Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Luísa Opina

27
Jul25

198 - Protegemos mesmo as crianças?

Luísa

Só de passagem irei referir a disciplina de Cidadania, ainda não pude ler o texto que está para consulta pública, ficará, pois, para daqui a umas semanas uma vez que tenho bastante a dizer sobre o assunto. E menciono-a aqui porque passei a semana a ouvir psicólogos e similares muito preocupados com as péssimas consequências para as criancinhas da redução na educação sexual! Pelos vistos até vai fazer disparar o número de doenças sexualmente transmitidas na camada mais jovem...

Em posts anteriores deste blogue já falei do modo como tendemos, por um lado, a meter crianças e jovens numa redoma para os “proteger”, deixando-os totalmente incapazes de enfrentar a menor contrariedade ou infortúnio que lhes venha a acontecer mais tarde ou mais cedo e, também do modo como só saímos em sua defesa em situações que encaixam numa certa visão que uma certa esquerda tem do mundo.

Nomeadamente, Deixem os bullies em paz (em que refiro que devíamos era fortalecer as vítimas para deixarem de o ser porque haverá sempre um bully à sua espera), Partam-se os vidrinhos (em que refiro, precisamente, a redoma em que criamos crianças e jovens), Jovens (em que falo do facto de chegarem a adultos sem nada terem feito na vida, por vezes nem mesmo estudar, exceto exigir isto e aquilo), A infância é mesmo para brincar? (em que falo da evolução do conceito de brincadeira e do facto de a conceção atual de ocupação dos tempos livres não deixar dar azo à imaginação), A geração entediada (o título diz tudo), Pobres jovens! (em que falo da ideologia de género e do facto de não estenderam o conceito de “o jovem é que escolhe” a outras áreas), Os jovens são infelizes (ou antes, são levados a sentirem-se infelizes) e Indisciplina e violência na escola (sim, são ambas graves e só a segunda é alvo de atenções e, mesmo assim, só com a combinação “certa” de atores.

Quem leu todos estes posts deve ter notado que o fio condutor se resume a isto: com as melhores intenções do mundo, estamos a criar jovens que se vão abaixo à menor contrariedade, que chegam à idade adulta sem nada terem feito para além da escola – e mesmo esta... – e sem uma verdadeira noção de como é o mundo real, pior ainda, que passaram a vida em atividades estruturadas ou, caso estas não existam, totalmente à deriva sem saberem como ocupar-se.

Mas neste post quero referir o facto de que, com tanta conversa sobre proteger as crianças de tudo e mais alguma coisa, a triste realidade é que não o fazemos quando elas mais precisam.

Comecemos pela pedofilia, que só recentemente começou a ser vista como a praga que é e que só é veementemente condenada em certas circunstâncias. Mas, o que fazemos para proteger as crianças de se tornarem vítimas? Porque não lhes ensinamos, desde a mais tenra idade, o que é aceitável ou não em termos de toques e contactos entre um adulto, seja ele qual for, e elas? Mais importante ainda, porque não criamos modos simples e rápidos de atender possíveis queixas e, sobretudo, porque não educamos professores e auxiliares escolares a detetarem sinais que possam indicar estarem perante uma vítima?

É que, lembro, a maior parte dos criminosos são membros da própria família, amigos chegados desta ou, com cada vez mais frequência (pelo menos a fazer fé nas denúncias), professores, treinadores e similares. O que não pode de modo algum acontecer são casos como o que vi recentemente em que, após ter cumprido uma pena ridícula pelo abuso sexual da filha da sua companheira, de 11 anos, o macho em questão voltou a residir com elas!

Outra vertente muito popular quando se fala em proteger crianças e jovens está em evitar, por todos os meios, que tenham contacto com ideias consideradas perniciosas – é claro que se essa tentativa vier do lado “errado”, digamos, é censura! Ora o que devíamos realmente fazer era expor os mais novos a todo o tipo de ideias, explicando, de um modo adequado à sua idade, as suas origens, consequências e ramificações. É que só lhes mostrar um dos lados não é proteção, é lavagem ao cérebro, sem contar que mais tarde, na adolescência, irão adotar todas essas ideias proibidas como modo de se rebelarem.

E já repararam que, embora se fale muito em ouvir as crianças, a realidade é bem diferente e raras vezes são realmente escutadas? Pior ainda, há inúmeros assuntos que não lhes são explicados porque “não são para a tua idade” – e não me refiro à educação sexual, tão badalada a propósito da Cidadania, há inúmeras questões que as crianças não põem ou deixam de o fazer porque são ignoradas ou lhes dizem que são um disparate.

Sim, o problema pode ser os próprios pais nunca terem pensado no assunto em questão, mas muitas vezes não explicam nem falam disso para “proteger a criança da crua realidade do mundo” – curiosamente, não veem problema no uso de certos jogos de computador ou programas televisivos suscetíveis de dessensibilizar até um adulto para violências de todo o tipo. Também há a possibilidade, bem real, de a pergunta levar para áreas consideradas anátema pelo adulto, sendo a sua única reação insultar quem pensa dessa maneira – e se estão a pensar em pessoas conservadores, bom, é bem mais provável este tipo de reação vir de esquerdistas que nem podem ouvir mencionar certos assuntos sem desatar logo a berrar fascista e similares.

Resumindo, talvez seja altura de pensarmos em proteger, de facto, crianças e jovens de ameaças externas – a pedofilia – mas, ao mesmo tempo, equipá-los com conhecimentos suficientemente amplos para poderem optar, sem pressões de fazer como os outros, por um comportamento decente.

Para a semana: Repensemos as ajudas Acho que está mais do que na altura de repensar o modo como gastamos balúrdios de dinheiro, cá dentro e lá fora, para, supostamente, ajudar os mais necessitados.

11
Ago23

96 - Falemos da Igreja Católica

Luísa

Agora que as Jornadas Mundiais da Juventude – e a visita do Papa – já terminaram é altura de eu falar da Igreja Católica e, acima de tudo, dos seus críticos e opositores. Pequeno detalhe para quem me lê, não pratico a religião cristã há já algumas décadas.

Uma coisa que sempre me intrigou é o modo como todos os que se acham “gente” em Portugal pensam ter o direito de criticar tudo e mais alguma coisa no cristianismo em geral e na Igreja Católica em particular, abstendo-se, claro, muito virtuosamente, de fazer o mesmo em relação a outras religiões e às suas respetivas instituições. Já agora, por “gente” quero dizer os chamados influenciadores, políticos, intelectuais, jornalistas, enfim, os que tudo fazem para moldar a seu gosto a opinião pública.

Se o Papa diz algo, bom, não era isso que devia ter dito mas sim aquilo. Saiu alguma indicação religiosa? Pois bem, é pouco ou errado ou ambas as coisas. Será que já lhes ocorreu que essas frases e orientações se dirigem aos crentes e apenas a estes?

O mais interessante é que acrescentam sempre que não são católicos praticantes... sim, sei que disse o mesmo, a diferença é que eu quando critico os efeitos nefastos de uma religião na sociedade faço-o em relação a todas, com ênfase nas que ainda são “religiões de estado”, digamos, em que os seus ditames formam – ou influenciam grandemente – as leis desse país com efeitos nefastos para a liberdade e direitos individuais.

A principal crítica que se ouve é que a Igreja devia ser mais liberal, devia abrir-se mais e ser bem mais tolerante. A sério?

Já repararam como as seitas cristãs – e não só – estão em crescimento? Todas elas com regras rígidas sobre tudo e mais alguma coisa e punições graves para quem as quebre? Isto para não falar em igrejas cristãs alternativas, também elas imensamente rígidas e bem mais intolerantes do que a Católica, que atraem milhões em todo o mundo e são uma autêntica máquina de fazer dinheiro. E sabiam que há jovens de ambos os sexos que se convertem ao Islão porque ali “as regras para a vida são claras”?

O problema, para mim, é que quando ouço falar em abertura e liberalização da Igreja o que também ouço é o texto subjacente, ou seja, a sua perda de significado e eventual desaparecimento.

Talvez seja por isso que as JMJ beliscaram tanta gente. Que ideia mais parva, tantos milhares de jovens, vindos de todo o mundo, não para destruir, insultar, queimar e odiar mas para se juntarem em paz em nome da religião! A irritação foi tal que até houve uma senhora jornalista que dedicou horas a tentar descobrir se cabiam milhão e meio de pessoas na Parque Tejo!

O que me leva ao assunto seguinte, as atitudes LGBTQIA+ (são cada vez mais letras, já não há pachorra para decorar tudo) durante este período. Tivemos, por exemplo, um jovem de bandeira arco-íris no Parque Eduardo VII, no meio de bandeiras de inúmeros países, porque estava ali “a representar o seu povo”. Já agora, não é curioso que num espaço tão a abarrotar de gente jornalistas tenham conseguido chegar até ele para o entrevistarem?

Há ainda o caso da Missa LGBTQIA+ que terá sido interrompida por “manifestantes ultracatólicos”. O meu primeiro reparo é que continuo sem entender o que é uma “Missa LGBTQIA+”. É que se estes são os únicos que lhe podem assistir, então trata-se de um claro caso de discriminação e devia ser devidamente investigado. Mas é claro que o nosso Ministério Público está é a investigar a suposta invasão de um espaço que até é público e o Governo veio pedir respeito – curiosamente, quando o caso é ao contrário, ninguém investiga nada e nem se fala em ter respeito.

E já repararam que este movimento só se manifesta contra a Igreja Católica? O Islão nem a homossexualidade reconhece, a menos que seja para condenar à morte – e de modos bem cruéis – quem dela seja acusado. Mas já viram algum protesto junto a uma mesquita? Diga-se de passagem, eu até pagava bom dinheiro para ver alguém a irromper na de Lisboa de bandeira arco-íris alçada!

Outra acusação muito frequente à Igreja é ser “antiquada”, isto quando não afirmam abertamente que a religião (atenção, só a católica) passou de modo e só é boa para velhotas beatas. Daí fazer-lhes imensa confusão verem jovens a irem à missa sem ser com os pais ou a participarem em retiros ou outras atividades religiosas. E se caem na asneira de afirmar que cumprem os seus preceitos, sobretudo no que diz respeito a sexo...

E agora, o elefante na sala, os abusos sexuais da Igreja. Já dediquei um post a este tema, A pedofilia na Igreja, por isso não me vou alargar. Só acho curioso que precisamente na semana em que um grupo de 300 pagou do seu bolso um cartaz em Oeiras (porquê aqui?) a denunciar os tais abusos li que um professor liceal tinha sido suspenso por abusar de 91 alunas!

E não é caso único, nos últimos tempos têm sido uns atrás dos outros, todos envolvendo professores ou treinadores, sem esquecer que a PJ recebe num ano mais queixas do que a tão isenta Comissão de Investigação recebeu em relação a um período de décadas. E isto sem contar que se trata de casos atuais, em que as vítimas ainda estão, muitas vezes, nessa triste situação.

Para terminar, o sempre popular argumento de que a Igreja devia acabar com o celibato dos padres porque isso é contranatura – pequeno detalhe, o “A” de LGBTQIA+ significa assexual – e isso leva à pedofilia. Pois, é óbvio que os muitos pais que abusam das filhas, filhos ou ambos praticam celibato. Mais ainda, ao contrário do que se passava outrora, em que ir para padre era muitas vezes o destino de filhos demasiado fracos para a agricultura, entrar para o sacerdócio é agora uma profissão que exige anos de estudo e de preparação. E a porta está sempre aberta para quem mudar de ideias.

Uma última questão, como se exigiu que a Igreja pedisse – e continue a pedir, indefinidamente – desculpa pelos abusos de menores, será que podemos pedir o mesmo à direção das escolas com professores pedófilos e aos respetivos sindicatos? E se for uma escola pública, ao Ministro da Educação e ao Governo em geral? É que acho muito estranho que o abuso de 91 alunas liceais tivesse passado totalmente despercebido...

Resumindo, as pessoas são livres de criticarem e de protestarem, mas não se o fizerem apenas quase por reflexo involuntário e apenas quando se trata de um certo alvo de estimação, ignorando todos os outros, muitos deles bem piores.

Para semana: Vem aí a ebulição! Pelo menos é o que diz o muito douto Sr. Guterres...

18
Nov22

59 - Um país de descartáveis

Luísa

De um modo geral não dedico muito tempo à chamada “atualidade nacional”, prefiro usar o meu pouco tempo disponível com assuntos mais a meu gosto. Mas, de um modo ou de outro, alguma coisinha vai entrando e dei por mim a pensar que, para a classe política que nos governa e os “pensadores” que supostamente nos estudam, analisam e propõem soluções para a nossa felicidade futura, não passamos de elementos descartáveis que juncam o seu caminho.

Passo a explicar, começando pelos períodos eleitorais.

Como todos temos certamente presente, durante uma época eleitoral – e na cada vez mais longa pré-campanha – candidatos de todos os quadrantes desdobram-se em ações junto dos possíveis eleitores. É um nunca acabar de “arruadas” (termo que odeio, francamente), de idas a mercados e feiras, enfim, de aparições em tudo o que seja lugar (e fique bem na TV). Mas passada a eleição, nunca mais os vemos.

Não se trata sequer de nos porem na prateleira para sermos retirados na vez seguinte. Não, tendo em conta o modo como agem e o que dizem na campanha seguinte, os visados do período anterior foram simplesmente descartados uma vez acabada a sua utilidade e os candidatos conduzem-se como se tivessem perante eles todo um novo eleitorado – sabem, como aquelas botinhas que médicos e enfermeiros enfiam e descartam quando saem da zona... E não é um exemplo escolhido ao acaso, tal como elas servimos apenas para os ajudarmos a fazer o seu trajeto “limpo” até ao objetivo final.

Se esta fosse a única situação em que somos vistos deste modo, enfim, até nem era muito grave. O grande problema é que o mesmo acontece em todas as facetas da nossa sociedade.

Veja-se o caso da pedofilia. Andamos há meses a ouvir falar da comissão de inquérito às vítimas da Igreja, sempre com um ar de aparente preocupação com a gravidade dos casos. Mas casos como um recente em que um pai abusou durante anos das três filhas menores merecem apenas uma pequena notícia que desaparece em menos de nada – e como este, infelizmente muitos outros similares.

Ou seja, também as vítimas da pedofilia são descartáveis, “usam-se” para uma determinada campanha mas, depois, são pura e simplesmente ignoradas. E os mesmos que bramam contra bispos porque “sabiam e nada fizeram” (apesar de só em 2020 o crime ter passado a ser público) nada dizem e, sobretudo, nada fazem em relação aos muitos familiares, muitas vezes a própria mãe, que sabem o que se passa no seu lar e nada dizem e nada fazem.

Já agora, o mesmo é válido para as vítimas de violência doméstica, são “tiradas do baú” para discursos e campanhas da conveniência de quem as faz e prontamente descartadas quando deixam de ser úteis.

Temos também os idosos, esses, então, ainda mais descartáveis do que o resto da população. Foi este, aliás, o tema do post da semana passada do meu blogue Ir para novo intitulado Velhos não são descartáveis. Fala-se muito nos “velhinhos, coitadinhos” mas a triste realidade é que são postos de lado muitas vezes ainda bem antes de atingirem a idade da reforma. O pretexto é sempre o mesmo, “já trabalharam, agora merecem descansar”, mas a verdade é que se prefere não estudar maneiras de lhes dar uma vida ativa até o mais tarde possível, de os manter na malha produtiva – e não só – da nossa sociedade. Ou seja, são descartados, a menos que, também eles, possam ser usados como mote numa qualquer campanha.

E o mesmo se aplica aos jovens. Há “ataques” periódicos sobre serem “o nosso futuro”, mas fora dessas épocas pouco ou nenhum tempo dedicamos a ver se, por acaso, a educação que lhes estamos a dar é realmente a melhor para o futuro deles (e o nosso).

O desemprego e a “precariedade” são também temas muito badalados em certas épocas, mas, mais uma vez, passado o momento aí vem o descarte!

E estou certa de que se pensarem um pouco verão inúmeras áreas em que as pessoas são postas em destaque por razões de interesse de quem o faz – sim, não tenhamos ilusões sobre a “bondade” das intenções com que isso é feito – e, mal passa a ocasião, postas de lado, descartadas, como os tais botins.

Nem sequer acredito que isto seja feito por má fé, não, é bem pior do que isso. É que quem o faz nem sequer nos vê como pessoas, somos apenas peões no seu jogo de singrar na carreira, política ou não, que escolheram. O que lhes importa é a causa do momento, quando passam a outra aí vêm novos atores para a ribalta.

Se fossem só os políticos a fazê-lo, enfim, penso que a grande maioria de nós já não tem grandes ilusões sobre essa classe. Mas passa-se o mesmo com jornalistas, comentadores, “especialistas” disto ou daquilo, ou seja, os chamados influenciadores da sociedade atual. E sim, não acontece apenas no nosso país, mas pelo que tenho observado fico com a impressão de que noutros locais esta atitude é a exceção e aqui tornou-se a norma.

Espero estar enganada, é que, muito francamente, podem chamar-me o que quiserem mas recuso-me, veementemente, a ser vista como descartável, seja pela idade, sexo ou outra coisa!

Para semana: A geração entediada. É o nome que me vem à mente quando penso nos jovens de agora.

23
Set22

51 - Só a pedofilia na Igreja conta?

Luísa

Observo desde há uns anos a verdadeira guerra aberta à Igreja Católica – e só a esta – por causa de abusos sexuais de menores. Atenção, concordo totalmente que qualquer tipo de abuso sexual de uma criança ou adolescente é absolutamente condenável, só não entendo porque é que só se ataca a Igreja.

Mais ainda, foi-se passando “inocentemente” de abuso sexual de crianças a abuso sexual de menores – lembro que um jovem de 17 anos é um menor – e de abusos a atitudes e toques impróprios (tendo o cuidado de deixar no ar o que são, de facto).

Há também o grande argumento de que os superiores desses padres “sabiam” – sem nunca explicarem muito bem como – e que tinham a obrigação de os denunciar. Acontece que este tipo de crime só passou a ser público em 2020. E que diferença é que isso faz, perguntarão?

Pois bem, se um crime não está classificado como público, então só a vítima – ou os seus pais / tutores, caso seja menor – o podem denunciar. Já agora, um crime semipúblico pode ser denunciado por qualquer pessoa, mas só haverá investigação se a vítima maior de 16 anos ou o seu tutor apresentarem queixa – e isto é importante, porque uma queixa pode ser retirada a qualquer momento pelo queixoso.

Acontece também que, até muito recentemente, esse tipo de crime prescrevia 5 anos após o jovem em questão fazer 18 anos. Em 2020 foram aprovados projetos de lei que aumentam em muito este prazo, mas não terão, claro, efeitos retroativos.

Entretanto, tanto a Polícia Judiciária como a própria APAV são unânimes, a maior parte dos casos de abuso sexual de menores decorrem no seio da família, sendo, pois, perpetrados por familiares ou pelo infelizmente muito verdadeiro cliché de um “amigo de longa data da família”.

Seguem-se professores ou outros ensinantes e, coisa de que nunca se fala, outros jovens, também eles menores mas bem mais velhos do que as vítimas. Mas sobre isto falarei mais adiante.

E lembro que a mutilação genital feminina também está na lista desses crimes, para além dos mais óbvios como violação, coação sexual, etc.

Ora se as vítimas de padres dizem que nunca falaram do assunto devido à posição do padre na sociedade de então ou porque ninguém acreditaria nelas, acham que a situação é melhor se for um pai, tio, avô, primo ou outro familiar com quem a vítima convive diariamente?

Pior ainda, ouvimos frequentemente casos de raparigas que, quando arranjam finalmente a coragem de confessarem o que se passa à mãe, por exemplo, são acusadas de estarem a inventar tudo ou, situação mais frequente do que se poderia imaginar, de terem sido elas as sedutoras!

E não esqueçamos que num caso de abusos sexuais no seio da família, o criminoso raras vezes se restringe a uma vítima, costuma estender as suas “atenções” a todos os membros que estejam à mão e na faixa etária correta. E um pai que abusou das filhas ou dos filhos não se coibirá certamente de o fazer também às netas ou netos. Mais grave ainda, o seu comportamento, que raras vezes é secreto no meio familiar, acaba por ser adotado como normal pelos filhos mal estes atinjam idade suficiente.

Ouve-se também muito que “o padre ameaçou-me” e por isso tive medo de o denunciar. Mais uma vez pergunto, um familiar ou visita habitual da casa não está bem melhor posicionado para o fazer? É que muitas vezes nem precisa de fazer uma ameaça concreta, infelizmente este tipo de abusos está muitas vezes presente em ambientes de violência doméstica.

Já agora, um pequeno “detalhe”. Ouvindo e lendo notícias, fica-se com a sensação de que os pedófilos atacam indiscriminadamente qualquer menor. Mas não é assim, há-os de todos os tipos – leia-se, com faixas etárias preferenciais de onde não saem. Ou seja, um criminoso que abusa de rapazes ou raparigas entre, digamos, os 13 e os 15 anos, nunca tocaria em alguém mais novo, a menos que pense que é mais velho do que é de facto. Foi por isso que, quando anunciaram, com grande aparato, que aquele alemão preso por vários casos de abusos a raparigas adolescentes poderia ser o culpado do desaparecimento de Maddie, uma vez que estava no Algarve nessa altura, achei logo isso muito pouco provável – e a verdade é que não se voltou a falar do assunto.

E por falar em idades, porque será que se um adulto tem sexo com uma menor, mesmo que esta tenha 17 anos, é pedofilia, mas se um marmanjo de 42 casar com uma rapariga de 14, então está tudo bem desde que os pais tenham dado o seu consentimento? E não esqueçamos que há países em que as raparigas podem casar aos 12 e a brigada do “respeito pelos costumes” quer que essas uniões sejam aceites na Europa, mesmo quando envolvem raparigas já cá nascidas enviadas para lá na idade certa apenas para serem “vendidas” – sim, é o termo certo – a um marido interessado na residência automática neste continente que essa união lhe trará.

Voltando aos jovens, há agora um novo tipo de assédio / abuso sexual, o via Internet, mais especificamente, via redes sociais. É quase sempre perpetrado por rapazes e incluem, por exemplo, irem convencendo raparigas a tomarem atitudes cada vez mais sexualizadas “por amor”, desconhecendo estas que essas imagens ou vídeos irão ser amplamente divulgados ou até vendidos.

E esta é apenas uma das muitas formas de abusos sexuais virtuais, como lhe chamam.

Este link da APAV (https://apav.pt/care/index.php/informacao-para-adult-s/violencia-sexual-online) tem um texto muito esclarecedor sobre Violência Sexual online, nomeadamente o Grooming.

E para algo mais detalhado, há este PDF que se pode descarregar: https://apav.pt/cibercrime/images/cibercrime/4NSEEK/4NSEEK_Online_Child_Sexual_Abuse_Exploitation_Analysis_PT.pdf

Daí a minha pergunta inicial: com a maioria dos casos a darem-se no seio da própria família do menor e com os novos tipos de exploração sexual existentes, porquê este enfoque exclusivo na Igreja? Não seria bem mais útil criar uma comissão ou algo similar que recebesse denúncias de abusos de todos os tipos, independentemente de quem os comete, e que pudesse aconselhar as vítimas ou orientá-las num processo de denúncia?

E que tal um curso obrigatório para todos os pais sobre como minorarem os chamados “perigos” da Internet? Pois, entre aspas, leiam o meu post anterior, “A Internet não é perigosa” (https://luisaopina.blogs.sapo.pt/5-a-internet-nao-e-perigosa-2786).

Muito francamente, seria bem mais útil do que a Comissão criada com grande pompa e circunstância e que, digam o que disserem, não passa de uma autêntica caça às bruxas!

 

Para semana: O respeitinho é muito bonito! – Estamos sempre a ouvir dizer que se deve respeitar isto e aquilo, mas será que esse respeito se estende a todos?

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Calendário

Dezembro 2025

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D