109 - E haja eleições!
Os acontecimentos desta semana levam-me, mais uma vez, a alterar o tema que tinha programado. Mas não podia, de modo algum, nada dizer perante a conjuntura atual.
Em primeiro lugar, não entendo o espanto que alguns mostraram por ministros importantes do (des)governo Costa terem sido indiciados por crimes de corrupção. Muito francamente, a escrita estava há meses na parede e só o mais total sentido de impunidade levou o nosso ex-PM a não se distanciar dos seus amigalhaços e a tentar salvar-se enquanto ainda ia a tempo... bom, talvez, pelos vistos a ferrugem tinha penetrado bem mais fundo do que se pensava.
Para mim, o único espanto foi o Ministério Público ter agido contra nomes chorudos do PS e, milagrosamente, sem fugas de informação! Sim, esse foi sem dúvida um verdadeiro milagre de Natal antecipado.
Gostei, em particular, da descontração desse homem honestíssimo que até mereceu ser o interlocutor do OE com Marcelo, o Sr. Galamba. Mas talvez o haxixe, o tal que é apenas ilegal, tenha algo a ver com isso... Já agora, alguém é capaz de me explicar quem é que esse senhor queria enganar com a camisa aberta e sem gravata, muito à “homem do povo”, mas com fatos de marca?
Passemos agora às opiniões dos vários partidos sobre o futuro imediato.
Para o PS tudo devia continuar como dantes, mudando-se o PM, claro, mas apenas porque ele se tinha demitido apesar de nada ter a ver com nada, como sempre foi, aliás, o seu hábito durante os últimos anos. Propuseram, até, como seu substituto, o SS, sim, o arruaceiro de serviço do partido e que tão “bom” e “isento” serviço tem prestado ao nosso país com presidente da AR.
O PCP e o PAN eram ferozmente contra eleições, apresentando inúmeras razões para essa sua atitude. Só que, cá para mim que ninguém nos ouve, acho que têm é medo de desaparecer de vez, ligados como estão à geringonça.
O BE parece que ainda não entendeu que vai a caminho do fosso e que está, na mente do povo, também totalmente ligado ao Costa e seus muchachos, daí querer eleições. Acho ótimo, com alguma sorte, desaparece também.
Já o PSD queria eleições, ou antes, o Sr. Montenegro era grande fã dessa opção. É que se houvesse um novo governo PS de transição, com eleições só daqui a quase um ano ou mais, já não estaria, certamente no poleiro e lá se ia a sua única oportunidade de ser PM.
O Chega e o IL têm, claro está, tudo a ganhar com nova campanha eleitoral, será mais uma tentativa de se afirmarem no palco político português, a sua atitude foi, pois, totalmente esperada e coerente.
Falemos, agora, da terceira parte desta peça que seria uma farsa se não fosse tão triste a imagem que dá do nosso país, isto para não falar das consequências internacionais e económicas. Refiro-me, claro está, ao senhor de Belém.
Adorei, adorei, adorei, isto para copiar uma frase de Recordações da Casa Amarela. Foi um belíssimo exemplo do “cá se fazem, cá se pagam”.
O dito senhor andou estes anos todos a engolir sapos do Costinha e a aparar-lhe o jogo “pela estabilidade do país”. Pois, valeu bem a pena, num ápice lá se foi tudo isso ao ar e, pelo que pudemos ver, sem o menor aviso prévio.
E de presidente das selfies e das viagens passou, em minutos, a presidente que tem de tomar a decisão mais grave que um PR português pode tomar e que é dissolver ou não a Assembleia da República.
E porque é que citei aquele ditado? Pois bem, lembram-se do governo de Santana Lopes e da sua eliminação pelo outro amigalhaço de Marcelo, o Sr. Sampaio, sem nenhuma razão válida? Sim, sem qualquer razão, acho que o “perigo de instabilidade” não convenceu ninguém, o Sr. Sampaio esteve simplesmente à espera que o PS tivesse um presidente não associado, pelo menos na mente popular, ao caso Casa Pia para avançar para eleições.
E qual foi a reação do então comentador Marcelo? Um aplauso de pé, porque “os portugueses não tinham votado em Santana para PM”. Para além disso me fazer uma certa confusão, que eu saiba o boletim de voto só tem nomes de partidos, há ainda o detalhe de o mesmo Marcelo ter acho ótima a ideia da geringonça, apesar de, aí sim, não termos votado no PS para governar o país.
Mas onde quero chegar é que agora, tantos anos depois, essa sua atitude ressurgiu para o queimar. Se aceitasse um novo governo PS, mesmo de transição, não haveria quem lhe lembrasse, alto e bom som, que “o povo não tinha votado no novo PM”. Alguém acha que o Ventura ficaria calado?
Mesmo assim, tentou fugir com o rabo à seringa, como se costuma dizer, convocando o Conselho de Estado. Atenção, numa situação grave como a que vivemos o dito Conselho deve ser consultado, supostamente é para isso que existe, apesar de a sua composição me fazer imensa confusão... Lídia Jorge?!!! O problema aqui é que Marcelo estava à espera de uma decisão contra eleições e, apesar de esta não ser vinculativa, citaria no seu discurso o respeito pela opinião das sumidades que o constituem, alinhando na não dissolução.
Grande azar, o resultado foi 8-8, teve, pois, de ser ele o único responsável pela decisão. Mesmo assim repare-se que deu o máximo de tempo possível ao PS para pôr a casa em ordem e, ao permitir a votação do OE antes da dissolução, garantiu que o partido culpado da crise pode meter à última hora todo o tipo de benesses no dito de modo a garantir os chamados votos cativos, nomeadamente reformados (do Estado) e funcionários públicos.
Seria mau não ter OE? Possivelmente, mas que tal garantir que a votação na especialidade não introduz modificações de peso? Ou, melhor ainda, exigir um OE mínimo, só com o suficiente para o país funcionar. É que, para além do que disse acima, o próximo governo, seja de que cor venha a ser, começará o seu mandato com o peso de despesas que não são, muito provavelmente, as que gostaria de fazer.
Só duas últimas notas.
Tenho falado várias vezes dos “peritos” e comentadores “profissionais” que nos enchem os ecrãs e que não acertam uma seja em que assunto for. E foi para mim um tremendo prazer vê-los a debaterem-se para tentar defender o indefensável, ou seja, a inocência e honradez dos acusados, e justificar não terem tido a menor suspeita do que iria acontecer. Isto fora os usuais cenários de catástrofe caso a AR fosse dissolvida.
Segundo, será que o Sr. Marcelo nunca ouviu falar de separação de poderes? Refiro-me, claro está, ao que disse sobre desejar que o MP seja rápido a bem da justiça e do bom nome das pessoas. É que se fosse o Zé da Esquina a dizê-lo, tudo bem, era uma opinião válida e justificada pela tremenda morosidade do que passa por justiça no nosso país. Mas vindo da boca do Presidente da República, bom, soa a pressão...
Para semana: Não podemos confundir... É o que se ouve se há certos protestos, mas nunca se estes forem contra outros alvos
