada. É que são tantas que já ninguém quer saber, a única coisa que importa à população é o incómodo que lhes causam. Já agora, há uns anos o maior sindicato da Alemanha decretou uma greve – usando uma votação a sério – e todo o país seguiu o acontecimento atentamente. É que era a primeira em trinta e muitos anos e todos queriam saber a razão de algo tão invulgar. Pois, aqui é a mesma coisa...

Não ouço os discursos deste tipo de datas, mas apanhei de passagem um líder sindical a dizer que havia poucas pessoas na marcha ou lá o que foi do 1º de maio “porque tinham medo das represálias do patronato”. Notícia de última hora, a verdadeira razão é vocês estarem mais do que obsoletos e poucos vos verem a menor utilidade – a menos que seja pelo tacho de se ser sindicalista, claro.

Para semana: Fazer omeletas e manter os ovos. A propósito dos incómodos causados pelas obras em Lisboa (e não só)

10
Dez21

11 - Mitos perigosos, parte 1

Luísa

Hoje vou começar a falar de uma série de “mitos”, à falta de um termo melhor, alguns muito portugueses, outros infelizmente internacionais, e que causam todo o tipo de problemas e crises. Não que tenha ilusões de que falar neles fará com que desapareçam, mas não me posso coibir de lançar o alerta. Como o tema dá “pano para mangas”, citarei apenas dois este post, um geral, o outro bem nosso.

Mito 1: quem luta contra um ditador é democrata

Este é um dos mitos internacionais mais espalhados atualmente e que tem tido consequências verdadeiramente desastrosas, vejam-se os casos da “Primavera Árabe”, Líbia e Síria.

Vamos por partes. Seria realmente de pensar que quem arrisca a vida e a liberdade na luta contra uma ditadura fá-lo porque quer substituí-la por uma democracia. Faz sentido, não faz? Infelizmente, os factos provam que o único problema que essas pessoas têm com a dita ditadura é não ser a deles.

Uns exemplos?

Fala-se muito na oposição ao governo da Arábia Saudita e de como este é mau para as mulheres. E é. Infelizmente, se lermos o que esses opositores diziam há uns anos (agora moderaram o discurso para deitar poeira nos olhos do Ocidente, falam, como no Afeganistão atual, em respeitar as mulheres à luz do Islão), a sua oposição advém de acharem que o dito governo não é suficientemente religioso, como compete a quem governa o país onde se situa Meca. E já agora, que é demasiado tolerante com as mulheres...

Na Síria, e falo por experiência própria, a gloriosa oposição ao Assad veio de Homs, uma cidade radical islâmica onde quem não cumpria as rígidas regras religiosas, sobretudo as mulheres, era insultado e só não lhe acontecia pior porque a polícia do mau do ditador não deixava. Ora sob o presidente Assad, o mau contra quem lutam, havia liberdade religiosa, cristãos viviam lado a lado com muçulmanos e ninguém podia atacar ninguém, nem por atos nem por palavras. Era também vulgar ver, como eu vi várias vezes quando lá fui de férias, uma mulher totalmente tapada lado a lado com outra de minissaia (e tão míni que quase não existia) e um top reduzido. E nenhuma dizia nada à outra, sob pena de serem presas.

Mas o Ocidente deixou-se enrolar com o discurso da “luta contra a ditadura” e ignorou totalmente os crimes cometidos por esses supostos defensores da democracia, crimes realmente atrozes, sobretudo contra cristãos, mulheres e homossexuais.

Tivemos também a “Irmandade Islâmica” no Egito, com resultados terríveis para uma população mais ou menos laicizada. Na Líbia, o entusiasmo por derrubar Kadafi, fechou os olhos às verdadeiras razões da luta contra ele e que eram, resumidamente, a guerra pelo controlo do petróleo existente em áreas pertencentes a tribos “mistas” (como o Kadafi o era) e que as populações árabes das regiões mais costeiras queriam para si.

O problema é que mal se ouve “lutar contra a ditadura”, o bom senso sai porta fora e ninguém, e por ninguém refiro-me a políticos e sobretudo a jornalistas, se dá ao trabalho de verificar o que é esse movimento de resistência e em que é que acredita.

Mito 2: os sindicatos protegem os trabalhadores

Bom, a teoria é essa e não tenho a menor dúvida de que realmente o faziam, em tempos idos, foram até durante muito tempo a sua única proteção contra todo o tipo de abusos. E presto-lhes a devida homenagem ao muito que fizeram em termos de condições laborais, redução dos absurdos horários de trabalho e muitas outras melhorias.

O problema está no que acontece atualmente com os chamados contratos coletivos de trabalho. E, atenção, neste mito refiro-me única e exclusivamente à realidade portuguesa.

Imaginemos uma empresa com um desses contratos e em que trabalham, lado a lado, o José e o António. O José chega a horas, nunca sai mais cedo, não falta e cumpre as suas funções o melhor que pode. O António, por outro lado, chega muitas vezes atrasado, sai outras tantas mais cedo, falta por tudo e por nada, está sempre a sair para ir tomar um café ou fumar um cigarro e, mesmo quando está presente, pouco ou nada faz, sobrecarregando os colegas com a parte que lhe competia e que não executa. Exemplos extremos? Talvez...

Ora para o sindicato presente nessa empresa, são ambos trabalhadores de pleno direito e tudo o que for negociado em benefício de um, o cumpridor, abrange também o outro, o não cumpridor. Mas tudo bem, a teoria é que contratos individuais de trabalho levam automaticamente à exploração de quem trabalha.

E porque é que este mito é perigoso? Pois bem, por muito boa pessoa que o José seja, mais cedo ou mais tarde vai fartar-se de ser cumpridor quando nada ganha com isso. E a empresa acaba por ficar cheia de Antónios, com consequências fáceis de prever para a sua produtividade e para a criação de riqueza para o país.

É claro que na base deste mito está a tal nova interpretação do termo “trabalhador” que referi em Novo Dicionário Precisa-se, Parte 1, ou seja não é uma pessoa que trabalha mas sim alguém que tem um emprego abrangido por um contrato coletivo de trabalho e sob a alçada de um sindicato.

E acabamos numa situação muito bem retratada no livro “Viver sem trabalhar num país à beira-mar” de Luís Campos. É de 1983 mas pelo que sei, foi reeditado. Li-o há muitos anos e nunca me esqueci do texto com o mesmo título em que, depois de analisar os vários setores dispensados de trabalhar por esta ou aquela razão, o autor chegava à conclusão de que, “em Portugal só trabalhava ele e um outro, por isso o outro que ficasse com tudo, ele estava farto” (estou a parafrasear).

Não nos acautelemos, e será esse o nosso futuro. Mas tudo bem, teremos todos contratos coletivos negociados por sindicatos!

Para a semana: Mentir dizendo só a verdade – pois, parece um contrassenso, mas não o é

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