187 - Eleições... mas não só
Com a alteração da data em que sai este blogue, decidi também alterar o artigo desta semana. E, apesar do título, pouco falarei sobre as eleições que se aproximam a passos galopantes, sobretudo para quem vota antecipadamente. Para quem tenha interesse, já falei da minha opinião sobre o nosso sistema eleitoral em Adoraria saber... Pequeno detalhe, todas as questões que ali pus continuam sem resposta.
Direi apenas que estou a achar muito curioso não termos visto apelos a que as pessoas vão votar mas apenas para que o façam no chamado “voto útil”. Pois, como as últimas eleições mostraram, quando os “comodistas” decidem exercer o seu direito democrático as coisas podem não correr bem para os partidos do costume... sobretudo os de esquerda que, muito francamente, são agora quase todos desde que o PSD decidiu deslizar para fora do centro.
Sou, como penso que o serão cada vez mais portugueses, uma desiludida da democracia que supostamente temos. Só que, ao contrário de muitos – e lembro que a abstenção já é, em algumas das nossas eleições, a vencedora com maioria absoluta e para lá caminha nas outras – faço questão de votar sempre porque acho que isso me dá o direito de vociferar quanto ao que se passa, tipo, cumpri o meu dever, cumpram, agora, o vosso.
O primeiro passo para quebrar esse desencanto surgiu com a possibilidade de haver candidatos autónomos às eleições autárquicas, apesar de, convenhamos, estes sejam muitas vezes mais ou menos enfeudados a partidos. Falarei disso noutra altura.
Mas esta semana descobri que há cada vez mais portugueses a agirem e a tomar um outro tipo de medidas para lidar com os milhentos problemas que os sucessivos governos prometem, eleição após eleição, resolver – ando desde os anos 80, altura em que vim para Portugal, a ouvir falar em médico de família para todos, infantários e creches para todos, habitação acessível, burocracia simplificada...
E de que se trata? Muito simplesmente, de movimentos cívicos.
Há-os de todos os tamanhos e feitios, políticos, culturais, generalistas, muito específicos, enfim, um pouco de tudo. Existe, até, uma Plataforma de Associações da Sociedade Civil que reúne 67 delas, mais 4 observadoras. Mas há muitíssimas mais. Seria bom que alguém com mais tempo disponível do que eu se dedicasse a fazer uma listagem completa e a publicasse, muitos encontrariam ali, sem dúvida, algo que lhes enchesse as medidas.
Até as nossas empresas começam a agir nessa área, existe, por exemplo, a Vá lá, Portugal Merece, que já engloba mais de cem empresas e que aposta em mudar mentalidades e em contribuir para o crescimento do tecido empresarial do país.
Para mim, é um caminho a seguir se quisermos, realmente, recuperar algum do poder que o povo supostamente adquiriu com o 25 de abril. Pode-se dizer que a democracia é, apesar de tudo, o melhor regime, mas será mesmo isso que temos atualmente?
Para além das distorções do nosso sistema eleitoral causadas pelo famigerado método de Hondt, quem é que nos governa, independentemente da sua cor política? Pessoas sem o mínimo interesse em fazer as reformas que todos sabemos que deviam ter sido feitas há anos porque sabem que isso lhes iria custar votos – leia-se, o chorudo tacho de serem membros da Assembleia da República ou do Governo – e que “governam”, se é que se lhe pode chamar isso, ao sabor de quem berra mais alto ou das causas da moda, no nosso caso, a pesadíssima máquina do funcionalismo público e, nestes últimos anos, os imigrantes, sobretudo os ilegais, a “catástrofe climática” e similares.
Se queremos recuperar o poder que nunca devia ter deixado de ser nosso, temos de começar pela base, olhar à nossa volta, ver o que precisa de ser feito e, em vez de ficar no café a lastimarmo-nos e a criticar, tentar organizar pessoas com as mesmas ideias de modo a agirem.
Já agora, sabia que é facílimo criar uma organização? Encontrará as regras todas aqui. Pequeno detalhe, na maior parte dos casos custa 300 euros.
Poderão dizer, grande coisa, um movimento cívico! Pois, até o pode ser, se for bem pensado e atrair pessoas com algum peso nessa área – e um ou outro advogado seria sempre bem-vindo... É claro que se estivermos a pensar em termos de governos nacionais, bom, será definitivamente um peso pluma. Mas muitos dos que existem surgiram a nível local e podem pressionar muito a sério Juntas de Freguesia e Câmaras.
Lembro, também, que nas últimas eleições autárquicas tivemos alguns partidos meramente locais e que até tiveram resultados muito bons, apesar de ser, para muitos – se não todos – uma estreia. Mais uma vez, é esse o caminho a seguir, criar partidos locais ou regionais e tentar conquistar Juntas de Freguesia, Câmaras e, sobretudo, as muito importantes Assembleias Municipais, de modo a termos um poder autárquico realmente virado para os interesses das pessoas que representa, ou devia representar, e não enfeudado a partidos nacionais.
Mais ainda, à medida que esse movimento ganhe um certo peso, estará em posição de exigir uma maior descentralização ou, no mínimo, de pôr em prática medidas adaptadas às necessidades locais e não feitas a pensar no “universo paralelo” em que parecem viver muitos dos nossos governantes.
Dir-me-ão, mas o que é que tudo isto tem a ver com eleições legislativas? A curto prazo, pouco ou nada. Mas o que é que acham que acontecerá quando os “partidos do costume” descobrirem que perderam o poder a nível local? E que estão, basicamente, “a falar para o boneco”?
Aposto que a primeira solução será tentar pôr-lhes cobro, mas duvido que resulte – lembro o que aconteceu quando tentaram impor um número de assinaturas absolutamente desmesurado para se ser candidato independente, nalguns casos superior ao número de eleitores em causa, só que a resposta foi os ditos candidatos dizerem que formariam um partido, Os Independentes...
Pois é, a verdadeira democracia tem de começar pela base. Dito isto, e até a termos, vá votar – mas esqueça o “voto útil”, vote, isso sim, de acordo com a sua vontade. Não é isso a democracia?
Para a semana: Hipocrisias, hipocrisias... Se não existissem, tinham de ser inventadas, cá e lá fora.
