212 - A propósito das tempestades desta semana
Tivemos esta semana uns dias terríveis, entre chuva, vendavais e todo o tipo de cheias e destruição, infelizmente também com feridos e, pior ainda, alguns mortos. E, apesar de os serviços meteorológicos terem alertado para a chegada de mau tempo, penso que poucos esperariam que fosse assim tão catastrófico.
Já falei anteriormente – bem recentemente, aliás – deste tema a propósito da Tempestade Martinho em Falemos de Catástrofes, em que referi, nomeadamente, a criação de um kit pessoal de emergência, não no seu sentido clássico (água, comida...) mas sim com pequenas coisas como cópias dos documentos, medicamentos, um carregador / extra para o telemóvel, lanterna, etc. E, a nível da sociedade, tentar fazer o que se pode para não sobrecarregar os serviços de emergência.
Pelo que vimos nestes dias, ficou, mais uma vez provado, que pouco podemos fazer quando a natureza desencadeia uma boa parte do seu poder. É que, ao contrário do que se passa em certas obras de ficção científica, o nosso nível científico e tecnológico não nos permite controlar o clima e muito menos os seus excessos.
Mesmo assim, há muita coisa que se pode fazer, sobretudo para atender ao que se passa durante e depois. Pequeno detalhe, fiquei agradavelmente surpreendida com reportagens de Nisa em que, na própria noite dos estragos fizeram “remendos” nos telhados afetados para evitar que esses moradores ficassem desalojados e no dia seguinte, mal melhorou um bocadinho, começaram logo a trabalhar para reparar os estragos.
Não irei falar em modos de evitar problemas como as cheias, por exemplo – sim, sarjetas e valetas entupidas têm muitas culpas no cartório – limitando este post à parte humana da questão, uma vez que não estamos minimamente preparados para enfrentar qualquer tipo de catástrofe. Já agora, uma das razões apontadas por toda a Europa para o aumento da frequência e gravidade das ditas cheias está na “pavimentação” das margens com construções junto à água, nem que sejam apenas passeios cimentados, o que impede os solos vizinhos do curso de água de poderem absorver a água da chuva.
Hoje vi uma reportagem em que um senhor – lamento, não fui a tempo de ver o nome, só sei que tem a ver com um programa escolar chamado Quando a Terra treme – falava, precisamente, da nossa falta de preparação para catástrofes, sugerindo que a célebre cadeira de Cidadania englobasse este tema. E deu como exemplo o Japão, país onde, entre sismos, erupções vulcânicas e tempestades com as respetivas cheias, não faltam catástrofes naturais.
É, também, um exemplo do modo como uma comunidade reage perante algo totalmente fora do seu controlo. Aliás, a União Europeia tem em mira um programa de preparação para catástrofes e tem andado a consultar, precisamente, o Japão para se inspirar.
Mas enquanto esperamos, como andam as coisas por cá?
Primeiro ponto negativo, não sei se fui um caso isolado mas não recebi qualquer aviso da tempestade por parte da Proteção Civil – e já os tenho tido por coisas bem menos fortes. Ora estes alertas são vistos como um passo fundamental para a segurança das populações. Voltando ao Japão, há alertas para tudo e mais alguma coisa, até ondas de calor excessivo, esse país tem, até, um dos melhores sistemas de previsão meteorológica do mundo. E esses alertas são levados muito a sério por quem os recebe!
Bom, é claro que também tem uma das populações mais cumpridoras de indicações e conselhos governamentais, nunca lhes ocorreria circular de carro em zonas onde isso estava proibido, como vimos acontecer por cá.
Outra coisa que o Japão também tem é a “mochila de sobrevivência” recomendada para todos os seus habitantes, mas não voltarei a falar disso, não faltam exemplos na Internet e, atendendo ao tipo de problemas que somos mais suscetíveis de ter e à dimensão do nosso país, seria bem mais útil criar um modelo mais adequado para nós – entretanto, dei, como disse, algumas indicações no post acima citado.
Mas o ponto mais importante desta questão está no espírito comunitário após a catástrofe. Graças à educação recebida, sabem exatamente o que devem e não devem fazer, para onde ir e como ajudar dentro das suas capacidades.
Sei que a reação normalíssima de quem se vê numa situação destas é esperar pela chegada dos serviços de socorro. Infelizmente, e por muito esforçados que estes sejam, ficam sempre aquém das necessidades em situações realmente catastróficas. Seria, pois, bem útil podermos ir fazendo alguma coisa para resolver as situações mais fáceis, ou antes, as menos difíceis.
E é aqui que entra – ou devia entrar – o espírito comunitário acima referido: em vez de cada um tentar ir fazendo umas coisinhas, unir-se o bairro, a aldeia, a zona toda, enfim, para começar a agir antes da chegada dos socorristas. Mas para que isto possa ser eficaz, faltam duas coisas: conhecimentos técnicos, digamos, e vontade de agir em conjunto.
É que de nada adianta começar a remover destroços, por exemplo, em busca de sobreviventes se quem o faz acaba por se magoar. Ou se, ao tentar tratar de um ferido, o prejudica em vez de o ajudar. Isto vai no seguimento de algo que referi em posts sobre incêndios em que, perante imagens que se repetem de “civis” a combaterem as chamas enquanto esperam pelos bombeiros, sugeri que lhes fosse dado um treino mínimo para poderem ser mais eficazes.
Quanto à vontade de agir em conjunto, bom, não é tanto vontade, é mais ganhar o hábito. Sobretudo em povoações mais pequenas, criar toda uma teia de ligações que permitam definir rapidamente quem está bem e quem precisa de ajuda, sem sobrecarregar as redes de comunicações e, mais importante ainda, sem deixar pessoas de fora por não terem familiares ou amigos na zona – sobretudo os muitos idosos que vivem sozinhos.
Basicamente, já chega de enterrar a cabeça na areia, catástrofes destas sempre aconteceram e continuarão a acontecer, é mais do que altura de nos prepararmos para as enfrentar – só espero que não aconteça como na preparação para sismos, em que há pais que não deixam os filhos ir à escola nesse dia ou faltam ao emprego para “não ficarem impressionados”!
Para a semana: Já chega do choradinho do racismo! Não passa um dia sem vermos alguém a queixar-se de que "é racismo, é xenofobia"... mas sempre só num sentido, claro está!
