188 - Passadas as eleições
Muito francamente, acho que os resultados das eleições só foram um “terramoto político” para quem anda com a cabeça enterrada na areia ou vive num universo paralelo. Infelizmente, isso significa tudo quanto é jornalista, analista e comentador político (a Fauna Comentadora, ou FC) ou, no mínimo, quem diz sê-lo – e basta ligar um televisor para ver que são uma espécie bem abundante no nosso país.
Ora vamos por partes, começando pela esquerda. Para mim, o único espanto foi os três “democratas” do costume, PCP, BE e PAN terem conseguido manter o tacho na Assembleia, uns mais do que outros. E, claro, irão lutar contra o fascismo, etc., enfim, a conversa do costume.
O resultado do PS também não me espantou, achei, até, que acabou com deputados a mais. É que, ao contrário dele e de muita da FC, o povo não sofre de amnésia e só dificilmente acreditaria, em massa, que quem governou 8 anos seguidos, 4 deles com maioria absoluta, e nada fez iria agora, milagrosamente, fazer tudo e mais alguma coisa.
Quanto ao PSD, por mais que Montenegro cante vitória, as coisas não lhe correram bem como esperava, ou seja, não houve uma reviravolta à Cavaco Silva e continuará a ter um governo minoritário – e neste caso, ser por mais ou menos deputados não é realmente importante.
E vamos agora ao “elefante na sala”, o Chega. Pelos vistos, a FC e os “Partidos Bons” (PB) continuaram a achar que bastava insultar este partido ou, mais especificamente, o seu líder, para que ambos se esfumassem e pudessem voltar aos tempos áureos a.C. (antes do Chega). Sendo assim, e apesar dos avisos de um ou outros comentador mais avisado – e prontamente posto de lado pela comunicação social – continuaram a fazer ouvidos moucos às mais do que justas queixas e razões da população votante.
Senão, vejamos algumas delas.
A segurança, em primeiro lugar. Para FC e PB, qualquer sentimento de insegurança é apenas uma “sensação” empolada pelo Chega, claro, e o país nunca esteve tão seguro. E citam estatísticas mais ou menos abstrusas em apoios desta sua tese.
Só que...
Quase não há dia em que não se ouça falar de um esfaqueamento, de tiroteios com mortos e feridos graves, de assaltos à mão armada com ou sem reféns, de máfias – é o termo usado pelas televisões – que roubam com violência, enfim, um nunca acabar de crimes violentos a que estávamos muito pouco habituados.
E quantas pessoas têm pavor de sair à rua em certas zonas de Lisboa – e não só – ou temem, até, estar em casa, sabendo que podem não estar seguras? Aposto que se os membros da FC ou PB tivessem de viver nessas zonas mudavam logo de conversa.
Mas nada se pode dizer... é que isso seria racismo. E não esqueçamos aquele momento surreal de a Assembleia ter votado um voto de pesar pela morte de um criminoso violento, mas nada ter dito em relação ao condutor de autocarro que ia sendo queimado vivo apenas por ser branco.
Passando à saúde, a grande preocupação dos PB tem sido dar cuidados médicos aos ilegais que estão no nosso país. Mas o facto de muitos milhares de portugueses estarem há anos sem médico de família não os incomoda minimamente, limitam-se à mais do que gasta promessa eleitoral de que “se ganhar, haverá médico de família para todos” – curioso, ouço isso há mais de 30 anos. Como também não os incomoda o mais do que muito conveniente – para o seu pessoal, claro – fecho das Urgências aos fins de semana ou haver grávidas que não fazem ideia do que lhes irá acontecer quando entrarem em trabalhos de parto. Não, só os preocupa a situação dos ilegais.
E continuando com eles – já agora, não lhes chamo imigrantes ilegais, isso não existe, ser imigrante pressupõe fazê-lo de forma legal – está muito na moda ver reportagens com o choradinho sobre terem de estar tanto tempo à espera de documentos para se legalizarem. Mas quanto aos muitos portugueses que esperam e desesperam para resolver os seus problemas, nada. Bom, exceto a usual promessa de que “iremos simplificar a burocracia”... pois!
E o mesmo se passa em relação à habitação, reportagens sem fim sobre ilegais a viverem à molhada em locais sem condições, subentendendo-se que temos de lhes dar casa mal se lembrem de aparecer cá na terra. Mas para os portugueses... mais uma vez nada, exceto as tais promessas.
Bom, quando digo que ninguém fala nestes assuntos, não é bem verdade, a face do “terramoto” é o único a fazê-lo, sendo, por isso, insultado de todos os modos.
Pequeno detalhe, está na moda comparar os imigrantes portugueses dos anos 60 em França, e não só, com a onda invasora atual. Por exemplo, quando alguém do Chega disse, já no pós-eleição, que devíamos era encorajar a vinda de médicos e não de analfabetos, fartei-me de ler comentários sobre as qualificações educativas desses imigrantes portugueses. Será que quem faz isto não se apercebe de como está a ser insultuoso para com esses portugueses? Sim, podiam não ter grande escolaridade, mas tinham vontade de trabalhar e deitavam mão a tudo, tornando-se em pouco tempo trabalhadores muito apreciados. Podemos dizer o mesmo sobre a maioria dos que nos chegam?
O grande problema, para mim, é que fico com a ideia de que ninguém aprendeu nada com estas eleições – ou com as anteriores. FC e PB têm tanto a certeza da sua “bondade” que continuam a falar para o ar. Ou antes, comentam para se ouvirem falar, aferrolhados a sete chaves na sua torrezinha de marfim – ou antes, num universo paralelo que, para eles, é o único existente. Ouvi, até, alguns dizerem que não entendem como se vota no Chega porque este nunca poderá cumprir as promessas eleitorais – pois, são mesmo os únicos!
Quanto ao povo, bom, se vota de um modo que lhes desagrada a solução é simples: em vez de o escutarem e tentarem dar-lhe respostas e soluções, basta, muito simplesmente, dizer que são tudo pessoas burras e, claro, fascistas.
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