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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

05
Mai23

82 - Dia dos Trabalhadores

Luísa

Quando anunciei o tema desta semana esqueci-me de olhar para o calendário não tendo, por isso, reparado, que tinha pelo caminho o 1º de Maio, o chamado Dia dos Trabalhadores. Irei, pois, falar de assuntos em torno desta data.

Primeiro, um pequeno contexto pessoal. Não nasci nem cresci em Portugal e quando para cá vim, uns bons 2 anos após o 25 de abril, foi para estudar. Saí depois para trabalhar e só regressei em finais dos anos 80. Não assisti, pois, ao grosso das contestações laborais, mas ainda vi o suficiente para haver certas coisas que me metiam alguma confusão.

A primeira delas é o total enfeudamento dos sindicatos a partidos políticos, uma situação inédita em países democráticos. Sim, noutros países os vários sindicatos ou uniões de sindicatos podem declarar-se por um ou outro candidato quando é altura de eleições, mas não “pertencem” a nenhum partido político.

E esse é um detalhe que, repito, sempre me fez confusão. Como é que um sindicato (ou central sindical) pode afirmar que “defende os interesses dos trabalhadores” se tem, ao mesmo tempo, de atuar dentro dos limites das políticas económicas e ideológicas do partido a que está ligado? Quantas das greves em Portugal são realmente por questões laborais e quantas por razões políticas? Pois, suspeito que a grande maioria caiu, durante décadas, nesta segunda categoria.

Um outro aspeto em que diferimos de outros países, e não em nossa vantagem, é o modo como uma greve é convocada. Ou é simplesmente anunciada pela direção do respetivo sindicato ou, quando há “votação”, esta é feita de braço no ar numa sala apinhada. Muito francamente, com as cenas a que temos assistido de insultos e agressões por parte dos piquetes de greve, alguém acha que uma votação feita nesses termos é mesmo um ato democrático e que reflete a vontade dos sindicalizados?

Já agora, nos tais países democráticos uma greve só pode ser convocada após uma votação a sério com urnas fechadas, percentagens de votantes e de sins, enfim, algo a sério. E se um sindicato tem mais do que um certo número de membros, a contagem e verificação dos votos têm de ser feitas por uma empresa externa ao sindicato!

Ouvimos, também, falar muito do peso dos sindicatos. Mas esses números dizem exatamente o quê? Serão mesmo reais? Ou teremos também aqui o cenário de certos partidos que arranjaram inicialmente o número de assinaturas para serem criados mas que, a avaliar pelo que fazem em campanhas legislativas, o mais provável é agora nem um décimo conseguirem (digo um décimo porque sou uma otimista nata...).

Outro aspeto que me faz confusão quando ouço sindicalistas é a questão dos contratos coletivos. Sim, a teoria até é boa, é óbvio que, até um determinado nível de desenvolvimento económico de um país e para certos setores, cem ou mil têm muito mais poder negocial do que um ou até dez. O problema está numa outra curiosidade do nosso país, os problemas em despedir. Graças a isto, o que um contrato coletivo faz é tratar do mesmo modo quem cumpre e trabalha e quem nada faz.

Mas tudo isto nem sequer é o pior do nosso sindicalismo. Infelizmente! Já repararam que para os líderes sindicais “trabalhador” é apenas alguém com um emprego abrangido por um sindicato? E notaram que ao ouvirmos os seus discursos e declarações nos sentimos em pleno século 19 ou, quanto muito, em meados do 20?

O mundo mudou imenso mas para eles continua tudo na mesma.

Vejamos, por exemplo, os trabalhadores por conta própria. Estão em número crescente em todo o Ocidente e Portugal não é exceção. Temos até agora os chamados “nómadas digitais” que, muito simplesmente, vagueiam pelo mundo enquanto trabalham para clientes em países dispersos e que só por mero acaso coincidem com o da sua atual residência. Mas para os nossos sindicatos nada disso existe. Ou, se fazem o favor de admitir que há pessoas dessas, bom, não são bem “trabalhadores” e, sendo assim, não lhes interessam.

Perante tudo isto, admiram-se que cada vez mais portugueses mandem o sindicalismo “dar uma curva? Que os que o podem fazer prefiram negociar o seu próprio contrato de trabalho do que sujeitar-se ao tal contrato coletivo que dá o mesmo salário e benesses ao bom trabalhador e ao mau?

Acho que é mais do que altura de os nossos sindicatos olharem bem para o país e para os trabalhadores que dizem representar e fazerem um esforço para serem o que sempre deviam ter sido: organizações que defendem as melhores condições possíveis, de um modo realista. Sim, realista, quando ouço algumas das suas reivindicações fico logo a pensar o que é que aqueles dirigentes andarão a tomar...

E acabarem de vez com estas greves atrás de greves que, analisadas como deve ser, não resultam em nada. É que são tantas que já ninguém quer saber, a única coisa que importa à população é o incómodo que lhes causam. Já agora, há uns anos o maior sindicato da Alemanha decretou uma greve – usando uma votação a sério – e todo o país seguiu o acontecimento atentamente. É que era a primeira em trinta e muitos anos e todos queriam saber a razão de algo tão invulgar. Pois, aqui é a mesma coisa...

Não ouço os discursos deste tipo de datas, mas apanhei de passagem um líder sindical a dizer que havia poucas pessoas na marcha ou lá o que foi do 1º de maio “porque tinham medo das represálias do patronato”. Notícia de última hora, a verdadeira razão é vocês estarem mais do que obsoletos e poucos vos verem a menor utilidade – a menos que seja pelo tacho de se ser sindicalista, claro.

Para semana: Fazer omeletas e manter os ovos. A propósito dos incómodos causados pelas obras em Lisboa (e não só)

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