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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

17
Mai25

Hipocrisias, hipocrisias

Luísa

Apesar do título, não sei bem se os muitos casos a que assistimos mundo fora são mesmo devido a hipocrisia, estupidez pura ou um misto de ambas. Já falei anteriormente nisso em Hipocrisias, relatando inúmeros casos a propósito do muito que se disse aquando do Mundial de Futebol realizado no Qatar. E muito mais haveria a dizer, mas irei referir apenas alguns casos recentes.

Começo pela “brilhante” decisão da Câmara de Lisboa de proibir um ato do partido Ergue-te – pequeno detalhe, nada sei sobre este partido nem tive curiosidade em saber, existe legalmente, é quanto me basta – que  teria lugar no Martim Moniz. E fê-lo alegando que poderia ofender os muitos muçulmanos da zona devido à presença da Cruz de Cristo e, pasme-se, de bifanas! O mais curioso é que os partidos que vemos sempre no choradinho tipo, “antigamente não podíamos fazer manifestações” nada disseram em relação a este atropelo das regras democráticas.

Para além das dúvidas surgidas sobre a legalidade da decisão da Câmara – lembro, não era uma manifestação, era um ato de um partido legal em pleno período de campanha eleitoral – fica a grande questão: a que propósito é que se proíbe o uso de um símbolo bem português - a Cruz de Cristo, que é bem nossa – e de uma das comidas mais típicas de Lisboa só porque pode ofender estrangeiros, muitos deles nem sequer legalizados?

O que é que se segue? Proibir álcool e carne de porco em bairros onde vivam muçulmanos? Obrigar as mulheres portuguesas a usarem burca? Já agora, numas eleições locais em Londres um partido concorreu tendo essa como a sua única proposta, extensível, também, a qualquer mulher que por ali passasse, e esteve muito perto de conquistar o poder local.

Já agora, o que aconteceria se os cristãos da zona protestassem ao verem a reza em público – que lembro, ocupou o espaço de circulação – aquando do fim do Ramadão? Sem contar que até há uma igrejinha no Martim Moniz... Dar-lhes-iam o direito a ficarem ofendidos? Acho que todos conhecemos a resposta.

Resumindo, o “respeito pelos costumes e religiões” é uma via de sentido único.

Passando a um nível mais global, temos a indignação demonstrada por muitos atores e similares pelo corte de verbas que o Trump está a impor a certos organismos, sem falar nas queixinhas de perseguição de que se dizem alvo devido às suas ideias. Curioso, durante os últimos anos, esses mesmos que agora tanto se lamuriam impuseram todo o tipo de regras – leia-se, censura – a ideias, obras e pessoas que não eram do seu agrado. Lembram-se do caso da autora do Harry Potter, que tentaram “cancelar” por algo que disse sobre transexuais?

E a nossa comunicação social faz eco de “vozes de resistência”, como Harvard, por exemplo, muito aplaudida por ter recusado ceder a Trump. Pois, o problema é que nos últimos anos a dita tem cedido em toda a linha a quem lhe berrava mais alto – bom, na maioria dos casos bastava até sussurrar – expulsando alunos que desagradavam aos colegas woke, despedindo professores – um, por exemplo, que se recusou a discutir igualdade de género numa aula de astronomia – e cancelando oradores, entre outras coisas.

Ou seja, também a “liberdade de expressão” é uma via de sentido único.

Passemos à política, numa vertente de certo modo relacionada com as anteriores, ou seja, democracia e liberdade. É que está agora na moda recorrer à “justiça” para tentar eliminar partidos que desagradam aos Donos da Verdade (DDV). Na Roménia, cancelaram o resultado de uma eleição, perante o aplauso dos líderes da União Europeia – pois, viva a democracia...

Em França, temos o caso da Le Penn – não digo que não seja culpada, mas é estranho ter sido a única a ser investigada e julgada e, pior ainda, a pena ter entrado em vigor antes da apresentação de um recurso, caso inédito. E por cá, todos sabemos das tentativas de ignorar, pior ainda, insultar, quem ousa votar livremente num partido “não aprovado”.

Ou seja, também a “democracia” é algo que só funciona num sentido.

Passemos à preocupação com a situação das mulheres na Igreja Católica, muito falada recentemente aquando da eleição do novo Papa. Sim, ouvimos constantemente bradar contra o facto de não poderem ser ordenadas padres, isto apesar de em muitos casos terem funções que quase se lhe equiparam.

Só que, atendendo ao alastrar do Islão na Europa, não é curioso não vermos a mesma preocupação com a posição das mulheres nas mesquitas? Nalguns casos mais liberais, são autorizadas a orientar algumas orações, mas mais nada. Já agora, ouvi em tempos o imã da mesquita de Lisboa dizer que as mulheres não entravam porque não havia espaço para as separar dos homens. E em muitas outras são relegadas para um balcão, muitas vezes por detrás de um painel em forma de grade para não serem vistas.

Mais um assunto em que a “preocupação” só tem um sentido.

Enfim, como disse, não faltam casos de hipocrisia. Como a indignação perante qualquer insulto, real ou imaginado, ao Islão, mas silêncio total quanto ao massacre de cristãos que ocorre em diversos países. Ou falar-se tanto sobre a pedofilia na Igreja mas outras, perpetrada por pessoas em quem as crianças deviam poder confiar, como pais ou professores, ser uma mera nota de rodapé, quando o é. Ou a insistência em penas pesadas de prisão para quem maltrate um animal, mas zero indignação por uns meros 5 anos aplicados a uma psicóloga que deixou o pai a sofrer e a passar fome – pois, sai daqui a um aninho...

Resumindo, a indignação é, atualmente, como muitas outras coisas: só existe numa determinada direção, se for em sentido contrário é ignorada ou, em muitos casos, vilipendiada.

Para a semana: Passadas as eleições  Considerações no rescaldo das eleições

11
Nov22

58 - Vivemos mesmo em democracia?

Luísa

A ideia para o post desta semana surgiu-me ao saber da recusa da Assembleia da República em ter em São Bento a exposição “Memória – Totalitarismos na Europa”, dedicada aos crimes cometidos por regimes fascistas e comunistas em vários países europeus.

Vamos à história. Esta mostra foi criada pela Plataforma da Memória e Consciência Europeia, que surgiu em 2009 graças a uma resolução do Parlamento Europeu com 553 votos a favor e 44 contra (quem seriam?). Ou seja, com um largo consenso entre as várias cores políticas.

A exposição em questão já esteve em 19 países da Europa e América do Norte e foi lançada em Portugal pelo Instituto +Liberdade, tendo passado por 8 cidades e estando atualmente em Pombal.

A primeira “curiosidade” é que o convite para apresentarem a dita chegou a 1 de maio, mas a recusa só foi enviada cerca de 10 de novembro. E foi recusada porque certos partidos, os tais que passam a vida a agitar a bandeira da democracia, votaram contra por “falta de rigor científico” da dita mostra. Ou seja, traduzindo isto em miúdos, em vez de se restringir ao fascismo e nazismo a dita mostra fala também do estalinismo e de outros regimes comunistas europeus.

Não que seja surpreendente, já em 2019 a mesma Assembleia da República tinha recusado associar-se ao diploma europeu que condena e compara o comunismo ao fascismo – e, cúmulo da hipocrisia, o PS votou a favor no Parlamento Europeu e contra no nosso, obviamente para não ficar mal com os “irmãozinhos” da geringonça. Já agora, o PCP, o tal que lutou tanto pela democracia, quis condenar a resolução europeia por ser de “falsificação histórica” e de “branqueamento do fascismo e nazismo” (???).

Pensando bem, nem sei porque me espantei. Analisando a nossa história recente, o que é que vemos? Muita conversa sobre liberdade de expressão, a vontade do povo (sim, o tal “o povo é quem mais ordena”) e outros chavões tão populares mas que, quando chegamos aos atos, bom, passa-se precisamente o contrário.

Relembro aqui a recusa de António Costa em conversar com o Chega antes da formação deste Governo “porque não valia a pena”. Ou seja, pôs de lado a terceira força política votada pelo tal povo cuja vontade se deve respeitar pura e simplesmente porque a dita não lhe agrada!

Veja-se também o que se passa repetidamente na Assembleia da República, em que o seu Presidente tolera tudo a uns e nada a outros, consoante a sua cor política é ou não do seu agrado.

E, já agora, não é curioso que o Sr. Marcelo, o tal que nunca perde uma oportunidade de “botar faladura”, criando-a, até, quando não existe, tenha ficado mudo e quedo perante estes atropelos à tal democracia de que se diz defensor?

Temos também o que se passa perante eleições noutros países que dão resultados contrários à vontade, essa, sim, soberana, da nossa esquerda. Desatam logo a berrar que a democracia está em perigo, que se está perante uma tentativa de ditadura de direita, etc. E vemos governantes nossos a virarem a cara a líderes eleitos de países europeus, mas não têm o menor problema em acarinhar os piores ditadores de outras partes do mundo. Recordo que Guterres, quando era o nosso Primeiro-ministro, se recusou a falar com Haider, da Áustria, numa reunião europeia em Lisboa, por este ser da extrema-direita, mas uns dias depois, numa outra reunião no norte de África, estava literalmente aos beijinhos e abraços com esse excelente democrata que foi o Mugabe.

Veja-se também o que se passa com a nossa Assembleia da República. Já repararam que não temos o menor controlo sobre quem ali está? A única certeza, quando votamos, é que, quase certamente, os líderes dos vários partidos eleitos irão tomar ali o seu lugar. Pior ainda, se um deputado decidir sair de um partido ou, ainda pior, for dele expulso, pode continuar alegremente a “representar-nos”. Lembram-se de Joacine? Expulsa do Livre, continuou como deputada deixando sem representação o partido a quem o povo tinha dado os votos.

E ainda se admiram com o altíssimo valor da abstenção, criticando a “apatia” dos portugueses! É que, infelizmente, muitos já chegaram à triste conclusão de que a sua opinião não conta absolutamente para nada.

Querem uma confirmação? Pois bem, uma das alterações à Constituição que o PS quer propor tem a ver com o referendo para a aprovação da regionalização. Passo a explicar. O texto atual diz que “quando a maioria dos cidadãos eleitores participantes não se pronunciar favoravelmente em relação a pergunta de alcance nacional sobre a instituição em concreto das regiões administrativas, as respostas a perguntas que tenham tido lugar relativas a cada região criada na lei não produzirão efeitos.” Ou seja, a regionalização só pode ter lugar se votarem mais de 50 % dos portugueses.

Sim, sei que estarão a pensar, bom remédio, vão votar! O problema é que muitos já estão escaldados com um referendo dizer uma coisa e depois aplicarem outra – como no referendo sobre o aborto, que era apenas pela sua despenalização e onde ninguém referiu, durante a campanha, que passaríamos a ser nós a pagá-los. Quem nos diz que, depois de aprovarmos algo bem concreto sobre a criação de regiões administrativas estas não irão tornar-se um sorvedouro de dinheiro e de criação de tachos?

Já agora, há também membros do PS que querem criar um Senado. Ou seja, não nos basta a atual Assembleia da República, onde os deputados votam “de cruz” como o respetivo partido manda, teríamos uma outra entidade similar a funcionar em paralelo? Pois, se querem alterar esse órgão, que tal passarmos a ter deputados eleitos por nome e haver sempre total liberdade de voto? Aí, sim, seria democracia!

Para semana: Um país de descartáveis. Sim, somos todos descartáveis, exceto se, por acaso, estivermos dentro da “causa do dia”

15
Jul22

41 - Ditadura é Agora

Luísa

Este ano falou-se ainda mais do 25 de abril, da ditadura, da censura, enfim, do usual. Curiosamente, olhando à nossa volta, há cada vez mais gente a pensar que ditadura é o que temos agora! E pior ainda, muito bem enroupada em termos muito simpáticos como “valores democráticos”, “a bem do povo” (hum, isto soa familiar...), enfim, em toda uma panóplia destinada a convencer-nos de que é só gente boa e que os “maus” somos nós por duvidarmos da bondade das suas opiniões e decisões.

Vamos lá a alguns exemplos.

O aspeto mais gritante desta nova “democracia” é o que acontece com as minorias. As coisas até começaram bem, estou totalmente de acordo que devam ser respeitadas – desde que o que fazem não esteja contra a nossa Constituição e as nossas leis, bem entendido. O problema é que passámos rapidamente à atual situação em que da exigência de respeito passaram à de mandarem, de serem os únicos a poder falar.

Refiro-me nomeadamente às cenas a que assistimos relativamente a um professor universitário que pôs na sua página pessoal do Facebook uma opinião sua sobre a atual campanha que decorre relativamente à chamada comunidade LGBTQ+ (isto vai aumentando, espero não ter esquecido nenhuma letra!).

Pessoalmente, discordo totalmente com essa campanha, que passa pelo menos nos canais AXN, vejo televisão para relaxar e não para ser indoutrinada, por muito bem intencionada que seja essa endoutrinação. Mas o que está aqui em causa é que esse senhor tem todo o direito de dizer o que pensa – e de pensar o que quiser – à face da tal Constituição tantas vezes citada.

Mas não, houve logo manifestações, em que foram usadas termos mais do que violentos para o classificar, e a situação só acalmou quando foi suspenso enquanto é investigado – pois, perder o emprego por delito de opinião, onde é que já ouvi isso?

Infelizmente, não é caso único. As pessoas têm cada vez mais receio de falarem abertamente, nunca se sabe quem irão ofender, os “iluminados” do costume arranjam cada vez mais pretextos para imporem a sua vontade e as suas ideias.

E isto estende-se à política, no nosso país e lá fora.

Veja-se, por exemplo, o modo como o Sr. Costa foi tão elogiado por não ter falado com o Chega antes de tomar posse. Parecia que tinha cometido um ato muitíssimo corajoso ao virar as costas à terceira força política mais votada, goste-se ou não deles. E a chamada linha sanitária em torno desse mesmo partido, vinda de partidos tão democráticos e igualitários como o PCP (lembram-se de quando receberam as FARC como convidados de honra da Festa do Avante, esses traficantes de droga e terroristas?) ou do BE (com o nada racista Mamadou Ba e com autarcas que pertenceram ao grupo das FP 25 de abril que assassinava pessoas) e de quem os apoia.

Já agora, relembro que, como disse em posts anteriores, o regime em que vivemos pode dizer-se muito democrático mas na realidade nem temos direito a eleger os deputados que supostamente nos representam. Sim, limitamo-nos a poder votar em partidos, que escolhem quem muito bem entendem e por razões que muitas vezes nos escapam totalmente!

Mas infelizmente, as coisas nem sempre são encapotadas, recordo o caso dos dois irmãos de Famalicão que, a pedido do Ministério da Educação, o Ministério Público quer retirar aos pais por estes não quererem que eles frequentem as célebres aulas de cidadania. O mesmo MP que arquivou o caso da Jéssica, que fecha os olhos às muitas crianças que não põem os pés nas aulas anos a fio, se é que alguma fez o fizeram (o Tribunal de Contas tem dúvidas sobre os dados da monitorização do abandono precoce dos estudos), esse mesmo MP, repito, fala aqui em “perigo existencial para os jovens” (alguém é capaz de me explicar o que é que isto significa?), de maus-tratos psíquicos, de coerção emocional, enfim, uma tremenda preocupação!

É óbvio que nunca pensaram que esta família não cedesse às inúmeras pressões que tem sofrido e querem criar um exemplo para evitar que outros tentem livrar os filhos de uma lavagem ao cérebro – sim, é disso que se trata, num post futuro falarei desta cadeira, do que é e do que devia ser.

 Não é também por acaso que surgiu  Lei dos Direitos Digitais, que Portugal se apressou a apoiar. Em Portugal, surgiu em 2006 a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), tendo como missão a regulação e supervisão de veículos de comunicação. Isto para salvar a coitada da população dos perigos da desinformação!

O próprio Sindicato dos Jornalistas está contra e afirma até que “a criação de um conceito de 'desinformação' com consequências jurídicas ao nível sancionatório é inaceitável". Mas atenção, a ERC não é uma Comissão de Censura, isso era antigamente! As suas intenções são boas, combater a enorme proliferação de desinformação nos meios de comunicação, redes sociais, etc.

Pois, o problema começa logo como esse termo, desinformação. Quem define o que é ou não é, em casos específicos? É que a avaliar com o que se passa no Twitter, Facebook, etc., desinformação é tudo o que não agrada aos “iluminados” ou ao poder vigente. Não acreditam? O Presidente do Irão mantém 7 ou 8 contas em que fala abertamente de matar americanos, de acabar com todos os cristão, enfim, uma série de “mimos” nada racistas ou discriminatórios. Curiosamente, quem ousa pedir que sejam eliminadas é logo posto na lista negra, é óbvio que esse senhor está só a expressar uma opinião... Mas escrevam “gosto do Trump” e bumba! São logo banidos!

Lembremos o famigerado Conselho para a Governança da Desinformação criado por Biden. Foi prontamente apelidado de Ministério da Verdade (leiam 1984, de George Orwell...) e de modo bem apropriado. Bastava olhar para as pessoas que o dirigiam para termos uma ideia bem clara do que realmente era, um organismo encarregue de eliminar toda e qualquer oposição e expressão de ideias que não agradassem aos senhores do costume. Bom, felizmente esta primeira tentativa só durou três semanas, mas outras virão, mais subtis e difíceis de detetar.

Olhem à vossa volta, vejam o que os noticiários dizem e, mais importante ainda, o que não dizem, o modo como tratam casos consoante a cor política, etnia, religião, etc. das pessoas envolvidas. Vejam como amigos, familiares ou até meros conhecidos reagem quando ousam expressar algo que seja visto como “remar contra a maré”.

E terão de concordar comigo, Ditadura é agora!

 

Para a semana: A (in)justiça) que temos – inspirado por algumas decisões recentes e não recentes.

10
Dez21

11 - Mitos perigosos, parte 1

Luísa

Hoje vou começar a falar de uma série de “mitos”, à falta de um termo melhor, alguns muito portugueses, outros infelizmente internacionais, e que causam todo o tipo de problemas e crises. Não que tenha ilusões de que falar neles fará com que desapareçam, mas não me posso coibir de lançar o alerta. Como o tema dá “pano para mangas”, citarei apenas dois este post, um geral, o outro bem nosso.

Mito 1: quem luta contra um ditador é democrata

Este é um dos mitos internacionais mais espalhados atualmente e que tem tido consequências verdadeiramente desastrosas, vejam-se os casos da “Primavera Árabe”, Líbia e Síria.

Vamos por partes. Seria realmente de pensar que quem arrisca a vida e a liberdade na luta contra uma ditadura fá-lo porque quer substituí-la por uma democracia. Faz sentido, não faz? Infelizmente, os factos provam que o único problema que essas pessoas têm com a dita ditadura é não ser a deles.

Uns exemplos?

Fala-se muito na oposição ao governo da Arábia Saudita e de como este é mau para as mulheres. E é. Infelizmente, se lermos o que esses opositores diziam há uns anos (agora moderaram o discurso para deitar poeira nos olhos do Ocidente, falam, como no Afeganistão atual, em respeitar as mulheres à luz do Islão), a sua oposição advém de acharem que o dito governo não é suficientemente religioso, como compete a quem governa o país onde se situa Meca. E já agora, que é demasiado tolerante com as mulheres...

Na Síria, e falo por experiência própria, a gloriosa oposição ao Assad veio de Homs, uma cidade radical islâmica onde quem não cumpria as rígidas regras religiosas, sobretudo as mulheres, era insultado e só não lhe acontecia pior porque a polícia do mau do ditador não deixava. Ora sob o presidente Assad, o mau contra quem lutam, havia liberdade religiosa, cristãos viviam lado a lado com muçulmanos e ninguém podia atacar ninguém, nem por atos nem por palavras. Era também vulgar ver, como eu vi várias vezes quando lá fui de férias, uma mulher totalmente tapada lado a lado com outra de minissaia (e tão míni que quase não existia) e um top reduzido. E nenhuma dizia nada à outra, sob pena de serem presas.

Mas o Ocidente deixou-se enrolar com o discurso da “luta contra a ditadura” e ignorou totalmente os crimes cometidos por esses supostos defensores da democracia, crimes realmente atrozes, sobretudo contra cristãos, mulheres e homossexuais.

Tivemos também a “Irmandade Islâmica” no Egito, com resultados terríveis para uma população mais ou menos laicizada. Na Líbia, o entusiasmo por derrubar Kadafi, fechou os olhos às verdadeiras razões da luta contra ele e que eram, resumidamente, a guerra pelo controlo do petróleo existente em áreas pertencentes a tribos “mistas” (como o Kadafi o era) e que as populações árabes das regiões mais costeiras queriam para si.

O problema é que mal se ouve “lutar contra a ditadura”, o bom senso sai porta fora e ninguém, e por ninguém refiro-me a políticos e sobretudo a jornalistas, se dá ao trabalho de verificar o que é esse movimento de resistência e em que é que acredita.

Mito 2: os sindicatos protegem os trabalhadores

Bom, a teoria é essa e não tenho a menor dúvida de que realmente o faziam, em tempos idos, foram até durante muito tempo a sua única proteção contra todo o tipo de abusos. E presto-lhes a devida homenagem ao muito que fizeram em termos de condições laborais, redução dos absurdos horários de trabalho e muitas outras melhorias.

O problema está no que acontece atualmente com os chamados contratos coletivos de trabalho. E, atenção, neste mito refiro-me única e exclusivamente à realidade portuguesa.

Imaginemos uma empresa com um desses contratos e em que trabalham, lado a lado, o José e o António. O José chega a horas, nunca sai mais cedo, não falta e cumpre as suas funções o melhor que pode. O António, por outro lado, chega muitas vezes atrasado, sai outras tantas mais cedo, falta por tudo e por nada, está sempre a sair para ir tomar um café ou fumar um cigarro e, mesmo quando está presente, pouco ou nada faz, sobrecarregando os colegas com a parte que lhe competia e que não executa. Exemplos extremos? Talvez...

Ora para o sindicato presente nessa empresa, são ambos trabalhadores de pleno direito e tudo o que for negociado em benefício de um, o cumpridor, abrange também o outro, o não cumpridor. Mas tudo bem, a teoria é que contratos individuais de trabalho levam automaticamente à exploração de quem trabalha.

E porque é que este mito é perigoso? Pois bem, por muito boa pessoa que o José seja, mais cedo ou mais tarde vai fartar-se de ser cumpridor quando nada ganha com isso. E a empresa acaba por ficar cheia de Antónios, com consequências fáceis de prever para a sua produtividade e para a criação de riqueza para o país.

É claro que na base deste mito está a tal nova interpretação do termo “trabalhador” que referi em Novo Dicionário Precisa-se, Parte 1, ou seja não é uma pessoa que trabalha mas sim alguém que tem um emprego abrangido por um contrato coletivo de trabalho e sob a alçada de um sindicato.

E acabamos numa situação muito bem retratada no livro “Viver sem trabalhar num país à beira-mar” de Luís Campos. É de 1983 mas pelo que sei, foi reeditado. Li-o há muitos anos e nunca me esqueci do texto com o mesmo título em que, depois de analisar os vários setores dispensados de trabalhar por esta ou aquela razão, o autor chegava à conclusão de que, “em Portugal só trabalhava ele e um outro, por isso o outro que ficasse com tudo, ele estava farto” (estou a parafrasear).

Não nos acautelemos, e será esse o nosso futuro. Mas tudo bem, teremos todos contratos coletivos negociados por sindicatos!

Para a semana: Mentir dizendo só a verdade – pois, parece um contrassenso, mas não o é

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