60 - Hipocrisias
Anunciei para esta semana um post intitulado A geração entediada mas, face a acontecimentos recentes, decidi adiá-lo por uma semana e falar antes da tremenda hipocrisia a que temos assistido por parte de políticos, de “bem-intencionados” e até de organizações internacionais.
Refiro-me, claro está, à tremenda indignação por o Mundial de futebol decorrer no Qatar, que é acusado de ser mau para as mulheres, de não ser “inclusivo”, de tratar mal – escravizar, até – quem lá trabalha, enfim, de não respeitar os direitos humanos.
E até é verdade! O problema está no facto de o mesmo nível de indignação não ser dirigido a quem faz bem pior e que, apesar disso, é tratado com todo o respeito e consideração.
Vamos por partes, começando pelas mulheres.
Espantosamente, os mesmos que afirmam que dizer que o Islão não respeita as mulheres é mentira vêm agora bramar contra a aplicação da mesma religião no Qatar. Pior ainda, ninguém protesta contra a presença da seleção do Irão neste Mundial, país esse que é, como todos sabemos, um paraíso para as mulheres, como provam – caso houvesse necessidade disso – acontecimentos recentes. Fazem-se umas marchas, fala-se um pouco e pronto, o mau é o Qatar.
Curiosamente, ninguém repara nos milhões de mulheres e raparigas que vivem na Europa – muitas delas até já aqui nascidas – que vivem bem mais oprimidas apesar de toda a nossa legislação de igualdade. É que, por respeito para com os costumes e a religião, não cristã, entenda-se, deixa-se fazer tudo e mais alguma coisa e quem ousa protestar é logo acusado de ser islamofóbico, racista, xenófobo, fascista, etc.
Já repararam que raparigas pequenas no Qatar andam de cabelo à vista? Pois bem, em muitas zonas de Londres, meninas de 3 e 4 anos – e às vezes ainda mais novas – andam tapadas da cabeça aos pés, mal se lhes vendo a cara, não podem brincar no recreio nem fazer basicamente nada e, como apesar de tudo, o ensino é obrigatório, vão para escolas islâmicas onde nem o Corão aprendem...
Protesta-se contra a sharia no Qatar, mas esta está em vigor, e de que maneira, em muitos países europeus como Inglaterra, França, Alemanha e muitos mais. Pior ainda, é aplicada “ao gosto de cada um”, uma vez que, oficialmente, nem sequer existe.
E viram a hipocrisia suprema do Sr. Marcelo ao apelar ao fim de todas as violências contra as mulheres quando preside a um país onde só este ano já foram mortas 28 mulheres por violência doméstica? Isto fora as muitas que ficaram feridas gravemente e os casos “menores”, digamos, ou seja, os que nem chegam à comunicação social!
Passemos à inclusão, que significa, basicamente, aceitar de braços abertos homossexuais, transexuais e todo o resto do “alfabeto”. Podem dizer-me o nome de um país muçulmano em que isso aconteça? Mais ainda, de uma comunidade algures no mundo? Será que um muçulmano homossexual em Portugal é bem aceite pela família e respetiva mesquita? Pois...
E vamos agora ao trabalho “escravo”. Mais uma vez, o Sr. Marcelo perdeu uma bela ocasião de estar calado, ele a “botar faladura” e a termos aquela rusga no Alentejo!
O grande argumento é que a Organização Mundial do Trabalho denuncia as condições laborais no Qatar. E eu nem sequer duvido que sejam más... pelos critérios Ocidentais. Mas... como são essas condições nos países de origem desses trabalhadores? Isto partindo do princípio de que até arranjavam trabalho lá... E, ao contrário do caso do Alentejo e de tantos outros que têm surgido Europa fora, nomeadamente com mulheres, ninguém os força a trabalhar nem lhes fica com os documentos e com o dinheiro. As condições são duras e o horário é longo, mas ganham em um ou dois anos o suficiente para sustentar uma família mais do que alargada durante bastante mais tempo.
E só o Qatar é que é mau nesta área? Que tal a China, com os campos de trabalhos forçados para presos políticos ou ainda os bem piores criados para os uigures? Mesmo fora dessas prisões, as condições pouco melhores são, à parte serem (mal) pagos pelo que fazem. Sabiam que houve uma revolta de trabalhadores em Xangai porque em vez de 12 horas por dia, sete dias por semana, queriam ter um dia de descanso?
Mas os tão indignados com o Qatar calam-se em relação à China por medo que lhes venham a faltar os telemóveis última geração, componentes para o carrinho novo ou produtos a preço de saldo... A própria OMT raras vezes fala no assunto, a menos que seja pressionada a fazê-lo e mesmo assim quase em tom de desculpa.
E os direitos humanos? Mais uma vez, grassa a hipocrisia. Quantas vezes ouviram a Amnistia Internacional berrar contra a China, a Rússia, o Irão – o tal que até está presente no Mundial, repito – ou o Afeganistão? Em décadas, bem menos do que falou do Qatar nas últimas semanas.
E não acham que é precisa uma grande desfaçatez o Sr. Costa e o Sr. Marcelo falaram disto quando um deles “fez panelinha” com o nosso tão democrático e liberal PCP e o outro a apoiou? Sim, o partido que acha bem tudo o que a Rússia faz e tudo lhe desculpa, que adorava a Cuba de Fidel Castro – outro paraíso de direitos humanos – e a Venezuela do Chavez?
Como último ponto, temos o Qatar ter proibido manifestações pelos ditos direitos humanos e todo o tipo de coisas alusivas, como as célebres bandeiras e braçadeiras arco-íris. Pois bem, veio-me logo à mente a última visita do presidente chinês a Londres, em que manifestantes pelos mesmo direitos foram mantidos tão afastados do trajeto que nem se viam e houve até prisões dos que mesmo assim arranjaram uma maneira de se fazerem ouvir pelo dito “defensor” de tudo o que é humano...
Francamente, o grande “crime” do Qatar é ser um país capitalista e que não produz nada de que o Ocidente – sobretudo a “esquerda caviar” – precisa. E se queremos realmente lutar pelos direitos humanos, então façamo-lo a sério, contra tudo e contra todos, mesmo que os resultados sejam inconvenientes para o nosso bem-estar. O contrário não passa de pura hipocrisia!
Para semana: A geração entediada. É o nome que me vem à mente quando penso nos jovens de agora.
