87 - Não viram, não sabem, mas governam
Por muitos ziguezagues, curvas, contracurvas e desvios que o Sr. Costa e os seus “muchachos” deem, por muitas incoerências que demonstrem, há uma frase lapidar que se tem mantido constante ao longo dos anos e de todos eles: não fui informado!
Pois é, os ministros nunca sabem o que os seus assessores, secretários de estado ou outros do seu ministério andaram a fazer, mesmo quando são atos ou decisões que seria de pensar terem de ser decididas ao mais alto nível. É claro que os ditos secretários de estado também nunca são informados do que é decidido pelos seus supostos subalternos. E quanto ao nosso “estimadíssimo” PM, bom, esse então nunca sabe nada, mas mesmo nadinha de coisa nenhuma.
Há despedimentos ao mais alto nível na TAP? Não foi informado, nem antes nem depois. Há problemas gravíssimos na saúde? Não está a par de nada. Há falhas e problemas por todos os lados? Coitado, ninguém lhe diz nada. Mas, estranhamente, tem sempre a certeza de que agiram todos bem e que devem continuar a merecer toda a sua confiança. É que também faz parte deste processo ele nunca correr com ninguém. Não, se um ministro ou secretário de estado sai, fá-lo por decisão própria e por razões pessoais – estou em pulgas para saber quais serão as do tal Sr. Galamba...
E, como disse, a mesma ignorância dos factos alastra pelos restantes membros do seu (des)governo. Mais ainda, estou convencidíssima de que se perguntarem a um chefe de secção, mesmo uma das mais pequeninas, o porquê de algo que ali foi feito ou decidido, pois... não foi informado e de nada sabe.
Outro que também nunca está a par de nada, apesar de estar sempre a abrir a boca, é o senhor de Belém. É curioso, tem opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, nunca perde uma oportunidade de aparecer em público a mostrar a sua “sapiência”, mas quando é um caso realmente grave... não sabe de nada. Ou, quanto muito, “está a acompanhar a situação” e não comenta por não ter todos os factos.
Seria interessante perceber como é que se governa um país no meio de tanta ignorância dos factos, só que, vendo o que se tem passado nestes últimos anos, a estranheza até desaparece. Sim, a única explicação para alguns dos mais recentes descalabros só pode mesmo ser a de que as decisões mais importantes estarem a ser tomadas por não se sabe quem, não se sabe onde, à revelia de quem usa o título de governante.
Talvez por só ter lidado profissionalmente com o setor privado, vivi sempre com a ilusão de que o papel de um chefe é saber o que se passa. Atenção, isso não quer dizer que tenha de ser ele a decidir tudo, isso seria o que se chama “micromanagement”, muito pouco aconselhável. É preciso delegar, claro, o mais possível até, mas um chefe a sério deve manter-se a par das decisões tomadas pelos seus subordinados, pelo menos a partir de um certo grau de importância. Ou seja, não lhe interessa saber se compraram canetas azuis ou pretas, já a compra ou leasing de carros para o seu setor é algo bem diferente.
O que eu critico nestes ministros e, sobretudo, no PM é que, pelos vistos, passa-lhes tudo ao lado. Segundo parece, estão no cargo apenas para desfrutar das suas muitas regalias e fazer anúncios bem sonantes de obras e quejandos. Mas até aqui as coisas correm mal uma vez que esses comunicados pomposos são sempre, mas sempre, seguidos de emendas, recuos ou até cancelamentos discretos porque, afinal, não se coadunavam com a realidade. Sim, a tal realidade que, adivinharam, eles desconheciam porque “não tinham sido informados”.
Pois é, os nossos governantes parecem tentar desesperadamente imitar os célebres três macacos – sabem, aqueles em que um tapa os olhos, um segundo os ouvidos e o terceiro a boca. Só que também aqui... foram mal informados. A verdadeira interpretação desta imagem é, de facto, “não ver o mal, não ouvir o mal, não falar o mal”. E, como tal, é um belíssimo princípio que nos ficava muitíssimo bem seguir, pelo menos na nossa vida pessoal. Bom, na profissional, não ver ou ouvir o mal é capaz de não ser muito boa ideia...
Infelizmente, a tradução que usam resume-se a, “não ver absolutamente nada, não ouvir nadinha, falar ao desbarato” – pois, tem de se mudar a imagem do terceiro macaco, em vez de tapar a boca passaria a ter um megafone para que todos possam ouvir facilmente as muitas obras e projetos que estes nossos fabulosamente bem informados governantes planearam para daqui a uns tempos. Bom, isso se entretanto não for preciso recomeçar, reavaliar, etc. de acordo com factos para que vão sendo alertados e de que deviam ter conhecimento desde o início.
Para semana: Educar? Os mesmos que choravam pelos alunos forçados a ter aulas a distância, agora privam-nos de aulas...
