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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Luísa Opina

19
Jan24

119 Para uma inclusão a sério

Luísa

Entre os termos da moda, “inclusão” é um dos mais usados – e abusados.

Em teoria, é, até, um conceito de louvar, a criação de uma sociedade onde todos se possam sentir à vontade na sua pele e realizar todo o seu potencial, sem entraves devidos apenas ao que são.

Francamente, dito deste modo, sou totalmente a favor!

Só que... pois, infelizmente há sempre um mas. E aqui é só um detalhe, é que definição de “todos” nas campanhas da inclusão não significa mesmo todos, muito longe disso, apenas o pessoal do alfabeto – sabem, os LB etc. – e, sobretudo transexuais ou candidatos a tal.

Pois bem, como sou uma otimista de gema, aqui deixo algumas sugestões para tentar criar uma inclusão a sério.

E como a grande ênfase das campanhas está nas escolas e criancinhas, irei concentrar-me nelas.

Como primeira sugestão, em vez de as porem a marchar com as bandeirinhas arco-íris e o slogan de “todos iguais”, como vi, ainda recentemente, um grupo da pré-primária, e a receberem, chamemos os bois pelos nomes, uma lavagem ao cérebro sobre “sexo é uma construção da sociedade” e o “género nada tem a ver com biologia”, que tal aprenderem algo realmente inclusivo como linguagem gestual?

Para além de poderem comunicar com colegas – e não só – surdos, isso abrir-lhes-á os olhos e a mente para a ideia de que há pessoas diferentes e que têm o mesmo direito a viver plenamente em sociedade. Não digo que a aprendam na totalidade, mas, pelo menos, o mínimo para comunicar e entender. E como até há noticiários e programas dobrados nessa linguagem, será fácil treiná-la. No mínimo, aprenderão alguma coisa útil.

E já que o mote ouvido até à saciedade é aceitar a diferença, seria, certamente, uma boa ideia organizar convívios com pessoas cegas, por exemplo, caso não tenham nenhum colega nessa situação. É que muitos nunca viram ninguém assim e só lhes fará bem perceberem desde cedo que a cegueira não impede de se ter uma vida rica e útil. E quem diz cegueira diz falta de mobilidade ou algo assim.

Já agora, que tal organizar visitas às escolas de atletas paraolímpicos? Temos muitos e bons, apesar de pouco conhecidos, e acredito que isto ajudaria muito à inclusão de crianças – e mais tarde adultos – com vários tipos de problemas.

Passando a uma área diferente, um dia destes vi uma reportagem que me chocou, sobretudo porque foi logo a seguir ao discurso de alguém a elogiar a nova lei das escolas que, supostamente, ajuda à inclusão. Pois bem, tratava-se de um rapaz autista, adolescente, que era diariamente vítima de bullying na escola por ser “diferente”, tudo isso perante a passividade de professores e diretores e apesar de inúmeras queixas por parte da mãe.

Acontece que há no mundo atual cada vez mais pessoas diagnosticadas com autismo. Reparem que eu disse “diagnosticadas”, é que não é por acaso que se fala no espetro do autismo, a maioria dos casos passava despercebida ou era apenas diagnosticada como atraso mental ou problemas emocionais.

Pois bem, aqui está algo mais para ensinar às ditas criancinhas a fim de as educar para um futuro mais inclusivo. É que atualmente até pouquíssimos adultos sabem o que fazer perante alguém autista ou com outro problema da mesma área, estou a pensar, por exemplo, em crianças com síndrome de Down, apesar de serem cada vez menos devido a abortos seletivos – há países nórdicos em que não nasce nenhuma há anos...

É que, exceto em casos mais extremos, não há nenhuma razão para estas crianças não frequentarem uma escola normal, com algum acompanhamento adicional, claro, consoante as suas especificidades. Mas muitos pais hesitam em fazê-lo precisamente porque sabem que os filhos irão ser descriminados por serem o que são. Sem contar que as mesmas direções de escolas prontíssimas a ter casas de banho mistas para não discriminar ninguém arrastam os pés quando se trata de incluir alunos deste tipo.

Mudando de assunto, se queremos uma sociedade inclusiva não podemos permitir que continue a existir o fosso atual entre os dois extremos etários. Muita coisa mudou na sociedade nos últimos anos e são agora poucas as famílias em que várias gerações vivem na mesma casa. Ou até que convivem regularmente.

Junte-se a isso o idadismo cada vez mais presente a todos os níveis, incluindo o governamental, e temos gerações mais novas, leia-se, criancinhas, convencidas desde cedo que “velhos são lixo” ou, no mínimo, um peso morto para a sociedade, pessoas que nada fazem e nada sabem fazer.

Pequeno aparte, neste blog fiz um post, Velhos não são lixo! sobre este tema e no meu outro blog, Ir para novo, há vários posts sobre Idadismo.

A minha sugestão é combater isso desde cedo, a bem da tal inclusão. Por exemplo, pôr os alunos a fazerem a sua árvore genealógica, mas não apenas com nomes, também com uma pequena descrição de quem é – ou era – a pessoa. Seria, até, interessante manter este projeto ao longo do percurso escolar, aumentando o número e qualidade da informação à medida que os alunos iam crescendo.

Mas não me refiro a pôr só factos “frios”, tipo, o meu avô era sapateiro, não, tentar falar com esses familiares caso ainda vivam ou com alguém que os tenha conhecido, a fim de saberem algumas histórias.

Este projeto teria várias vantagens. Por um lado, os mais novos aprenderiam algo sobre os membros mais idosos da sua família, mesmo que não os viessem a conhecer pessoalmente, passando a vê-los como pessoas e não apenas como caras mais ou menos desfocadas em fotos antigas. E da família seria fácil passarem a ver outros idosos como gente de carne e osso, com as suas vidas e histórias, e não apenas  como os “velhinhos, coitadinhos”, outra expressão muito na moda.

E, quem sabe, poderiam até descobrir algum antepassado, não necessariamente longínquo, bastante interessante.

Outra sugestão seria a aplicação em Portugal de algo que já se faz noutros países e que é a ligação entre infantários / pré-primárias e lares de idosos / centros de dia, precisamente para permitir esse convívio, situação alargada ao período pós-aulas durante a primária, por exemplo. E há muitos países em que dar apoio a idosos faz parte das atividades extracurriculares sem as quais um aluno do liceu não tem hipótese de entrar numa universidade.

Bom,  foram só sugestões de inclusão aplicadas às escolas. Há, ainda, a sociedade em geral, mas fica para outro post.

Para a semana: Quanta má fé! A propósito de "cenas" recentes de políticos, jornalixeiros e outros

29
Dez23

116 - Seria tão bom...

Luísa

Em termos de resoluções e desejos pessoais, sugiro que releiam, ou leiam, o meu post Intenções de Ano Novo, de 2022. E quanto a resoluções para contribuirmos para a melhoria da sociedade e do mundo, bom, o post de 2023, Resoluções, resoluções...

Este ano decidi variar e falar apenas de coisas que eu gostaria muito de ver concretizadas em 2024, mas que não dependem de mim. Bom, aqui para nós, é mais uma lista de desejos impossíveis ou, no mínimo, altamente improváveis. Mas, como sou uma otimista nata, aqui vai.

Seria tão bom... que os nossos políticos deixassem de nos considerar estúpidos e amnésicos. Sobretudo num ano em que teremos eleições legislativas antecipadas, que tal meterem a mão na consciência e cortarem com as mil e uma promessas habituais? Não vos parece que merecemos melhor do que a repetição, mais uma, de “haverá creches para todos”, “criaremos milhares de camas para estudantes universitários”, construiremos milhares de casas” e outras balelas semelhantes?

Já agora, seria tão bom... que os eleitores portugueses não se deixassem levar na onda de promessas e de benesses em cima do acontecimento e, pelo menos por uma vez, votassem em quem fará o melhor pelo futuro do nosso país e de todos nós, mesmo que isso nos traga problemas a curto prazo – sabem, a tal questão de não se fazerem omeletas sem partir os ovos.

Seria tão bom... que houvesse um esforço a sério para melhorar a qualidade e, acima de tudo, o nível de exigência do nosso ensino. E que em vez de identidades de género e similares se prestasse atenção à aquisição de conhecimentos e de competências para a vida. É que estamos a criar uma geração – ou várias – que nem sequer sabe estudar, pesquisar, procurar e filtrar informação e avaliar a sua credibilidade, o que os torna propícios a um seguidismo cego e sem o menor sentido crítico.

Seria tão bom... que passássemos a avaliar as pessoas por aquilo que valem e sabem e não porque são minorias, mulheres, etc. Ou seja, nada de quotas, seja porque razão for. Tratemos todas as pessoas como seres humanos e apenas seres humanos, isso, sim, é a verdadeira inclusão, sem artificialismos ou regras absurdas que só servem para desacreditar os membros do grupo que se tenta promover à força. Ou acham que a partir do momento em que tiver de haver uma percentagem obrigatória de mulheres, por exemplo, em lugares de chefia isso não vai prejudicar todas as que lá chegaram por mérito próprio?

Seria tão bom que se fizesse algo para acabar com o último tipo de discriminação ainda totalmente aceite pela nossa sociedade, o idadismo. E que se deixe de falar dos “velhinhos, coitadinhos” e que as pessoas com uma certa idade passassem a ser vistas como aquilo que realmente são: recetáculos de experiência e de conhecimentos, teóricos e / ou práticos que devíamos aproveitar a bem da sociedade em vez de os pormos a um canto como algo em desuso.

Seria tão bom... que o muito dinheiro que se gasta em ajudas e apoios a torto e a direito passasse a ir para quem realmente precisa e não para oportunistas não dispostos em dar o seu contributo para a sociedade. E que esses apoios servissem, de facto, para ajudar quem os recebe a refazer a sua vida ou a voltar ao caminho certo para se poder firmar nos seus próprios pés e deixar de estar dependente de terceiros. Mais ainda, que em vez de pagar a pessoas que nada fazem, esse dinheiro fosse usado para criar pensões mínimas decentes para quem após uma vida de trabalho e de dificuldades se vê a ter uma existência ainda mais precária.

Seria tão bom... que passássemos a ter consultas médicas sempre que são precisas – ou que achamos que o são. E que deixássemos de passar horas à espera nas Urgências de um hospital, mesmo quando a situação é gravíssima. Mais ainda, que quem precisa de um tratamento ou de uma operação os possa ter a tempo e horas, sem passar anos à espera e a ver o seu estado físico – e psicológico – a deteriorar-se. E que uma grávida não tenha de passar as últimas semanas em sobressalto sem saber se vai conseguir um sítio para ter a criança.

Seria tão bom... que jornalistas e comunicação social voltassem ao que eram há umas décadas, ou seja, defensores dos factos e da verdade, doesse a quem doesse. E que reservassem as suas opiniões e parcialidades para as colunas de opinião, onde pertencem, e não para o que chamam notícias.

Finalmente, seria tão bom... que um português vítima de um crime ou familiar de uma vítima visse a justiça a ser aplicada como deve ser, com justeza, sem olhar a amizades ou interesses de qualquer tipo, e, acima de tudo, com a máxima celeridade. E que deixássemos de ver imagens como as que passaram recentemente num canal de televisão em que víamos os presos, “coitadinhos”, a viverem à grande e a divertirem-se com tudo e mais alguma coisa, incluindo drogas, quando há tanta gente que nunca fez mal nenhum e que vive com grandes dificuldades, em muitos casos são até as vítimas dos que vão gozando a vida atrás das grades.

Pois, seria mesmo bom...

Mas enquanto espero – sentada, claro – aproveito para vos desejar uma boa Passagem de Anos e um 2024 melhor do que 2023, por muito bom que este tenha sido para vós.

Para semana: Já não há vergonha A propósito de declarações recentes de alguns políticos

08
Dez23

113 - Pobres Jovens!

Luísa

Um dos leitores deste blogue chamou-me a atenção para o Projeto de Lei 332/XV que o PS aprovou dia 7 de dezembro, ou seja, no último dia do prazo alargado – mais a borla de uma semana – que o senhor de Belém decidiu dar a Costa e seus muchachos para poderem manobrar e assinar tudo e mais alguma coisa com vista a cair nas boas graças dos seus votantes usuais. Estou muito grata por esta chamada de atenção, uma vez que é uma lei gravíssima.

E aqui fica o link que recebi.

Basicamente, as crianças passam a ter, desde os 7 anos, o poder de decidir a sua “identidade de género”, pior ainda, podem iniciar, ainda adolescentes jovens, os tratamentos para a transição, sem consultas psicológicas e à revelia da vontade dos pais – que, evidentemente, terão de pagar tudo e mais alguma coisa.

A teoria subjacente é que o sexo, no sentido de género, não é biológico mas sim uma construção da sociedade. E, perante isto, as escolas passam a ter o direito de denunciar pais que, na sua opinião, não respeitem a vontade da dita criancinha, podendo, até, verem ser-lhes retirados os filhos.

Mas passemos ao mais importante, a denúncia dos pais à Comissão de Menores se a escola ou um professor achar que não apoiam devidamente o seu filhote ou se este se lembrar de fazer queixinhas.

A minha pergunta é esta, porque não estendem isto a outras situações? Por exemplo, a violência doméstica. Sabe-se há muito que crianças que vivem num ambiente desses acabam por se tornar, em adultas, agressores ou vítimas. E há desde há muito toda uma série de sinais de alarme a que escola, professores e outro pessoal deviam estar atentos. Mas não, a única preocupação é a identidade de género...

E temos também a pedofilia. Também aqui há toda uma lista de sinais de alarme há muito conhecidos. Mais ainda, sabe-se que mais de 90 por cento dos casos decorrem no seio familiar ou envolvem amigos da família – ou seja, é terreno propício para que em caso de dúvida se retire a criança. Mas o que é que a escola faz? Nada! Há algum projeto-lei sobre o assunto? É claro que não! Mas não admira, como temos visto a pedofilia só é grave se o seu autor for padre...

E temos, depois, um outro aspeto deste projeto-lei e de decisões similares, é que não abrangem toda a gente, as atenções focam-se única e exclusivamente em cristãos e brancos.

Que liberdade é que acham que tem um rapaz ou rapariga muçulmanos que decidam que estão no corpo errado? Pois, têm sorte se não sofrerem um “acidente” doméstico que os ponha no cemitério. Mas tudo bem, se calhar até nem têm de estar presentes quando se discute esse assunto, para não ferir as suscetibilidades...

E já que estão tão preocupados com dar o poder de decisão aos jovens, que tal levarem isso a sério e proibirem o uso de hijab, burcas e similares a menores de 18 anos? E se houver provas – perdão, suspeitas – de que os pais as obrigam a cumprir com ditames desses, bom, tirem-lhes as criancinhas para que, num ambiente neutro e sem pressões, possam  decidir sozinhas.

E a mutilação feminina? Que poder de decisão têm essas raparigas que passarão a sofrer dores e todo o tipo de problemas para o resto da vida? Mas tudo bem, são os costumes.

E quando raparigas – sim, os casos maus são quase sempre com elas – são impedidas de estudar para terem um futuro melhor e são casadas mal o podem fazer com um homem escolhido pela família? Não era de as retirar desse ambiente tóxico, o termo da moda?

Muito francamente, começo a pensar se a esquerda não anda numa campanha para reduzir a população. É que um jovem que inicie o processo de transição, mesmo que se venha a arrepender mais tarde, bom, azar, já é estéril! Ou seja, os iluminados patrocinadores desta lei acham que um jovem de 13 / 14 anos tem maturidade suficiente para analisar os prós e contras desta questão e interiorizar a ideia de que é uma decisão irreversível.

Já agora, recomendo a leitura desta coluna do Observador.

Tudo isto seria absurdo se não fosse tão grave. E, mera curiosidade, saíram esta semana os dados da avaliação PISA de 2022, em que os jovens portugueses desceram em tudo, sobretudo na compreensão da língua portuguesa. Ou seja, não sabem interpretar um texto, mas podem decidir sobre um assunto complexo e com consequências futuras tão graves como é a mudança de sexo...

O que mais me choca nisto tudo é a leveza com que se trata um problema psicológico grave como é a disforia de género. É que, ao contrário do que nos tentam enfiar goela abaixo, não é uma moda nem uma escolha, é algo gravíssimo que não se cura com uma mera mudança de sexo, muito menos se esta é feita em jovens que ainda não atingiram a maturidade física.

Já agora, temos toda esta preocupação com criar um ambiente inclusivo nas escolas... pois, se que pelos vistos é mais um termo cujo significado foi alterado pelos donos da verdade. É que ainda há bem pouco tempo vi uma reportagem sobre um rapaz autista que sofria bullying na escola, perante a indiferença de todo o seu pessoal. Mas se dissesse “sinto-me rapariga”, aí, sim, ai de quem o insultasse, de facto ou na sua imaginação.

Uma última nota, no artigo que mencionei no início deste post ficou-me, sobretudo, uma declaração de Jorge Sarmento Morais, chefe de gabinete do Ministro da Educação. Diz essa luminária, “O papel das escolas é retirar as crianças à família para as fazer crescer em comunidade.”

E eu que pensava, na minha ingenuidade, que o papel das escolas era preparar as crianças para a vida em sociedade! Mas, pelos vistos, existem para lavar o cérebro aos jovens e transformá-los em máquinas acéfalas que só fazem e dizem o que os Iluminados do costume entendem ser correto.

Para semana: Há populismo e... populismo. Sim, não nascem todos iguais!

25
Nov22

60 - Hipocrisias

Luísa

Anunciei para esta semana um post intitulado A geração entediada mas, face a acontecimentos recentes, decidi adiá-lo por uma semana e falar antes da tremenda hipocrisia a que temos assistido por parte de políticos, de “bem-intencionados” e até de organizações internacionais.

Refiro-me, claro está, à tremenda indignação por o Mundial de futebol decorrer no Qatar, que é acusado de ser mau para as mulheres, de não ser “inclusivo”, de tratar mal – escravizar, até – quem lá trabalha, enfim, de não respeitar os direitos humanos.

E até é verdade! O problema está no facto de o mesmo nível de indignação não ser dirigido a quem faz bem pior e que, apesar disso, é tratado com todo o respeito e consideração.

Vamos por partes, começando pelas mulheres.

Espantosamente, os mesmos que afirmam que dizer que o Islão não respeita as mulheres é mentira vêm agora bramar contra a aplicação da mesma religião no Qatar. Pior ainda, ninguém protesta contra a presença da seleção do Irão neste Mundial, país esse que é, como todos sabemos, um paraíso para as mulheres, como provam – caso houvesse necessidade disso – acontecimentos recentes. Fazem-se umas marchas, fala-se um pouco e pronto, o mau é o Qatar.

Curiosamente, ninguém repara nos milhões de mulheres e raparigas que vivem na Europa – muitas delas até já aqui nascidas – que vivem bem mais oprimidas apesar de toda a nossa legislação de igualdade. É que, por respeito para com os costumes e a religião, não cristã, entenda-se, deixa-se fazer tudo e mais alguma coisa e quem ousa protestar é logo acusado de ser islamofóbico, racista, xenófobo, fascista, etc.

Já repararam que raparigas pequenas no Qatar andam de cabelo à vista? Pois bem, em muitas zonas de Londres, meninas de 3 e 4 anos – e às vezes ainda mais novas – andam tapadas da cabeça aos pés, mal se lhes vendo a cara, não podem brincar no recreio nem fazer basicamente nada e, como apesar de tudo, o ensino é obrigatório, vão para escolas islâmicas onde nem o Corão aprendem...

Protesta-se contra a sharia no Qatar, mas esta está em vigor, e de que maneira, em muitos países europeus como Inglaterra, França, Alemanha e muitos mais. Pior ainda, é aplicada “ao gosto de cada um”, uma vez que, oficialmente, nem sequer existe.

E viram a hipocrisia suprema do Sr. Marcelo ao apelar ao fim de todas as violências contra as mulheres quando preside a um país onde só este ano já foram mortas 28 mulheres por violência doméstica? Isto fora as muitas que ficaram feridas gravemente e os casos “menores”, digamos, ou seja, os que nem chegam à comunicação social!

Passemos à inclusão, que significa, basicamente, aceitar de braços abertos homossexuais, transexuais e todo o resto do “alfabeto”. Podem dizer-me o nome de um país muçulmano em que isso aconteça? Mais ainda, de uma comunidade algures no mundo? Será que um muçulmano homossexual em Portugal é bem aceite pela família e respetiva mesquita? Pois...

E vamos agora ao trabalho “escravo”. Mais uma vez, o Sr. Marcelo perdeu uma bela ocasião de estar calado, ele a “botar faladura” e a termos aquela rusga no Alentejo!

O grande argumento é que a Organização Mundial do Trabalho denuncia as condições laborais no Qatar. E eu nem sequer duvido que sejam más... pelos critérios Ocidentais. Mas... como são essas condições nos países de origem desses trabalhadores? Isto partindo do princípio de que até arranjavam trabalho lá... E, ao contrário do caso do Alentejo e de tantos outros que têm surgido Europa fora, nomeadamente com mulheres, ninguém os força a trabalhar nem lhes fica com os documentos e com o dinheiro. As condições são duras e o horário é longo, mas ganham em um ou dois anos o suficiente para sustentar uma família mais do que alargada durante bastante mais tempo.

E só o Qatar é que é mau nesta área? Que tal a China, com os campos de trabalhos forçados para presos políticos ou ainda os bem piores criados para os uigures? Mesmo fora dessas prisões, as condições pouco melhores são, à parte serem (mal) pagos pelo que fazem. Sabiam que houve uma revolta de trabalhadores em Xangai porque em vez de 12 horas por dia, sete dias por semana, queriam ter um dia de descanso?

Mas os tão indignados com o Qatar calam-se em relação à China por medo que lhes venham a faltar os telemóveis última geração, componentes para o carrinho novo ou produtos a preço de saldo... A própria OMT raras vezes fala no assunto, a menos que seja pressionada a fazê-lo e mesmo assim quase em tom de desculpa.

E os direitos humanos? Mais uma vez, grassa a hipocrisia. Quantas vezes ouviram a Amnistia Internacional berrar contra a China, a Rússia, o Irão – o tal que até está presente no Mundial, repito – ou o Afeganistão? Em décadas, bem menos do que falou do Qatar nas últimas semanas.

E não acham que é precisa uma grande desfaçatez o Sr. Costa e o Sr. Marcelo falaram disto quando um deles “fez panelinha” com o nosso tão democrático e liberal PCP e o outro a apoiou? Sim, o partido que acha bem tudo o que a Rússia faz e tudo lhe desculpa, que adorava a Cuba de Fidel Castro – outro paraíso de direitos humanos – e a Venezuela do Chavez?

Como último ponto, temos o Qatar ter proibido manifestações pelos ditos direitos humanos e todo o tipo de coisas alusivas, como as célebres bandeiras e braçadeiras arco-íris. Pois bem, veio-me logo à mente a última visita do presidente chinês a Londres, em que manifestantes pelos mesmo direitos foram mantidos tão afastados do trajeto que nem se viam e houve até prisões dos que mesmo assim arranjaram uma maneira de se fazerem ouvir pelo dito “defensor” de tudo o que é humano...

Francamente, o grande “crime” do Qatar é ser um país capitalista e que não produz nada de que o Ocidente – sobretudo a “esquerda caviar” – precisa. E se queremos realmente lutar pelos direitos humanos, então façamo-lo a sério, contra tudo e contra todos, mesmo que os resultados sejam inconvenientes para o nosso bem-estar. O contrário não passa de pura hipocrisia!

Para semana: A geração entediada. É o nome que me vem à mente quando penso nos jovens de agora.

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