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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Luísa Opina

19
Jul25

197 - Perceção e realidade

Luísa

Face a alguns acontecimentos recentes dentro e fora do nosso país decidi alterar o tema desta semana. A questão é, mais uma vez, não os factos em si mas o modo como os “bem-pensantes” do nosso país e não só os veem e, pior ainda, os tentam “explicar” a nós, pobres mortais que não temos a sorte de sermos uns iluminados como eles.

Comecemos por Múrcia. Os factos são bem simples, após meses – ou mais – de assaltos, agressões, violações e assédios de todos os tipos, deu-se o brutal espancamento de um idoso por um ou mais magrebinos que, ainda por cima, orgulhosos desse seu ato de “coragem”, pespegaram com tudo no YouTube.

Fartos de verem as suas queixas ignoradas pelas autoridades e perante esta última ação de pura selvajaria, a população foi para as ruas no que foi prontamente apelidado de “caça aos imigrantes” ou caça aos “magrebinos”.

Escusado será dizer que a polícia, que nada fizera nos muitos casos anteriores, veio prontamente para a rua armada até aos dentes para deter esses perigosos meliantes – os que protestavam, entenda-se. Aliás, muito à semelhança do que se passou no nosso Martim Moniz onde um grupo, farto da impunidade com que alguns dos “tão esforçados” imigrantes da zona cometiam todo o tipo de dislates, atacou o apartamento de um grupo deles, sendo prontamente identificados e presos. Pequeno aparte, já repararam que nunca mais se falou disso? Será que as pobres vítimas desse suposto ataque xenófobo não eram afinal tão inocentes como diziam?

Voltando a Múrcia, é claro que tudo o que se passou foi culpa da extrema-direita. Vi, até, um “comentador” numa das nossas televisões dizer, com ar de quem se considera tremendamente moderado, “Bom, acredito que muitos dos que foram para a rua até nem são da extrema-direita, mas são certamente de direita, conservadores...” Não, senhor comentador, se calhar até são de esquerda ou nem nunca pensaram em política, são, isso sim, pura e simplesmente, cidadãos normais fartos de se sentirem estrangeiros na sua própria terra e de mal ousarem sair de casa com medo do que lhes possa acontecer.

Perante as reações a que assistimos de jornalistas, comentadores e políticos, enfim, a fauna do costume, é de espantar que muitos se comecem a virar para a suposta extrema-direita? É que, muito francamente, são os únicos que os ouvem e que prestam atenção aos seus problemas.

O que me leva à segunda questão, a demolição de um bairro clandestino em Loures. Quem ouça os comentários tecidos em torno desse acontecimento fica com a ideia de que qualquer pessoa pode chegar a Portugal, desde que não seja branca, entenda-se, construir uma barraca mal amanhada no primeiro sítio que lhe aparecer e pronto, fica logo com direito a casa!

Pior ainda, tentaram passar a mensagem, pelo menos nos primeiros dias, de que os “coitadinhos” tinham sido apanhados desprevenidos e que nada sabiam da demolição iminente – curiosamente, tinham esvaziado as barracas...

Ora há um dado curioso nesta situação. Segundo dados da Câmara de Loures havia em março deste ano umas cinquenta e poucas barracas naquele bairro, cujos moradores foram identificados e avisados da demolição. Mas em junho já tinham aparecido mais cento e cinquenta e tal barracas novas! É claro que isto só espanta quem vive na bolha, ou antes, no universo paralelo dos “bem-pensantes”, acontece sempre que se sabe que um bairro clandestino vai ser demolido e os seus moradores realojados – é logo um sinal para o número de barracas aumentar de um modo de fazer inveja ao milagre da multiplicação dos pães.

A única coisa que me espantou em todo este cenário foi ouvir o presidente da Câmara de Loures que, lembro, é socialista, dizer, e estou a parafrasear, “não se podem dar as coisas a quem simplesmente berra mais alto”. A sério, se votasse nessa área, tinha o meu voto!

Bom, houve uma outra coisa que me causou estranheza, o que é que a Amnistia Internacional tem a ver com este caso? Curioso, não é, na Síria matam-se cristãos num verdadeiro genocídio, agora estendido aos drusos (sim, também são cristão, mas é uma vertente muito específica deles) e nem piam. Umas barracas são demolidas em Portugal e querem explicações?

Última questão, esta relativa à liberdade de opinião. Começo, claro, pelo caso da Joana Marques e os Anjos. Não vou tomar partido, nem sabia quem ela era, mas à força de ouvir chamar-lhe “grande humorista” fiz questão de ver umas coisinhas. E se aquilo é humor... Mas a questão é esta, se ela tivesse feito “humor” com causas queridas da esquerda, transgéneros, por exemplo, ou gozado com pessoas como as Manas Metralha – perdão, Mortágua – acham que os mesmos viriam em defesa dela e da tão badalada e apregoada – quando convém, claro – liberdade de expressão?

Acho que todos sabemos a resposta, atendendo, até, ao que aconteceu esta semana na Assembleia da República com um deputado do PS a dizer que tinha vergonha do presidente da dita por o ter advertido por ter chamado fanfarrão ao Ventura. Imaginemos agora que tinha sido o Ventura a chamar qualquer coisa, por muito inócua que fosse, a um deputado da esquerda... Pois, nesse caso bradariam que uma simples advertência era pouco, devia era ser expulso!

Pois é, perante tudo isto e milhentos outros casos similares, fica-me a ideia de que a fenda entre perceção e realidade de quem tenta mandar e formar opiniões, os tais “Donos da Verdade”, está a degenerar a passos largos para um abismo rival da Fossa das Marianas!

Para a semana: Protegemos mesmo as crianças? Com o choro e ranger de dentes a que assistimos recentemente, é altura de fazer esta pergunta.

17
Mai25

Hipocrisias, hipocrisias

Luísa

Apesar do título, não sei bem se os muitos casos a que assistimos mundo fora são mesmo devido a hipocrisia, estupidez pura ou um misto de ambas. Já falei anteriormente nisso em Hipocrisias, relatando inúmeros casos a propósito do muito que se disse aquando do Mundial de Futebol realizado no Qatar. E muito mais haveria a dizer, mas irei referir apenas alguns casos recentes.

Começo pela “brilhante” decisão da Câmara de Lisboa de proibir um ato do partido Ergue-te – pequeno detalhe, nada sei sobre este partido nem tive curiosidade em saber, existe legalmente, é quanto me basta – que  teria lugar no Martim Moniz. E fê-lo alegando que poderia ofender os muitos muçulmanos da zona devido à presença da Cruz de Cristo e, pasme-se, de bifanas! O mais curioso é que os partidos que vemos sempre no choradinho tipo, “antigamente não podíamos fazer manifestações” nada disseram em relação a este atropelo das regras democráticas.

Para além das dúvidas surgidas sobre a legalidade da decisão da Câmara – lembro, não era uma manifestação, era um ato de um partido legal em pleno período de campanha eleitoral – fica a grande questão: a que propósito é que se proíbe o uso de um símbolo bem português - a Cruz de Cristo, que é bem nossa – e de uma das comidas mais típicas de Lisboa só porque pode ofender estrangeiros, muitos deles nem sequer legalizados?

O que é que se segue? Proibir álcool e carne de porco em bairros onde vivam muçulmanos? Obrigar as mulheres portuguesas a usarem burca? Já agora, numas eleições locais em Londres um partido concorreu tendo essa como a sua única proposta, extensível, também, a qualquer mulher que por ali passasse, e esteve muito perto de conquistar o poder local.

Já agora, o que aconteceria se os cristãos da zona protestassem ao verem a reza em público – que lembro, ocupou o espaço de circulação – aquando do fim do Ramadão? Sem contar que até há uma igrejinha no Martim Moniz... Dar-lhes-iam o direito a ficarem ofendidos? Acho que todos conhecemos a resposta.

Resumindo, o “respeito pelos costumes e religiões” é uma via de sentido único.

Passando a um nível mais global, temos a indignação demonstrada por muitos atores e similares pelo corte de verbas que o Trump está a impor a certos organismos, sem falar nas queixinhas de perseguição de que se dizem alvo devido às suas ideias. Curioso, durante os últimos anos, esses mesmos que agora tanto se lamuriam impuseram todo o tipo de regras – leia-se, censura – a ideias, obras e pessoas que não eram do seu agrado. Lembram-se do caso da autora do Harry Potter, que tentaram “cancelar” por algo que disse sobre transexuais?

E a nossa comunicação social faz eco de “vozes de resistência”, como Harvard, por exemplo, muito aplaudida por ter recusado ceder a Trump. Pois, o problema é que nos últimos anos a dita tem cedido em toda a linha a quem lhe berrava mais alto – bom, na maioria dos casos bastava até sussurrar – expulsando alunos que desagradavam aos colegas woke, despedindo professores – um, por exemplo, que se recusou a discutir igualdade de género numa aula de astronomia – e cancelando oradores, entre outras coisas.

Ou seja, também a “liberdade de expressão” é uma via de sentido único.

Passemos à política, numa vertente de certo modo relacionada com as anteriores, ou seja, democracia e liberdade. É que está agora na moda recorrer à “justiça” para tentar eliminar partidos que desagradam aos Donos da Verdade (DDV). Na Roménia, cancelaram o resultado de uma eleição, perante o aplauso dos líderes da União Europeia – pois, viva a democracia...

Em França, temos o caso da Le Penn – não digo que não seja culpada, mas é estranho ter sido a única a ser investigada e julgada e, pior ainda, a pena ter entrado em vigor antes da apresentação de um recurso, caso inédito. E por cá, todos sabemos das tentativas de ignorar, pior ainda, insultar, quem ousa votar livremente num partido “não aprovado”.

Ou seja, também a “democracia” é algo que só funciona num sentido.

Passemos à preocupação com a situação das mulheres na Igreja Católica, muito falada recentemente aquando da eleição do novo Papa. Sim, ouvimos constantemente bradar contra o facto de não poderem ser ordenadas padres, isto apesar de em muitos casos terem funções que quase se lhe equiparam.

Só que, atendendo ao alastrar do Islão na Europa, não é curioso não vermos a mesma preocupação com a posição das mulheres nas mesquitas? Nalguns casos mais liberais, são autorizadas a orientar algumas orações, mas mais nada. Já agora, ouvi em tempos o imã da mesquita de Lisboa dizer que as mulheres não entravam porque não havia espaço para as separar dos homens. E em muitas outras são relegadas para um balcão, muitas vezes por detrás de um painel em forma de grade para não serem vistas.

Mais um assunto em que a “preocupação” só tem um sentido.

Enfim, como disse, não faltam casos de hipocrisia. Como a indignação perante qualquer insulto, real ou imaginado, ao Islão, mas silêncio total quanto ao massacre de cristãos que ocorre em diversos países. Ou falar-se tanto sobre a pedofilia na Igreja mas outras, perpetrada por pessoas em quem as crianças deviam poder confiar, como pais ou professores, ser uma mera nota de rodapé, quando o é. Ou a insistência em penas pesadas de prisão para quem maltrate um animal, mas zero indignação por uns meros 5 anos aplicados a uma psicóloga que deixou o pai a sofrer e a passar fome – pois, sai daqui a um aninho...

Resumindo, a indignação é, atualmente, como muitas outras coisas: só existe numa determinada direção, se for em sentido contrário é ignorada ou, em muitos casos, vilipendiada.

Para a semana: Passadas as eleições  Considerações no rescaldo das eleições

28
Fev25

177 - Vamos a caminho da ditadura!

Luísa

Devido a declarações muito aplaudidas feitas esta semana pelo Senhor de Belém e os milhentos comentários que suscitaram decidi alterar o tema desta semana. Refiro-me, claro, às suas críticas a Trump (grande novidade...) e o seu alerta para “o deslizar da democracia para a ditadura”. Pequeno detalhe, acho muito estranho que uma pessoa que se gaba de ser tão conhecedora e culta chame aos Estados Unidos a “mais antiga democracia do mundo”... então, e a Inglaterra, não conta?

Não deixa, também de ser curioso que quem tanto bramou contra o discurso do Vice-presidente dos EUA em Munique por ser uma ingerência nos assuntos internos de um país soberano venha agora intrometer-se no modo como o líder dessa tal democracia mais antiga, nas palavras dele, gere os contactos com a comunicação social.

Mas o que me incomodou mais foi ler os inúmeros artigos e comentários de concordância. A fazer fé em toda essa gente, temos vivido em democracia ampla e o perigo está todo no Trump e nos partidos europeus da extrema-direita – não nos da extrema-esquerda, entenda-se, todos nós sabemos como o nosso PCP é fã de regimes democráticos, como Cuba e a Coreia do Norte.

Queixam-se, também, de o dito Trump estar a coartar a liberdade de expressão e a tentar espartilhar a comunicação social em regras que o apoiem e lhe sejam favoráveis, sendo o exemplo acabado a proibição da presença da Associated Press (AP) nas conferências de imprensa da Casa Branca, supostamente por não quererem chamar Golfo da América ao Golfo do México. Pois, os anos de guerra aberta e as muitas falsidades e meias falsidades da dita não têm nada a ver com o caso. Basta lembrarmo-nos que a Lusa, esse bastião de isenção, retira diretamente da AP muitas das suas notícias internacionais, sem se dar ao trabalho de as verificar.

Mas vamos ao que importa, esse tal deslizar da democracia para a ditadura.

Começando pela política, recordo que o inenarrável Sr. Costa, aquando da formação do governo geringonça, ouviu todos os outros partidos exceto o Chega “porque não vale a pena”. E o Senhor de Belém aplaudiu. Recordemos, também, a satisfação geral com a anulação das eleições na Roménia e as ameaças veladas de se fazer o mesmo na Alemanha caso a direita ganhasse.

E é o Trump e a direita europeia que nos querem levar para uma ditadura?

Isto sem contar os insultos mais ou menos soezes contra quem ousa votar de modo contrário aos ditames dos Donos da Verdade. Para essa gente não passam de pessoas estúpidas e ignorantes que não sabem o que fazem quando votam. Já só falta exigir que percam esse direito – e, muito francamente, já estivemos mais longe disso.

Em termos de liberdade de expressão, não há, certamente, melhor exemplo do que o professor de matemática de Inglaterra que foi despedido e proibido de ensinar durante três anos porque disse “muito bem, meninas” a uma turma de raparigas e uma delas “identificava-se” como rapaz. Ou a atual lei escocesa que dá penas de prisão pesadas a quem ousar rezar, mesmo silenciosamente, a menos de 500 metros de uma clínica de abortos.

Isto para não falar na proibição de espectadores de desporto liceal no Texas não poderem levar a bandeira desse estado porque pode ofender os mexicanos ou os muitos intelectuais proibidos de darem aulas ou conferências em universidades porque são “fascistas” – também já tivemos recentemente casos desses. O mais giro é quando perguntam aos alunos que exigiram esse boicote quais são, afinal, as ideias que contestam... não fazem a menor ideia, muitos até nem sabem quem é a pessoas, mas disseram-lhes que era má.

E é o Trump e a direita europeia que nos querem levar para uma ditadura?

Temos, também, a prova adicional dos cortes que o Musk quer fazer no funcionalismo americano que, apesar de não ser a “vaca gorda” que é o nosso, está bem inchado e eivado de incompetência. A grande vantagem é que é facílimo despedir e com uma compensação minúscula.

Vi – bom, de relance, já não tenho pachorra para certas coisas, se é que alguma vez a tive – numerosas entrevistas a funcionários de vários setores a bramarem contra os cortes porque vai ser o fim do mundo e o que eles fazem, todos eles, é absolutamente indispensável. Isto apesar de qualquer americano que tenha tido o azar de lidar com o governo poder dizer o contrário. Há, até, a célebre piada de a frase que mais assusta um americano ser “Somos do governo e viemos ajudar”.

Estranhamente, os mesmos que apontam o dedo ao tremendo deficit dos EUA são os que mais berram contra esta tentativa de cortar a despesa. Ou será que temem que a moda pegue e que os respetivos eleitores comecem a exigir o mesmo? Em Portugal iria resultar às mil maravilhas, atendendo a que o Passos Coelho tentou algo similar com chefes de secção – dizerem quantos subordinados tinham e o que faziam – sem êxito, apesar de saberem que um despedimento seria praticamente impossível.

Isto para não falar dos muitos anúncios em tudo quanto é rede social sobre as centenas de milhares de pessoas que irão morrer devido ao fecho da USAID – ainda hoje vi um que falava em 500 000 sul-africanos! Já agora, para quem diz que a lista de “ajudados” é falsa porque quem a citou é “um mentiroso”, bom, os democratas não negam o conteúdo, só lamentam que tenha sido divulgada.

Ou seja, é sinal de uma boa democracia esconder dos contribuintes o destino que os que elegem dão aos seus impostos. E não, Musk ter começado pela USAID não foi “inocente”, havia boatos há muito tempo mas, infelizmente, a realidade era bem pior do que o mais assanhado partidário de conspirações imaginava. Sem falar que, analisando a lista, os apoios são na sua maioria para assuntos relativos a transexualidade, fora os apoios a esses bons democratas do Hamas e  do Hezbollah.

E é o Trump e a direita europeia que nos querem levar para uma ditadura?

Para a semana: Vivemos num país seguro... Pois, pelos vistos todos o sabem... exceto a população em geral

21
Jul23

93 - É censura

Luísa

Tivemos recentemente o caso altamente badalado do chamado “cartoon do polícia”. Para os mais distraídos, vê-se um polícia a disparar uma pistola e depois vemos os resultados: três alvos, um de cor branca, outro levemente castanho e outro bem escurinho. Pois bem, o alvo branco não tem um único acerto, o pouco tingido, digamos, tem alguns (poucos) e o alvo escuro está cheio deles.

A interpretação mais comum que se ouviu é que “expressa a realidade”. Pois, só um pequeno detalhe, a frase correta devia ser “expressa a realidade tal como é transmitida pelos jornalistas. É que andamos dias a fio a ler e a ouvir notícias quando um polícia mata um não branco, mas se dispara contra brancos... não é notícia de primeira página nem de abertura de noticiários e morre prontamente.

Acham que não tenho razão? Quantos ouviram falar de Justine Damond, uma americana morta a tiro por um polícia de origem somali quando ligou para o 112 a comunicar uma ataque a uma mulher numa ruela junto à sua casa? Quando o carro da polícia chegou, ela dirigiu-se a ele de roupão de verão e foi prontamente baleada e morta. Mas não foi notícia cá e mesmo nos EUA este caso quase passou despercebido.

Mas divago, a intenção deste post é falar das reações ao cartoon.

A polícia ficou indignada, como seria de esperar, e foi prontamente condenada por isso. Mas o mais interessante foi ouvir dizer que as pessoas que estavam contra o dito cartoon eram de extrema direita e a favor da censura! Ainda mais interessante foi ver os mesmos que, a propósito da caricatura do nosso “estimadíssimo” Sr. Costa (lembram-se, a do “é racismo”!) diziam que era péssima, que nunca devia ter visto a luz do dia, que a reação do PM era totalmente compreensível, virem agora defender com unhas e dentes o dito cartoon com o pretexto de que é “liberdade de expressão”.

Pois bem, senhores jornalistas tão liberais, aqui vão duas propostas de cartoons sobre a vossa profissão.

No primeiro, vemos numa primeira imagem um motim na rua de uma cidade, vandalismo, carros queimados, violência de todos os tipos. A segunda imagem mostra o mesmo mas mais de cima, vendo-se claramente jornalistas – com a respetiva placa ao peito – a deitarem gasolina para o que se passa lá em baixo.

No segundo, começamos por ver um jornalista a empunhar todo ufano um artigo em que bate forte e feio num determinado partido. A imagem seguinte foca-o mais de perto, vendo-se claramente meio a sair do bolso um cartão de inscrito no partido oposto.

Que tal? O quê, não gostam? Estão indignados com as acusações aqui subjacentes? Então quando vos diz respeito a sacrossanta liberdade de expressão já não vale?

Já falei de censura em Novo dicionário precisa-se - Parte 1 e de liberdade de expressão em O mito da liberdade de expressão. Volto repetidamente a este assunto por duas razões. Uma, incomoda-me qualquer tentativa de calar as pessoas. E dois, incomoda-me bem mais a hipocrisia de quem o faz em certas circunstâncias e berra e barafusta noutras.

Um bom exemplo disto é o que se passa com livros. Ouvi recentemente um comentário muito indignado porque algures (não em Portugal) uma organização local tinha querido banir da biblioteca o livro Orlando de Virgínia Woolf por retratar o que hoje veríamos como um transexual. Estranhamente, nunca vi protestos pelos muitos livros banidos de bibliotecas escolares (e não só) nos EUA por diversas razões – por exemplo, Tom Sawyer, porque às tantas aparece o termo “nigger”, muito usado na época em que foi escrito.

Ah, mas essa é uma boa razão, pode ferir as sensibilidades “certas”. Já quem se sentir ofendido pela ideia da transexualidade, bom, é fascista, nazi, etc. Ou seja, um dos casos é totalmente justificável, o outro é apenas a abominável censura em ação.

E já ouviram falar dos “leitores de sensibilidade” que muitas editoras já usam para avaliar o “perigo” dos livros que tencionam publicar? Pois, esses “consultores” bem se fartam de dizer que não impõem nada, limitam-se apenas a sugerir... Pois, os censores de Salazar também nada impunham, limitavam-se muito simplesmente a “sugerir” o que tinha de ser cortado se o autor quisesse ver o seu texto publicado.

Dir-me-ão, não é a mesma coisa. A sério? Se esses leitores disserem que o que eu escrevi pode ferir a sensibilidade de pessoas não brancas, de não cristãos, de mulheres ou do pessoal LBGBTQ+ alguém acredita que o texto será publicado como eu o quero e escrevi? Ou até que eu venha a ser publicada? Não nos esqueçamos da campanha para banir JK Rowling (a do Harry Potter) por ter dito numa entrevista algo que foi visto como transfóbico – mas atenção, isto não é censura!

E a moda atual de alterar livros por razões de sensibilidade? Como as obras de Roald Dahl, onde gordo passa a forte e outros mimos similares. E a lista de autores abrangidos não para de aumentar. Fica-se até com a impressão de que há muito boa gente por aí que só consegue ler livros se tiver um lápis vermelho na mão para ir marcando tudo o que possa ser ofensivo para alguém – bom, menos para brancos, cristãos, heterossexuais e homens...

Para terminar, voltemos ao cartoon. Pessoalmente, acho que nunca devia ter sido publicado, não por censura mas por outras razões.

Primeiro, porque mostra a ideia mais do que simplista que quem o fez tem do que se passa nestas situações de confronto com a polícia. Já agora, gostaria de ver essa pessoa a passar uma semana em patrulha em certos bairros de Lisboa e outra semana de serviço numa dessas esquadras. Mas sem câmaras à vista e sem qualquer identificação como não polícia. E já agora, acompanhado de um segundo elemento, não jornalista, para garantir que o relato dessa experiência era o mais factual possível.

Acho também que este tipo de imagens só serve para arreigar em certos elementos da nossa população a ideia de que podem fazer o que quiserem, incluindo insultar, ferir e matar polícias, porque se estes ripostarem... é racismo puro e simples.

Mais ainda, todas estas acusações acabam por levar polícias a hesitarem em reagir, com consequências que podem ser gravíssimas para eles.

Ou seja, o autor do dito cartoon e quem o publicou deviam ter medido as consequências do que faziam – lembram-se das críticas às caricaturas de Maomé em que muitos dos que condenavam o ataque ao jornal, os anti-censura, nunca se esqueciam de acrescentar que não tinha sido boa ideia publicá-las, quem o fez devia ter tido em conta que poderiam ferir suscetibilidades...

Pois, é o velhinho “dois pesos e duas medidas”.

Para semana: E são férias! Um post um pouco mais “leve”...

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