Hipocrisias, hipocrisias
Apesar do título, não sei bem se os muitos casos a que assistimos mundo fora são mesmo devido a hipocrisia, estupidez pura ou um misto de ambas. Já falei anteriormente nisso em Hipocrisias, relatando inúmeros casos a propósito do muito que se disse aquando do Mundial de Futebol realizado no Qatar. E muito mais haveria a dizer, mas irei referir apenas alguns casos recentes.
Começo pela “brilhante” decisão da Câmara de Lisboa de proibir um ato do partido Ergue-te – pequeno detalhe, nada sei sobre este partido nem tive curiosidade em saber, existe legalmente, é quanto me basta – que teria lugar no Martim Moniz. E fê-lo alegando que poderia ofender os muitos muçulmanos da zona devido à presença da Cruz de Cristo e, pasme-se, de bifanas! O mais curioso é que os partidos que vemos sempre no choradinho tipo, “antigamente não podíamos fazer manifestações” nada disseram em relação a este atropelo das regras democráticas.
Para além das dúvidas surgidas sobre a legalidade da decisão da Câmara – lembro, não era uma manifestação, era um ato de um partido legal em pleno período de campanha eleitoral – fica a grande questão: a que propósito é que se proíbe o uso de um símbolo bem português - a Cruz de Cristo, que é bem nossa – e de uma das comidas mais típicas de Lisboa só porque pode ofender estrangeiros, muitos deles nem sequer legalizados?
O que é que se segue? Proibir álcool e carne de porco em bairros onde vivam muçulmanos? Obrigar as mulheres portuguesas a usarem burca? Já agora, numas eleições locais em Londres um partido concorreu tendo essa como a sua única proposta, extensível, também, a qualquer mulher que por ali passasse, e esteve muito perto de conquistar o poder local.
Já agora, o que aconteceria se os cristãos da zona protestassem ao verem a reza em público – que lembro, ocupou o espaço de circulação – aquando do fim do Ramadão? Sem contar que até há uma igrejinha no Martim Moniz... Dar-lhes-iam o direito a ficarem ofendidos? Acho que todos conhecemos a resposta.
Resumindo, o “respeito pelos costumes e religiões” é uma via de sentido único.
Passando a um nível mais global, temos a indignação demonstrada por muitos atores e similares pelo corte de verbas que o Trump está a impor a certos organismos, sem falar nas queixinhas de perseguição de que se dizem alvo devido às suas ideias. Curioso, durante os últimos anos, esses mesmos que agora tanto se lamuriam impuseram todo o tipo de regras – leia-se, censura – a ideias, obras e pessoas que não eram do seu agrado. Lembram-se do caso da autora do Harry Potter, que tentaram “cancelar” por algo que disse sobre transexuais?
E a nossa comunicação social faz eco de “vozes de resistência”, como Harvard, por exemplo, muito aplaudida por ter recusado ceder a Trump. Pois, o problema é que nos últimos anos a dita tem cedido em toda a linha a quem lhe berrava mais alto – bom, na maioria dos casos bastava até sussurrar – expulsando alunos que desagradavam aos colegas woke, despedindo professores – um, por exemplo, que se recusou a discutir igualdade de género numa aula de astronomia – e cancelando oradores, entre outras coisas.
Ou seja, também a “liberdade de expressão” é uma via de sentido único.
Passemos à política, numa vertente de certo modo relacionada com as anteriores, ou seja, democracia e liberdade. É que está agora na moda recorrer à “justiça” para tentar eliminar partidos que desagradam aos Donos da Verdade (DDV). Na Roménia, cancelaram o resultado de uma eleição, perante o aplauso dos líderes da União Europeia – pois, viva a democracia...
Em França, temos o caso da Le Penn – não digo que não seja culpada, mas é estranho ter sido a única a ser investigada e julgada e, pior ainda, a pena ter entrado em vigor antes da apresentação de um recurso, caso inédito. E por cá, todos sabemos das tentativas de ignorar, pior ainda, insultar, quem ousa votar livremente num partido “não aprovado”.
Ou seja, também a “democracia” é algo que só funciona num sentido.
Passemos à preocupação com a situação das mulheres na Igreja Católica, muito falada recentemente aquando da eleição do novo Papa. Sim, ouvimos constantemente bradar contra o facto de não poderem ser ordenadas padres, isto apesar de em muitos casos terem funções que quase se lhe equiparam.
Só que, atendendo ao alastrar do Islão na Europa, não é curioso não vermos a mesma preocupação com a posição das mulheres nas mesquitas? Nalguns casos mais liberais, são autorizadas a orientar algumas orações, mas mais nada. Já agora, ouvi em tempos o imã da mesquita de Lisboa dizer que as mulheres não entravam porque não havia espaço para as separar dos homens. E em muitas outras são relegadas para um balcão, muitas vezes por detrás de um painel em forma de grade para não serem vistas.
Mais um assunto em que a “preocupação” só tem um sentido.
Enfim, como disse, não faltam casos de hipocrisia. Como a indignação perante qualquer insulto, real ou imaginado, ao Islão, mas silêncio total quanto ao massacre de cristãos que ocorre em diversos países. Ou falar-se tanto sobre a pedofilia na Igreja mas outras, perpetrada por pessoas em quem as crianças deviam poder confiar, como pais ou professores, ser uma mera nota de rodapé, quando o é. Ou a insistência em penas pesadas de prisão para quem maltrate um animal, mas zero indignação por uns meros 5 anos aplicados a uma psicóloga que deixou o pai a sofrer e a passar fome – pois, sai daqui a um aninho...
Resumindo, a indignação é, atualmente, como muitas outras coisas: só existe numa determinada direção, se for em sentido contrário é ignorada ou, em muitos casos, vilipendiada.
Para a semana: Passadas as eleições Considerações no rescaldo das eleições
