115 - O Natal incomoda muita gente
É o meu terceiro Natal com este blogue e, para não me repetir demasiado, sugiro a leitura dos posts dos dois anos anteriores, E é Natal (2021) e Falemos de Natal (2022). Tudo o que ali disse continua válido, em muitos casos infelizmente, e podia, pois, perfeitamente ter sido escrito esta semana ou, muito francamente, daqui a um ano ou mais.
Comecemos pelas inúmeras tentativas de conseguir o “cancelamento” do Natal, um termo muito na moda por parte dos bem-pensantes woke, que passam a vida a cancelar tudo e mais alguma coisa. Esqueçamos, para efeitos deste texto, o estafadíssimo argumento de que a sua celebração pode ofender quem não é cristão praticante e, sendo assim, em nome da tão famosa tolerância, devemos abster-nos de festejar algo que nos é querido. Como disse no texto do ano passado, há realmente intolerância nesta situação, só que é toda da parte dos ofendidos.
O que realmente me intriga em tudo isto é a dualidade de critérios entre o Halloween e o Natal. Durante anos ouvíamos dizer em tudo quanto era comunicação social – e não só – que não se devia festejar o Dia das Bruxas em Portugal porque era uma mera importação dos Estados Unidos – por acaso não é verdade, no próximo ano explicarei porquê – e devíamos manter-nos fiéis aos nossos usos e costumes.
Pois bem, haverá coisa mais europeia do que a festa de Natal, quer na sua antecessora pagã quer na sua versão cristã? E querem agora esses donos da verdade que abandonemos esse tão antigo – e tão nosso – costume para agradar à sua ideia de tolerância e respeito pelas culturas dos outros? E o respeito pela nossa, onde anda? Já agora, na maioria esmagadora das vezes os supostos ofendidos não se incomodam nada com este festejo, muitos até aderem e entram no espírito da festa. Mas nem pensem dizer isso na presença dos autoproclamados protetores da tolerância e respeito, como é evidente, eles é que sabem o que é correto ou não fazer-se.
E como a estes bem-pensantes se juntam os supostos ateus – sim, supostos, como expliquei o ano passado – as decorações públicas andam tão neutras que até dói. Felizmente há toda uma série de povoações mais pequenas que não querem saber destas modernices e que, para além de reviverem tradições antiquíssimas e em muitos casos quase esquecidas, têm aprimorado as suas decorações, dando grande ênfase ao que sempre foi o centro do Natal português, o presépio.
Já agora, sabiam que a nossa primeira árvore de Natal surgiu apenas em meados do século XIX quando D. Fernando, marido da rainha D. Maria II, mandou instalar uma no Palácio das Necessidades? É que o seu uso nesta época festiva terá começado precisamente na Alemanha no século XVI e não nos esqueçamos que o consorte real era um príncipe alemão.
Pessoalmente adoro uma bonita árvore decorada, para além do presépio, mas estranho, também aqui, não haver fúrias contra a “importação” de costumes...
Mas há coisas no Natal em Portugal que também me incomodam bastante. E como não sou menos do que os outros, aqui vão as minhas “queixinhas”.
A primeira tem a ver com as mensagens dos nossos “governantes”. Não sei se o nosso “estimadíssimo” PM, agora que é um ex, vai falar à mesma, mas aposto que sim, não quererá perder mais uma oportunidade de repetir que os seus foram governos de grande êxito, que o país está bem, ou antes, está ótimo e recomenda-se e que se quisermos continuar assim só temos um caminho, manter o seu PS no poder.
Quando ouço, intermitentemente, claro, é demasiado para eu aguentar tudo de uma vez, fica-me a dúvida: estará a falar do mesmo país em que os que o ouvem vivem? Onde o número de pessoas sem-abrigo disparou, graças sobretudo a inúmeros idosos que deixaram de poder pagar a casa onde viviam? Onde uma pessoa desespera para ter uma consulta, tendo em muitos casos bem mais hipóteses de morrer primeiro? Onde uma grávida passa meses numa aflição sem saber se haverá algum sítio aberto onde possa ter a criança?
E como se não bastasse, vem depois o senhor de Belém e as inevitáveis referências à estabilidade politica, como se isso fosse o mais desejável!
Irrita-me, também, ver ano após ano as mesmas reportagens sobre problemas em aeroportos e hospitais, sempre agravados com as também habituais greves nesta época. Mais as visitas a locais de ajuda a pessoas sem-abrigo ou com problemas económicos, sem que se veja qualquer melhoria, é, até, uma sorte calhar-nos um ano em que as coisas não piorem – e não é certamente este ano que ganhamos a lotaria.
E, numa nota mais leve para terminar, odeio que tenham retirado da programação natalícia filmes bem de Natal, como Do Céu Caiu uma Estrela ou uma boa versão – não woke – de Conto de Natal ou um bailado como O Quebra-nozes para os substituírem por versões “não ofensivas” ou por filmes totalmente inócuos e intermutáveis.
Bom, tendo desabafado o que me incomoda no Natal em Portugal, só me resta desejar-vos Feliz Natal – e se esta expressão vos ofende, azar... o vosso.
Para semana: Seria tão bom... Pois, a minha listinha de desejos para 2024
