117 - Já não há vergonha
Dedico este primeiro post de 2024 a toda uma série de comportamentos e de afirmações dos nossos maravilhosos políticos, e não só, algumas do ano passado mas outras, infelizmente, mais recentes. Mas têm todos algo em comum, o mais completo despudor de quem os faz ou diz.
Pior ainda, fica-me cada vez mais a ideia de que para quem nos (des)governa e / ou “orienta” os portugueses são burros, amnésicos e adoram ser enganados repetidamente e do mesmo modo. Bom, atendendo ao resultado de eleições e sondagens, se calhar até nem andam muito longe da verdade...
Começo pelo autêntico festival de congratulações e elogios de quando a legislatura entrou, finalmente, em gestão, depois de o senhor de Belém ter esgotado todos os adiamentos e desculpas para lhes permitir ir passando leis atrás de leis tendo em vista o próximo dia 10 de março.
Um extraterrestre que chegasse a Portugal nessa altura ficaria imediatamente convencido de que se tratara de um governo de grande êxito, que terminara no fim do mandato para que fora eleito e que tomara inúmeras medidas muitíssimo importantes, entre elas as sempre tão badaladas reformas estruturais.
E não me refiro apenas à gentinha do PS, não vi, da parte do PSD, nenhuma tentativa a sério para lhes estragar a festa e os foguetes com um banho de realidade.
Tivemos, depois, o tremendo entusiasmo desse senhor Montenegro por ter conseguido o milagre fundamental de formar uma coligação “importantíssima” para as próximas eleições. Quem o ouvisse falar ficava com a ideia de que descobrira, a muito custo, o segredo para uma vitória eleitoral e resultante formação de governo. E, mais uma vez, não vi um grande esforço da parte de ninguém para que ele esclarecesse como vai conseguir isso aliando-se a um partido que perdeu, nas últimas eleições, os pouquíssimos representantes que ainda tinha na Assembleia da República.
Aqui para nós, quem tem boas razões para festejar é o CDS que elege, deste modo, pelo menos 3 deputados sem mexer uma palha. Mas, curiosamente, a alegria era bem mais esfuziante do outro lado.
Passemos, agora, ao nosso muito “prezado” Presidente da Assembleia da República, o Sr. SS, e as suas declarações em relação ao Ministério Público. Se fosse ele a dizê-las, tudo bem, sou uma simples cidadã. Mas é gravíssimo, ou antes, devia sê-lo, que quem preside ao braço legislativo desconheça a separação de poderes consagrada na Constituição – sim, a tal que tão citada é quando convém à nossa esquerda. Ou, pior ainda, se sabe disso e não se incomodou com essas “chinesices”.
É que para esse senhor, a única verdadeira ameaça à democracia em Portugal está na existência do Chega. E tem a desfaçatez, sim, não há outro termo para isso, de o dizer com um ar muito sério depois de todos os comportamentos mais do que antidemocráticos que demonstrou – ou permitiu – na AR.
Veio, depois, a mensagem do senhor de Belém – não, não é o Menino Jesus, é o de cá... Confesso que não a ouvi, limitei-me a ver extratos, é que os anos já pesam e tenho de poupar os nervos para coisas realmente importantes. Mas adorei ouvi-lo dizer que vai apoiar a candidatura do seu compincha Costa à Presidência da União Europeia porque ele merece! Mais ainda, será um cargo onde poderá fazer o que faz melhor...
Hum... Acho que um pequeno esclarecimento tinha dado muito jeito a quem o ouviu. O que faz melhor? Aldrabar? Meter amigos e conhecidos sem competência em cargos importantes? Prometer mundos e fundos, nada fazer apesar de ter todos os meios para tal e ainda por cima acusar a oposição de ter a culpa do falhanço? Bom, não a atual oposição, a de há uns largos anos, quando era, então, governo.
Mesmo assim, o novo líder do PS bate-os a todos aos pontos. Anunciados vários aumentos na função pública e pensões, que, infelizmente, iremos pagar com colher de pau passada a euforia eleitoral, lembrou que Passos Coelho cortara em 50 % o subsídio de Natal por causa da Troika. Não sei se é ele que anda distraído ou a minha memória já não é o que era, mas a dita não veio por causa do queridíssimo Sócrates? E este não era um primeiro-ministro socialista?
Para terminar, duas afirmações recentes, já deste ano, que me impressionaram por levarem o tal despudor a novos píncaros.
A primeira é de alguém do PCP, esse partido tão democrático, pelo menos para o PS e para o Sr. SS. De acordo com essa sumidade, a culpa das horas de espera nas Urgências e de o Sistema Nacional de Saúde não funcionar é... dos hospitais privados!
Se calhar até tem razão, é que sem medicina privada morreria muito mais gente, libertando, assim, vagas nas consultas, hospitais e Urgências. E, não estou, infelizmente, a brincar, pelo menos totalmente, é que passei o dia a ouvir falar da taxa de mortalidade acima dos 45 anos em Portugal.
A segunda e última afirmação despudorada é recentíssima, veio da douta boca do ainda primeiro ministro hoje já à noitinha. Também não ouvi o discurso todo, veja-se o que disse acima sobre os meus nervos, mas passei por lá na altura em que dizia “Só o PS fará melhor do que o PS” e, a minha parte favorita, “Há problemas? Claro que há problemas. Mas é por isso que estamos cá. É o PS que vai resolver os problemas.”
Pois, esperemos sinceramente que não ou teremos, para a economia e outros setores do nosso país, a concretização da velha expressão, “de vitória em vitória até à derrota final”.
Só me resta desejar-vos um bom ano de 2024... sim, sou uma otimista nata!
Para semana: Falemos de saúde A propósito de declarações recentes de alguns políticos
