96 - Falemos da Igreja Católica
Agora que as Jornadas Mundiais da Juventude – e a visita do Papa – já terminaram é altura de eu falar da Igreja Católica e, acima de tudo, dos seus críticos e opositores. Pequeno detalhe para quem me lê, não pratico a religião cristã há já algumas décadas.
Uma coisa que sempre me intrigou é o modo como todos os que se acham “gente” em Portugal pensam ter o direito de criticar tudo e mais alguma coisa no cristianismo em geral e na Igreja Católica em particular, abstendo-se, claro, muito virtuosamente, de fazer o mesmo em relação a outras religiões e às suas respetivas instituições. Já agora, por “gente” quero dizer os chamados influenciadores, políticos, intelectuais, jornalistas, enfim, os que tudo fazem para moldar a seu gosto a opinião pública.
Se o Papa diz algo, bom, não era isso que devia ter dito mas sim aquilo. Saiu alguma indicação religiosa? Pois bem, é pouco ou errado ou ambas as coisas. Será que já lhes ocorreu que essas frases e orientações se dirigem aos crentes e apenas a estes?
O mais interessante é que acrescentam sempre que não são católicos praticantes... sim, sei que disse o mesmo, a diferença é que eu quando critico os efeitos nefastos de uma religião na sociedade faço-o em relação a todas, com ênfase nas que ainda são “religiões de estado”, digamos, em que os seus ditames formam – ou influenciam grandemente – as leis desse país com efeitos nefastos para a liberdade e direitos individuais.
A principal crítica que se ouve é que a Igreja devia ser mais liberal, devia abrir-se mais e ser bem mais tolerante. A sério?
Já repararam como as seitas cristãs – e não só – estão em crescimento? Todas elas com regras rígidas sobre tudo e mais alguma coisa e punições graves para quem as quebre? Isto para não falar em igrejas cristãs alternativas, também elas imensamente rígidas e bem mais intolerantes do que a Católica, que atraem milhões em todo o mundo e são uma autêntica máquina de fazer dinheiro. E sabiam que há jovens de ambos os sexos que se convertem ao Islão porque ali “as regras para a vida são claras”?
O problema, para mim, é que quando ouço falar em abertura e liberalização da Igreja o que também ouço é o texto subjacente, ou seja, a sua perda de significado e eventual desaparecimento.
Talvez seja por isso que as JMJ beliscaram tanta gente. Que ideia mais parva, tantos milhares de jovens, vindos de todo o mundo, não para destruir, insultar, queimar e odiar mas para se juntarem em paz em nome da religião! A irritação foi tal que até houve uma senhora jornalista que dedicou horas a tentar descobrir se cabiam milhão e meio de pessoas na Parque Tejo!
O que me leva ao assunto seguinte, as atitudes LGBTQIA+ (são cada vez mais letras, já não há pachorra para decorar tudo) durante este período. Tivemos, por exemplo, um jovem de bandeira arco-íris no Parque Eduardo VII, no meio de bandeiras de inúmeros países, porque estava ali “a representar o seu povo”. Já agora, não é curioso que num espaço tão a abarrotar de gente jornalistas tenham conseguido chegar até ele para o entrevistarem?
Há ainda o caso da Missa LGBTQIA+ que terá sido interrompida por “manifestantes ultracatólicos”. O meu primeiro reparo é que continuo sem entender o que é uma “Missa LGBTQIA+”. É que se estes são os únicos que lhe podem assistir, então trata-se de um claro caso de discriminação e devia ser devidamente investigado. Mas é claro que o nosso Ministério Público está é a investigar a suposta invasão de um espaço que até é público e o Governo veio pedir respeito – curiosamente, quando o caso é ao contrário, ninguém investiga nada e nem se fala em ter respeito.
E já repararam que este movimento só se manifesta contra a Igreja Católica? O Islão nem a homossexualidade reconhece, a menos que seja para condenar à morte – e de modos bem cruéis – quem dela seja acusado. Mas já viram algum protesto junto a uma mesquita? Diga-se de passagem, eu até pagava bom dinheiro para ver alguém a irromper na de Lisboa de bandeira arco-íris alçada!
Outra acusação muito frequente à Igreja é ser “antiquada”, isto quando não afirmam abertamente que a religião (atenção, só a católica) passou de modo e só é boa para velhotas beatas. Daí fazer-lhes imensa confusão verem jovens a irem à missa sem ser com os pais ou a participarem em retiros ou outras atividades religiosas. E se caem na asneira de afirmar que cumprem os seus preceitos, sobretudo no que diz respeito a sexo...
E agora, o elefante na sala, os abusos sexuais da Igreja. Já dediquei um post a este tema, A pedofilia na Igreja, por isso não me vou alargar. Só acho curioso que precisamente na semana em que um grupo de 300 pagou do seu bolso um cartaz em Oeiras (porquê aqui?) a denunciar os tais abusos li que um professor liceal tinha sido suspenso por abusar de 91 alunas!
E não é caso único, nos últimos tempos têm sido uns atrás dos outros, todos envolvendo professores ou treinadores, sem esquecer que a PJ recebe num ano mais queixas do que a tão isenta Comissão de Investigação recebeu em relação a um período de décadas. E isto sem contar que se trata de casos atuais, em que as vítimas ainda estão, muitas vezes, nessa triste situação.
Para terminar, o sempre popular argumento de que a Igreja devia acabar com o celibato dos padres porque isso é contranatura – pequeno detalhe, o “A” de LGBTQIA+ significa assexual – e isso leva à pedofilia. Pois, é óbvio que os muitos pais que abusam das filhas, filhos ou ambos praticam celibato. Mais ainda, ao contrário do que se passava outrora, em que ir para padre era muitas vezes o destino de filhos demasiado fracos para a agricultura, entrar para o sacerdócio é agora uma profissão que exige anos de estudo e de preparação. E a porta está sempre aberta para quem mudar de ideias.
Uma última questão, como se exigiu que a Igreja pedisse – e continue a pedir, indefinidamente – desculpa pelos abusos de menores, será que podemos pedir o mesmo à direção das escolas com professores pedófilos e aos respetivos sindicatos? E se for uma escola pública, ao Ministro da Educação e ao Governo em geral? É que acho muito estranho que o abuso de 91 alunas liceais tivesse passado totalmente despercebido...
Resumindo, as pessoas são livres de criticarem e de protestarem, mas não se o fizerem apenas quase por reflexo involuntário e apenas quando se trata de um certo alvo de estimação, ignorando todos os outros, muitos deles bem piores.
Para semana: Vem aí a ebulição! Pelo menos é o que diz o muito douto Sr. Guterres...
