Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Luísa Opina

12
Jul25

196 - Pequenas mudanças, grandes resultados

Luísa

Estão neste momento em discussão propostas de alteração de várias leis / sistemas, alterações essas muito contestadas pelos “suspeitos do costume”, claro está, apesar de ainda ser tudo muito vago e sujeito a alterações. Mas nem outra coisa seria de esperar atendendo a que temos na Assembleia da República um partido que anunciou que iria votar contra o programa do Governo – só que, pequeno detalhe que se calhar lhe passou despercebido, ainda nem sequer havia Governo...

Uma dessas questões tem a ver com a Lei da Greve no sentido de ter de haver sempre serviços mínimos. Ora, na minha opinião, claro, isso nada resolve, mesmo partindo do princípio que se consegue fazer essa alteração. Mas há outras medidas que se podiam tomar para que passássemos a ter greves a sério e não ao sabor de interesses políticos nem sequer muito bem encapotados.

Comecemos pelo princípio. Temos inúmeros sindicatos que se gabam de ter muitos milhares de membros. Curiosamente, sempre que ouço isso lembro-me dos clubes de futebol. Há muitos que afirmam o mesmo, só que, quando é altura de eleições e é preciso ter as cotas em dia para votar, os muitas dezenas de milhares ficam reduzidos a muito pouco.

Pior ainda no caso dos sindicatos, temos o modo como decretam as greves: ou pura e simplesmente por decisão da sua direção ou, nos mais “democráticos”, por voto de braço no ar, um estilo de votação que não é praticado em nenhum país civilizado.

Proponho, pois, o seguinte para pormos fim às greves selvagens que assolam o dia a dia de quem trabalha de facto e que é sempre quem mais prejudicado é por essas atitudes a favor dos “trabalhadores”.

Primeiro, os sindicatos teriam de partir todos da estaca zero, ou seja, teriam de reinscrever os seus membros. E, pequeno detalhe, lembro que não é obrigatório pertencer – ou continuar a pertencer – a um sindicato. Veríamos, assim, o peso real dos ditos nos setores que dizem representar.

Segundo, uma greve só pode ser decretada por voto secreto dos membros desse sindicato. Ou seja, urna fechada. Mais ainda, podíamos ir buscar o exemplo inglês em que acima de uma determinada dimensão tem de ser contratada uma empresa externa para contar os votos. Último detalhe, a greve só pode ir em frente se for votada por mais de 50 por cento dos sindicalizados – atenção, não são 50 por cento dos votos expressos mas sim dos membros desse sindicato, ou seja, a direção teria mesmo de os convencer da justeza da greve.

Não sei porquê, suspeito que, sobretudo com esta segunda medida, o número de greves cairia a pique...

Passemos, agora, a outro tema muito na moda, o reagrupamento familiar. Acho ótimo que os imigrantes que cá estão queiram mandar vir a família. Só que... pois, há sempre um senão nestas coisas. E neste caso é até bem simples, basta fazer uma simples pergunta: o imigrante em questão tem como sustentar os ditos familiares? Ou quer mandá-los vir para passar a receber ainda mais ajudas e subsídios e / ou, com o pretexto de ter filhos menores, receber de imediato uma casa a custo baixíssimo (isto se pagar a renda)?

Para evitar que os que vêm sobrecarreguem ainda mais as nossas pobres finanças públicas, aqui fica a minha proposta:

Primeiro, para pedir o dito reagrupamento familiar é preciso ter trabalhado legalmente – ou seja, com descontos e impostos – durante um mínimo de cinco anos.

Segundo, o imigrante em questão tem de ter casa onde instalar a família que vier ter com ele. E, pequeno detalhe, mas muito importante, não terá direito à chamada habitação social durante pelo menos dez anos. O mesmo se aplica a subsídios e ajudas de todos os tipos – incluindo o RSI.

Terceiro, é responsabilizável pelo bom comportamento escolar e social de filhos que mande vir para cá, com um sistema de tolerância zero. Isso inclui a aprendizagem do português caso não o falem.

E se estão a pensar, coitados, assim só podem mandar vir a família os que tiverem um bom emprego, bom, acham bem que sejamos nós a pagar pela vinda e sustento dessas pessoas? É que se acham que sim, a solução é simples, criem uma associação que o faça com as vossas cotas...

Finalmente, e de certo modo associado ao tema anterior, a muito contestada alteração da lei da nacionalidade.

Sim, é preciso reformulá-la muito a sério, mas até lá, que tal aplicar como deve ser a que já existe?

Que eu saiba, inclui pelo menos dois pontos: emprego e conhecimento da língua portuguesa. Ora a avaliar pelos resultados que grassam por aí, muitos dos primeiros são falsos, “criados” apenas para apresentar o papel na altura do pedido e esquecidos mal resulta. E quanto ao português... não faltam por aí “portugueses” que nem uma palavra dizem, levando-nos a questionar como é que obtiveram a nacionalidade.

Como o combate à corrupção está também muito na moda, que tal investigar as atribuições de nacionalidade dos últimos cinco anos? Ou seja, prova de que tinham, de facto, um emprego a sério quando fizeram o pedido – e uma explicação decente para o que lhe aconteceu depois, suspeito que muitos esfumaram-se mal foram obtidos os documentos da praxe. E um exame a sério dos conhecimentos de português do dito cidadão.

Caso não satisfaçam estas exigências, a atribuição da nacionalidade será, pura e simplesmente, considerada dolosa e fica sem efeito – eu diria, até, que se fosse investigar quem lhe deu o aval, mas como serão funcionários públicos, não vale a pena, se forem despedidos lá virá o Tribunal Administrativo zelar por eles.

Resumindo, sem alterar as leis teríamos, certamente, um resultado bem melhor do que continuar à espera das medidas perfeitas, sobretudo com um PM que oscila entre querer agradar à população que votou, claramente, contra a esquerda e as suas tendências naturais de se chegar ao PS.

Para a semana: Protegemos mesmo as crianças? Com o choro e ranger de dentes a que assistimos recentemente, é altura de fazer esta pergunta.

13
Dez24

166 - Greves

Luísa

Como seria de esperar, agora que temos um governo “de direita” as greves regressaram em força. E há-as para todos os gostos e feitios. E, também inevitavelmente, ouvimos os usuais choradinhos a darem toda a razão aos grevistas, números diferentes de adesão à greve entre entidades empregadoras e sindicatos, o atirar total de culpas ao atual governo... resumindo, um vira o disco e toca o mesmo.

E há, também, um outro pequeno detalhe de muitas delas serem à sexta-feira ou à segunda-feira... ou numa véspera de feriado. Diga-se de passagem que cá em casa isso tem sido apontado há anos, mas só agora começo a ouvir alguns comentários (poucos) sobre isso.

Começo por afirmar que defendo o direito à greve... mas não nos moldes em que decorre em Portugal, onde é, basicamente, decretada pela direção do sindicato em questão. Sim, algumas são “votadas” em plenário de trabalhadores, mas eu sempre achei que uma votação de braço no ar não é uma votação a sério, há toda a pressão psicológica – e não só – dos colegas ali presentes para se ser uma “Maria vai com as outras”.

E não tenhamos ilusões, muitas greves são feitas por razões meramente políticas – é que não nos esqueçamos que as duas maiores centrais sindicais são feudo dos dois grandes partidos de esquerda, o PCP e o PS.

O resultado disto tudo é que já ninguém liga às “justas reivindicações” debitadas por rádios e televisões, a reação normal é, até, “Outra greve?” seguida de um encolher de ombros. Compare-se isso com o que aconteceu há alguns anos na Alemanha quando o maior sindicato do país anunciou uma greve: o país ficou em suspenso a tentar entender a situação, era a primeira em décadas!

Dito tudo isto, gostaria de sugerir umas alterações à lei da greve, uma bastante fácil de implementar, as outras um pouco mais morosas e, acima de tudo, mais suscetíveis de suscitar uma feroz oposição.

Vamos à primeira: as greves só poderiam realizar-se de terça a quinta-feira, mas nunca na véspera de um feriado ou no dia seguinte a um. Ou seja, fim de pontes improvisadas.

Depois, a existência de um livro de ponto da greve. Ou seja, quem tenciona fazer greve, tem de o assinar, caso contrário é simplesmente uma falta que terá de ser justificada.

E porquê? Bom, nunca vos intrigou a discrepância, às vezes enorme, entre os números indicados pelo sindicato que decretou a greve e os da respetiva entidade empregadora? Para mim, a explicação é fácil, basta ter em mente que muitas das greves, ou antes, a sua quase totalidade, ocorrem no setor público. E que este tem todo um sistema de faltas justificadas. Por exemplo, se uma situação “de doença” não exceder três dias consecutivos, duas vezes por ano, não precisa de comprovativo.

Há, ainda, o pequeno detalhe de em certos setores, como os transportes, ser muito fácil paralisar todo o sistema por parte de meia dúzia de pessoas, obrigando, de facto, a uma adesão a 100 %. Vejam-se os comboios, basta impedi-los de partir das estações terminais para ter uma paralisação total. Ou seja, os números dos sindicatos refletem quem não trabalhou nesse dia, os da entidade empregadora deduzem desse número quem ofereceu uma outra justificação para não o fazer.

É claro que a existência de um livro de ponto da greve traria consigo outros problemas, nomeadamente represálias sobre quem não assina. Sim, leram bem, sobre quem não assina. Ouvimos falar muito das pressões dos patrões sobre os trabalhadores para não fazerem greve, mas nada se diz sobre as exercidas pelos sindicatos.

Quando vim para Portugal no início dos anos 80, toda essa cena de greves fascinava-me. É que tinha estado a trabalhar numa República Democrática Popular onde, claro, não existem – supostamente porque esse tipo de país já é um paraíso para os trabalhadores... E o que mais me intrigava era ver a ação dos piquetes de greve, que insultavam e chegavam, até, a agredir quem ousava fazer-lhes frente. Espantosamente, vim a descobrir que é ilegal impedir os colegas de trabalhar, os ditos piquetes só podem, por lei, convencê-los a bem da bondade da greve.

Mas a principal mudança estaria no modo de decidir uma greve. Fim, claro, das greves decretadas apenas pelas direções dos sindicatos. E fim, também, às votações de braço no ar. Qualquer greve teria de ser votada, por voto secreto (urna fechada) pelos sindicalizados em questão. Mais ainda, só iria para a frente se tal fosse decidido por um mínimo de 51 % de votos a favor e com um número de votantes não inferior a 75 %. Parece um exagero? Bom, os sindicatos estão sempre a dizer que representam a vontade dos trabalhadores.

Porque será que fico com a ideia de que passaria a haver muito poucas greves? É que muitos sindicatos são tipo clube de futebol: muitos sócios, mas poucos pagam as quotas ou prestam atenção ao que se passa. E quantos dos atuais sindicatos que dizem representar milhares de trabalhadores o fazem de facto?

Último detalhe, a proposta de greve apresentada a votos teria de explicitar muito bem as suas razões e o que estava a ser feito em termos de negociações – isto para evitar algo muito nosso, a “greve de aviso” antes mesmo de se apresentarem as exigências – perdão, as reivindicações.

Falarei da greve do INEM noutra altura, aliás no post que planeio para este domingo no meu outro blogue, Ir para Novo, intitulado Idadismo na Medicina II, irei fazer-lhe referência. Por agora digo apenas isto: porque é que a Policia não pode fazer greve mas a Emergência Médica pode? Não são ambas igualmente importantes para a segurança dos cidadãos?

Para a semana: Natal, tempo de paz? Sei que é usual desejar paz para o mundo, mas quais são as hipóteses disso acontecer?

02
Fev24

121 - E vivam as greves!

Luísa

Quando vim definitivamente para Portugal em finais dos anos 80 um dos aspetos da vida portuguesa que mais curiosidade me despertou foi a enorme quantidade de greves. Como eram novidade para mim, dei-me ao trabalho de ler e ouvir cuidadosamente as notícias sempre que havia uma – ou seja, quase todos os dias...

O primeiro detalhe que achei giríssimo foi ouvir sindicatos da CGTP a usarem todo o tipo de propaganda comunista para defenderem o que diziam e faziam. Acontece que eu tinha acabado de viver e trabalhar uns 4 anos num país comunista e, muito francamente, se alguém ali dissesse essas coisas teria um futuro muito negro – e curto!

Mas, enfim, cada um é livre de pensar o que quiser, pelo menos é essa a minha opinião, não partilhada, obviamente, por wokes e similares.

O detalhe seguinte foi a tremenda quantidade de greves que se realizavam neste país tão pequeno em área e população. Pensei, até, várias vezes que seria útil existir um site na Internet – que, lembro, estava na infância – onde os cidadãos normais, digamos, pudessem ir ver quais eram as greves desse dia para tomarem algumas medidas, se o pudessem fazer, ou, no mínimo, para não serem apanhados desprevenidos.

E quando comecei a analisar um pouco mais as coisas, espantou-me o modo como uma greve era decretada, pela direção do sindicado ou pelo “voto” dos sindicalizados presentes numa reunião. Sim, voto entre aspas, tive sempre muitas dúvidas sobre a validade democrática de votar de braço no ar, especialmente em certos ambientes claramente hostis a quem não fosse na onda.

Como tinha lido bastante sobre sindicalismo e greves em outros países, confesso que este sistema me chocou bastante. Em Inglaterra, por exemplo, uma greve tem de ser votada – com votos a sério – pelos sindicalizados todos, mais ainda, se a empresa estiver acima de uma certa dimensão, não muito grande, o resultado tem de ser apurado por uma empresa de fora. Pois, bem parecido...

Outra coisa que me intrigou foi ver a repetição de greves do mesmo setor, sem que percebêssemos bem o que queriam. Será que as direções dos respetivos sindicatos nunca perceberam que a habituação leva à indiferença? Lembro-me de há uns anos um dos grandes sindicatos alemães ter decretado uma greve – bom, votado, também aqui com votos a sério. Pois bem, o país inteiro ficou em polvorosa, queriam saber as razões, o que pediam, tudo. E porquê? Bom, era a primeira greve que faziam desde a sua criação décadas antes, em geral resolviam tudo a bem.

Bem parecido com o que se passa em Portugal onde, se alguém diz “Os transportes estão em greve” o comentário que mais se ouve é, “Outra vez?” E ninguém pergunta porquê.

Mas a melhor, para mim, claro, é a figura da greve de aviso. Sabem, vão começar as negociações e o dito sindicato decreta uma greve para avisar de que fala a sério!

É claro que a maioria das greves neste país são feitas pelos “coitados” dos funcionários públicos. Não que não as haja no setor privado, sobretudo as de um tipo que me deixa sempre intrigada, a greve de trabalhadores de uma empresa que está em dificuldades económicas... pois, ajuda imenso ao futuro económico da dita!

Depois há o pequeno detalhe da definição do termo “trabalhador”. É que para um sindicato só merece esse nome quem lhes pertence. Lembram-se das greves há uns anos contra a abertura de supermercados ao domingo, com o grande argumento de “os trabalhadores têm direito a descansar nos mesmos dias do resto da população”? Pelos vistos as muitas pessoas que trabalham e só podem fazer compras com mais calma nesse dia não são “trabalhadores”.

Há também a definição do termo “negociar”. Pelos vistos, para um sindicato isso significa o outro lado dar-lhes tudo o que pedem – perdão, que exigem! – sem que eles tenham de dar nada em troca.

O que me leva às exigências e justificações. A frase mais comum, sobretudo quando se trata de sindicatos das áreas dos transportes, educação e saúde, é a defesa da qualidade – ou, até, a sua melhoria. Curiosamente, mal conseguem mais dinheiro e regalias, pronto, fica tudo bem, e os papalvos que lhes pagam têm de acreditar que mais uns euros nos bolsos deles vão traduzir-se em melhoria do serviço, da qualidade do ensino e dos cuidados de saúde prestados. Pois!

Há, também, greves com que eu até concordaria, se não viesse depois a saber o que pedem. Como exemplo, há uns anos os trabalhadores de um matadouro entraram em greve porque as instalações eram antigas e potenciavam um real perigo para a saúde de quem ali trabalhava. Aplaudi, claro, quem não o faria? Só que... a sua única exigência era passarem a receber um subsídio de risco! Atenção, não enquanto renovassem o dito matadouro ou fizessem outro, isso nem foi mencionado, não, simplesmente um subsídio – e para sempre, claro, isso estava implícito.

Curiosamente, não vi ninguém fazer uma perguntinha de algibeira: se as instalações eram más a ponto de porem em perigo a saúde de quem lá trabalhava, isso não afetava a qualidade da carne que produzia?

Como último ponto, o que se passa atualmente com os polícias. Entendo que não há dinheiro para o que pedem, mas, muito francamente, porquê dar só a uns e não a todos? Ou os nossos ainda (des)governantes esperavam que não acontecesse nada?

Só mais uma coisinha, há uma greve “ameaçada” que eu adorava que se concretizasse: a dos jornalistas! Será que dávamos por ela?

Para a semana: Desejos para as eleições Como ainda falta um mês, pode ser que alguém escute...

05
Mai23

82 - Dia dos Trabalhadores

Luísa

Quando anunciei o tema desta semana esqueci-me de olhar para o calendário não tendo, por isso, reparado, que tinha pelo caminho o 1º de Maio, o chamado Dia dos Trabalhadores. Irei, pois, falar de assuntos em torno desta data.

Primeiro, um pequeno contexto pessoal. Não nasci nem cresci em Portugal e quando para cá vim, uns bons 2 anos após o 25 de abril, foi para estudar. Saí depois para trabalhar e só regressei em finais dos anos 80. Não assisti, pois, ao grosso das contestações laborais, mas ainda vi o suficiente para haver certas coisas que me metiam alguma confusão.

A primeira delas é o total enfeudamento dos sindicatos a partidos políticos, uma situação inédita em países democráticos. Sim, noutros países os vários sindicatos ou uniões de sindicatos podem declarar-se por um ou outro candidato quando é altura de eleições, mas não “pertencem” a nenhum partido político.

E esse é um detalhe que, repito, sempre me fez confusão. Como é que um sindicato (ou central sindical) pode afirmar que “defende os interesses dos trabalhadores” se tem, ao mesmo tempo, de atuar dentro dos limites das políticas económicas e ideológicas do partido a que está ligado? Quantas das greves em Portugal são realmente por questões laborais e quantas por razões políticas? Pois, suspeito que a grande maioria caiu, durante décadas, nesta segunda categoria.

Um outro aspeto em que diferimos de outros países, e não em nossa vantagem, é o modo como uma greve é convocada. Ou é simplesmente anunciada pela direção do respetivo sindicato ou, quando há “votação”, esta é feita de braço no ar numa sala apinhada. Muito francamente, com as cenas a que temos assistido de insultos e agressões por parte dos piquetes de greve, alguém acha que uma votação feita nesses termos é mesmo um ato democrático e que reflete a vontade dos sindicalizados?

Já agora, nos tais países democráticos uma greve só pode ser convocada após uma votação a sério com urnas fechadas, percentagens de votantes e de sins, enfim, algo a sério. E se um sindicato tem mais do que um certo número de membros, a contagem e verificação dos votos têm de ser feitas por uma empresa externa ao sindicato!

Ouvimos, também, falar muito do peso dos sindicatos. Mas esses números dizem exatamente o quê? Serão mesmo reais? Ou teremos também aqui o cenário de certos partidos que arranjaram inicialmente o número de assinaturas para serem criados mas que, a avaliar pelo que fazem em campanhas legislativas, o mais provável é agora nem um décimo conseguirem (digo um décimo porque sou uma otimista nata...).

Outro aspeto que me faz confusão quando ouço sindicalistas é a questão dos contratos coletivos. Sim, a teoria até é boa, é óbvio que, até um determinado nível de desenvolvimento económico de um país e para certos setores, cem ou mil têm muito mais poder negocial do que um ou até dez. O problema está numa outra curiosidade do nosso país, os problemas em despedir. Graças a isto, o que um contrato coletivo faz é tratar do mesmo modo quem cumpre e trabalha e quem nada faz.

Mas tudo isto nem sequer é o pior do nosso sindicalismo. Infelizmente! Já repararam que para os líderes sindicais “trabalhador” é apenas alguém com um emprego abrangido por um sindicato? E notaram que ao ouvirmos os seus discursos e declarações nos sentimos em pleno século 19 ou, quanto muito, em meados do 20?

O mundo mudou imenso mas para eles continua tudo na mesma.

Vejamos, por exemplo, os trabalhadores por conta própria. Estão em número crescente em todo o Ocidente e Portugal não é exceção. Temos até agora os chamados “nómadas digitais” que, muito simplesmente, vagueiam pelo mundo enquanto trabalham para clientes em países dispersos e que só por mero acaso coincidem com o da sua atual residência. Mas para os nossos sindicatos nada disso existe. Ou, se fazem o favor de admitir que há pessoas dessas, bom, não são bem “trabalhadores” e, sendo assim, não lhes interessam.

Perante tudo isto, admiram-se que cada vez mais portugueses mandem o sindicalismo “dar uma curva? Que os que o podem fazer prefiram negociar o seu próprio contrato de trabalho do que sujeitar-se ao tal contrato coletivo que dá o mesmo salário e benesses ao bom trabalhador e ao mau?

Acho que é mais do que altura de os nossos sindicatos olharem bem para o país e para os trabalhadores que dizem representar e fazerem um esforço para serem o que sempre deviam ter sido: organizações que defendem as melhores condições possíveis, de um modo realista. Sim, realista, quando ouço algumas das suas reivindicações fico logo a pensar o que é que aqueles dirigentes andarão a tomar...

E acabarem de vez com estas greves atrás de greves que, analisadas como deve ser, não resultam em nada. É que são tantas que já ninguém quer saber, a única coisa que importa à população é o incómodo que lhes causam. Já agora, há uns anos o maior sindicato da Alemanha decretou uma greve – usando uma votação a sério – e todo o país seguiu o acontecimento atentamente. É que era a primeira em trinta e muitos anos e todos queriam saber a razão de algo tão invulgar. Pois, aqui é a mesma coisa...

Não ouço os discursos deste tipo de datas, mas apanhei de passagem um líder sindical a dizer que havia poucas pessoas na marcha ou lá o que foi do 1º de maio “porque tinham medo das represálias do patronato”. Notícia de última hora, a verdadeira razão é vocês estarem mais do que obsoletos e poucos vos verem a menor utilidade – a menos que seja pelo tacho de se ser sindicalista, claro.

Para semana: Fazer omeletas e manter os ovos. A propósito dos incómodos causados pelas obras em Lisboa (e não só)

20
Jan23

68 - Respeito

Luísa

Nas manifestações que os professores têm andado a fazer, a palavra mais ouvida tem sido “respeito”. Segundo parece, os ditos senhores professores exigem ser respeitados. E eu até concordaria, se o merecessem.

Façamos uma pequena análise do nosso sistema educativo e do muito que tem mudado nas últimas décadas, infelizmente para pior.

Com a injeção enorme de alunos no pós-25 de abril, havia dois caminhos a tomar. Manter o nível de exigência, com exames e reprovações, ou alinhar na teoria do “coitadinho” e dar todo o tipo de facilidades. É claro que seguimos o caminho mais fácil.

Mas o grande problema com esta escolha é que quanto menos se exige às pessoas menos estas querem fazer, é um facto da nossa natureza humana. E entrámos, assim, alegremente numa espiral descendente em que se foram reduzindo currículos, se “estupidificaram” matérias para serem acessíveis a todos e se cortou, sem dó nem piedade, em tudo o que parecesse ser uma avaliação, “para não traumatizar as criancinhas”, que vão, assim, seguindo de ano para ano sem terem as muito necessárias bases em português e matemática, sobretudo.

E o resultado está à vista, jovens que entram para a universidade sem saberem interpretar um texto (ou uma pergunta), que acham sempre tudo muito difícil e trabalhoso, que consideram os estudos uma interrupção indesejável da distração a que se acham com direito e, acima de tudo, que não sabem pensar nem têm o menor sentido crítico perante o que ouvem ou leem. O que, diga-se de passagem, é o sonho de certas cores políticas, quanto mais ignorantes, mais caem em promessas ocas!

E por muito que digam o contrário, estas manifestações e greves não são em defesa do ensino. Aliás, os cartazes são muito claros, defendem, isso sim, o ensino público. Ou seja, os seus tachos. É que como funcionários públicos, para além de outras regalias que não existem no privado, como as famigeradas carreiras, não podem ser despedidos. Sabiam que há professores públicos que o continuam a ser mesmo após cumprirem pena por pedofilia contra alunos seus? Quanto muito ficam sem dar aulas, mas têm direito às mesmas promoções e benesses dos colegas e os anos (em casa) vão contando para a reforma.

Uma das grandes queixas que temos ouvido é que ganham pouco. Para além do facto de que um salário é sempre pequeno para quem o recebe, será que já fizeram as contas a quanto ganhariam se estivessem no privado? Aposto que era bem menos – pelo menos não vemos filas de professores a quererem ir para o privado, mesmo os que não fazem parte do quadro e que chegam a esperar anos pela hipótese de virem a ser funcionários públicos.

E nunca ninguém fala do grande filão a que muitos têm acesso, as explicações. Sabiam que há explicadores especializados no ensino primário e logo a partir da primeira classe? Já agora, se tem filhos em idade escolar ou amigos que os tenham, faça um pequenino inquérito, basicamente, quantos desses explicadores passam recibo pelas chorudas quantias que recebem. E se acredita que mesmo sem recibo declaram esses ganhos às Finanças, bom...

Como estamos sempre a ouvir dizer que os nossos professores do ensino público são o máximo, a única explicação possível é que as criancinhas portuguesas são muito, mas mesmo muito burras... Curiosamente, se forem para o ensino privado, essa burrice passa-lhes num ápice. É que com o balúrdio que os pais pagam, exigem resultados e ali não há emprego de pedra e cal.

Se houvesse manifestações e greves quando um deles é agredido por um aluno ou por pais de alunos, teriam todo o meu apoio. Mas quando se dá um caso desses, infelizmente cada vez mais frequentemente dada a impunidade de quem o pratica, os sindicatos ficam calados ou emitem apenas um comunicado a que chamar inócuo já seria muito.

Por isso está na altura de pegar na palavra destes manifestantes e exigir respeito. Sim, respeito pelos pais dos alunos e, acima de tudo, por todos os pagantes de impostos, tenham ou não filhos em idade escolar, que sustentam toda esta pesadíssima máquina a troco de nada – é que se querem que os filhos aprendam têm de arranjar maneira de os pôr no ensino privado ou, solução um pouco mais económica, pagar-lhes explicações para aprenderem o que deviam aprender nas aulas.

E, já agora, é mais do que altura de termos uma avaliação a sério dos professores – outra coisa que não lhes agrada. É que o que existe atualmente não o é claramente, é feita meramente entre eles. E nós, que lhes pagamos, temos o direito de exigir provas de que são conhecedores e competentes.

Isto para não continuarmos a ouvir professores a gabarem-se na televisão de que não sabem usar um computador. Ou vermos uma professora de português a dizer que todos os professores deviam ter a classificação de excelente!

Perante tudo isto, é mais do que tempo de implementar o cheque educação, o grande papão destes manifestantes. E após a sua entrada em vigor, escolas públicas que fiquem sem alunos suficientes para garantir a sua viabilidade económica, por serem péssimas, pois bem, que fechem as portas, com as devidas consequências para o seu pessoal.

É que, parafraseando a Catarina, sim, a do BE, “leiam a Constituição”. É que esta não diz que "o Estado tem de garantir ensino público para todos”, diz apenas “ensino para todos”. E, pequeno detalhe para a guerra contra a municipalização das escolas, a mesma Constituição diz também que as comunidades (entre outros intervenientes) têm o direito de ajudar a definir a política de educação.

Para semana: TAP e quejandos. Quanto é que andamos a gastar com empresas destas e a troco de quê?

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Calendário

Dezembro 2025

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D