93 - É censura
Tivemos recentemente o caso altamente badalado do chamado “cartoon do polícia”. Para os mais distraídos, vê-se um polícia a disparar uma pistola e depois vemos os resultados: três alvos, um de cor branca, outro levemente castanho e outro bem escurinho. Pois bem, o alvo branco não tem um único acerto, o pouco tingido, digamos, tem alguns (poucos) e o alvo escuro está cheio deles.
A interpretação mais comum que se ouviu é que “expressa a realidade”. Pois, só um pequeno detalhe, a frase correta devia ser “expressa a realidade tal como é transmitida pelos jornalistas. É que andamos dias a fio a ler e a ouvir notícias quando um polícia mata um não branco, mas se dispara contra brancos... não é notícia de primeira página nem de abertura de noticiários e morre prontamente.
Acham que não tenho razão? Quantos ouviram falar de Justine Damond, uma americana morta a tiro por um polícia de origem somali quando ligou para o 112 a comunicar uma ataque a uma mulher numa ruela junto à sua casa? Quando o carro da polícia chegou, ela dirigiu-se a ele de roupão de verão e foi prontamente baleada e morta. Mas não foi notícia cá e mesmo nos EUA este caso quase passou despercebido.
Mas divago, a intenção deste post é falar das reações ao cartoon.
A polícia ficou indignada, como seria de esperar, e foi prontamente condenada por isso. Mas o mais interessante foi ouvir dizer que as pessoas que estavam contra o dito cartoon eram de extrema direita e a favor da censura! Ainda mais interessante foi ver os mesmos que, a propósito da caricatura do nosso “estimadíssimo” Sr. Costa (lembram-se, a do “é racismo”!) diziam que era péssima, que nunca devia ter visto a luz do dia, que a reação do PM era totalmente compreensível, virem agora defender com unhas e dentes o dito cartoon com o pretexto de que é “liberdade de expressão”.
Pois bem, senhores jornalistas tão liberais, aqui vão duas propostas de cartoons sobre a vossa profissão.
No primeiro, vemos numa primeira imagem um motim na rua de uma cidade, vandalismo, carros queimados, violência de todos os tipos. A segunda imagem mostra o mesmo mas mais de cima, vendo-se claramente jornalistas – com a respetiva placa ao peito – a deitarem gasolina para o que se passa lá em baixo.
No segundo, começamos por ver um jornalista a empunhar todo ufano um artigo em que bate forte e feio num determinado partido. A imagem seguinte foca-o mais de perto, vendo-se claramente meio a sair do bolso um cartão de inscrito no partido oposto.
Que tal? O quê, não gostam? Estão indignados com as acusações aqui subjacentes? Então quando vos diz respeito a sacrossanta liberdade de expressão já não vale?
Já falei de censura em Novo dicionário precisa-se - Parte 1 e de liberdade de expressão em O mito da liberdade de expressão. Volto repetidamente a este assunto por duas razões. Uma, incomoda-me qualquer tentativa de calar as pessoas. E dois, incomoda-me bem mais a hipocrisia de quem o faz em certas circunstâncias e berra e barafusta noutras.
Um bom exemplo disto é o que se passa com livros. Ouvi recentemente um comentário muito indignado porque algures (não em Portugal) uma organização local tinha querido banir da biblioteca o livro Orlando de Virgínia Woolf por retratar o que hoje veríamos como um transexual. Estranhamente, nunca vi protestos pelos muitos livros banidos de bibliotecas escolares (e não só) nos EUA por diversas razões – por exemplo, Tom Sawyer, porque às tantas aparece o termo “nigger”, muito usado na época em que foi escrito.
Ah, mas essa é uma boa razão, pode ferir as sensibilidades “certas”. Já quem se sentir ofendido pela ideia da transexualidade, bom, é fascista, nazi, etc. Ou seja, um dos casos é totalmente justificável, o outro é apenas a abominável censura em ação.
E já ouviram falar dos “leitores de sensibilidade” que muitas editoras já usam para avaliar o “perigo” dos livros que tencionam publicar? Pois, esses “consultores” bem se fartam de dizer que não impõem nada, limitam-se apenas a sugerir... Pois, os censores de Salazar também nada impunham, limitavam-se muito simplesmente a “sugerir” o que tinha de ser cortado se o autor quisesse ver o seu texto publicado.
Dir-me-ão, não é a mesma coisa. A sério? Se esses leitores disserem que o que eu escrevi pode ferir a sensibilidade de pessoas não brancas, de não cristãos, de mulheres ou do pessoal LBGBTQ+ alguém acredita que o texto será publicado como eu o quero e escrevi? Ou até que eu venha a ser publicada? Não nos esqueçamos da campanha para banir JK Rowling (a do Harry Potter) por ter dito numa entrevista algo que foi visto como transfóbico – mas atenção, isto não é censura!
E a moda atual de alterar livros por razões de sensibilidade? Como as obras de Roald Dahl, onde gordo passa a forte e outros mimos similares. E a lista de autores abrangidos não para de aumentar. Fica-se até com a impressão de que há muito boa gente por aí que só consegue ler livros se tiver um lápis vermelho na mão para ir marcando tudo o que possa ser ofensivo para alguém – bom, menos para brancos, cristãos, heterossexuais e homens...
Para terminar, voltemos ao cartoon. Pessoalmente, acho que nunca devia ter sido publicado, não por censura mas por outras razões.
Primeiro, porque mostra a ideia mais do que simplista que quem o fez tem do que se passa nestas situações de confronto com a polícia. Já agora, gostaria de ver essa pessoa a passar uma semana em patrulha em certos bairros de Lisboa e outra semana de serviço numa dessas esquadras. Mas sem câmaras à vista e sem qualquer identificação como não polícia. E já agora, acompanhado de um segundo elemento, não jornalista, para garantir que o relato dessa experiência era o mais factual possível.
Acho também que este tipo de imagens só serve para arreigar em certos elementos da nossa população a ideia de que podem fazer o que quiserem, incluindo insultar, ferir e matar polícias, porque se estes ripostarem... é racismo puro e simples.
Mais ainda, todas estas acusações acabam por levar polícias a hesitarem em reagir, com consequências que podem ser gravíssimas para eles.
Ou seja, o autor do dito cartoon e quem o publicou deviam ter medido as consequências do que faziam – lembram-se das críticas às caricaturas de Maomé em que muitos dos que condenavam o ataque ao jornal, os anti-censura, nunca se esqueciam de acrescentar que não tinha sido boa ideia publicá-las, quem o fez devia ter tido em conta que poderiam ferir suscetibilidades...
Pois, é o velhinho “dois pesos e duas medidas”.
Para semana: E são férias! Um post um pouco mais “leve”...
