214 - O 25 de novembro
O ano passado falei também desta data em A “querida” esquerda, em que referi, entre outros assuntos, a enorme renitência da esquerda – e não só – em celebrar este dia e da sua teimosia, ou antes, casmurrice, em continuar a afirmar que foi um contragolpe feito para voltar ao salazarismo.
Nesse sentido, pouco ou nada mudou, tivemos até o inenarrável “senhor de Belém” a dizer no seu discurso que foi a data em que o país virou à direita. A sério? Eu diria que foi o momento em que Portugal se afastou, mais ou menos, do percurso traçado pela extrema-esquerda representada então por esses bons lacaios da URSS, o Partido Comunista Português.
O grande argumente – e pretexto para a ausência desses “bons democratas” da cerimónia na Assembleia da República – é que quem deseja celebrar o 25 de novembro está a menosprezar a data gloriosa que é o 25 de abril e as suas conquistas. Bom, e do ponto de vista do PCP, até há uma certa razão, foi quando esse partido perdeu o controlo do país e a esperança de aqui implementar uma “ditadura do povo” satélite da URSS, à semelhança das muitas então existentes na chamada Europa de Leste.
Só que eu nunca entendi muito bem porque é que o PCP reclama a autoria do movimento de abril. É que o que sucedeu em 25 de abril de 1974 nada teve a ver com esse partido, foi algo independente e que até os apanhou de surpresa – ou acham que se soubessem o que ia acontecer o Cunhal não estaria em Espanha ou, até, escondido algures em Portugal pronto para aparecer?
Não, o PCP teve, isso sim, tudo a ver com o que aconteceu entre 26 de abril de 1974 e 25 de novembro de 1975: a imposição de uma nova censura contra tudo o que pudesse ser visto como crítico do regime soviético, os despedimentos de quem não assinasse de cruz tudo o que os camaradas queriam – ou, pura e simplesmente, lhes desagradavam – e as prisões e torturas por razões políticas, isto fora o clima de terror, sim, é o termo certo, que se viveu durante esses meses em Portugal graças ao querido PREC.
Já agora, como está na moda pedir desculpa por tudo e mais alguma coisa, será que o PCP tenciona fazê-lo a todos os afetados por esse período terrível? E, melhor ainda, relativamente à chamada “descolonização”, ou antes, à entrega das colónias portugueses a partidos cuja única virtude era serem subsidiados pela URSS, também o vão fazer aos muitos milhares de “retornados” (tema a que voltarei em breve) e, sobretudo, aos angolanos, moçambicanos, etc. por os terem entregue, sem a menor hesitação, a quem não tinha os seus interesses em mente, como se tem visto, aliás, nestes 50 anos de independência desses países?
Pois, bem podemos esperar sentados.
Já agora, esta semana O Observador publicou vários artigos de opinião sobre o assunto, de que destaco O 25 de Novembro, de Zita Seabra – em que fala das suas experiências, lembremo-nos de que era militante comunista de topo – e Os incomodados de Novembro, de Rui Ramos, de que gostei bastante.
Passando às comemorações em si, foi gritante o contraste com as do 25 de abril, um dia em que somos bombardeados, de manhã até à noite, com celebrações, discursos, desfiles, entrevistas, documentários e tudo e mais alguma coisa. Até a cerimónia na Assembleia da República, uma estreia absoluta e, por isso, merecedora de algum destaque, foi enfiada no meio dos noticiários e com pouco destaque – não que anseie por ouvir discursos de políticos, mas deram-lhes um tempo mínimo de antena numa data que se pretendia ser solene.
Tivemos, claro, a ausência mais do que anunciada do PCP, que continua a agir como se estivéssemos no período antes do 25 de novembro e ainda mandasse do país, e para quem só os saudosistas de Salazar, ou seja, os fascistas ou candidatos a tal, celebram esta data. Ficou, até, bem claro que se consideravam ofendidos por a cerimónia se ter realizado apesar de eles não a quererem. Pois, os bons democratas são assim, não lhes interessa a opinião dos outros nem menos quando esses outros constituem a maioria.
Veio, depois, a “luta” caricata entre rosas brancas e cravos vermelhos, estes levados para a Assembleia da República por deputados de esquerda, claro, e postos sobre a decoração de rosas da tribuna principal. Retirados por Ventura, foi um elemento do PSD, o último a falar, a colocar de novo um cravo vermelho sobre a decoração de rosas – bom, pelo menos alguém eleito por esse partido, mas não nos esqueçamos que o futuro professor na Califórnia também diz ser um militante dele, foi, até, um seu (curtíssimo) presidente.
Como a razão dada foi que não devíamos esquecer o muito que devemos a abril, espero, francamente, ver para o ano algumas rosas brancas a serem postas sobre os cravos vermelhos durante a cerimónia do 25 de abril! É que se em novembro não podemos esquecer Abril, então o contrário também tem de ser verdade e temos de relembrar aos saudosistas do PREC quando é que a democracia, na verdadeira aceção desse termo, chegou, de facto, a Portugal.
Como digo, não costumo ouvir discursos de políticos, mas, ao fazer zapping, ouvi a Mortágua, a nossa “heroína navegante”, a lastimar que na celebração desta data – que ele contesta, diga-se de passagem – o governo estivesse a elaborar um pacote laboral para acabar com os direitos dos trabalhadores, direitos esses conquistados, claro está, no 25 de abril. Fica, evidentemente, implícito que a culpa deste golpe nos sacrossantos direitos adquiridos está no 25 de novembro e, acima de tudo, em quem celebra esta data.
Enfim, já passou, infelizmente ainda temos pela frente quase dois meses de politiquices com as eleições do próximo ano.
Para a semana: O melhor para os nossos filhos. Todos o dizem mas, infelizmente, o “melhor” resume-se, quase sempre, a coisas materiais.
