91 - Estão a gozar?
Perante umas “coisinhas” que se passaram esta semana, decidi alterar o tema anunciado para este post, adiando para a próxima vez a “justa indignação” em França.
Comecemos pelo senhor de Belém. Segundo parece, sentiu-se mal, terá até desmaiado e foi levado para o hospital. Até aqui, tudo bem, é o que acontece nestes casos. O que me incomodou não foi isso mas sim o seu discurso à saída do dito hospital.
Com o seu habitual ar de boa disposição, o que é que este “presidente de todos os portugueses” disse? Pois bem, que tinha sido muitíssimo bem tratado e que isso só prova que o Serviço Nacional de Saúde funciona bem! Estão a gozar?
Então este senhor acha que o Zé dos Anzóis e o Presidente da República, seja ele quem for, recebem o mesmo tratamento por parte do SNS? Já agora, quando digo tratamento, não me refiro aos cuidados médicos em si quando se tem a sorte de ser atendido, quero crer que são os mesmos. Não, refiro-me, precisamente, a essa sorte de ser visto.
Alguém acredita que o dito senhor passou pela triagem e depois esteve à espera que casos considerados mais graves fossem vistos antes dele? Mais ainda, que aguardou a sua vez, pela ordem de chegada da pulseira colorida que lhe foi – ou não foi – atribuída? E que depois foi para a sala comum das Urgências com todos os outros que esperavam ser atendidos e aguardou a sua vez para fazer testes e exames?
Mais ainda, quantos utentes tiveram de esperar ainda mais tempo do que o usual enquanto cuidavam de “sua excelência”? Quantos médicos, enfermeiros e outro pessoal foram desviados das suas funções por causa dele?
Pois é, o SNS funciona às mil maravilhas... para alguns.
Não teria sido bem mais honesto ter sido levado para um hospital privado para não interferir com o já de si mau e lento funcionamento de um hospital público? Pessoalmente, acho que políticos e companhia deviam passar pelo SNS, tal como os que os elegem e pagam, mas neste país isso não resulta, todos sabemos, infelizmente, que até aí têm direito a tratamento VIP.
E vamos ao segundo motivo, o relatório da comissão de inquérito à TAP.
Tivemos semanas de audições a todos e mais alguns (só faltou o cãozinho e o gatinho...), com transmissão direta na televisão. Ouvimos declarações, contra-declarações e contra-contra-declarações para todos os gostos e feitios, isto para não falar nos discursos de circunstância de PM e outros governantes.
Após todo este circo esperava-se, no mínimo, que a dita comissão tivesse a decência de fazer um relatório mais ou menos sério. Pois...
Afinal – e apesar de tudo o que ouvimos e lemos – o Governo e todos os que o compõem agiram bem, mais do que bem, até, os únicos culpados são gestores da TAP e quem os nomeou, ou seja, Passos Coelho, claro. Estão a gozar?
Sei que é otimismo a mais esperar honestidade de uma comissão PS, mas, francamente, que tal um niquinho mais de seriedade? É que, perante este belo resultado, fica-nos a dúvida: terá o relatório sido escrito ainda antes de todo este aparato? Pelo menos é o que parece.
Já agora, uma pequena sugestão. Da próxima vez que criarem uma comissão destas para “investigar” algo em que este (des)goveno ou o PS estejam envolvidos, não ocupem horas de um canal de notícias com as audições de toda a gentinha que se lembrem de chamar, enviem-nas para o canal que dá o Big Brother (ou o que lhe ocupa atualmente o lugar, não ando a par deste tipo de programas). É que é mais TV Realidade, no pior sentido da expressão, do que algo para ser levado a sério.
Finalmente, o Sr. Medina, esse incomparável Presidente da Câmara de Lisboa e agora, como prémio de consolação por ter perdido as eleições, Ministro das Finanças deste cada vez menos jardim à beira-mar plantado.
Pois bem, o dito senhor declarou como direitos de autor os seus ganhos como comentador no Correio da Manhã, Rádio Renascença e TVI enquanto ainda era Presidente da Câmara. Para além de pagar muito menos impostos sobre o que recebeu, isso permitiu-lhe continuar a receber por inteiro o seu salário na autarquia. Estão a gozar?
Pelos vistos não sou só eu a estranhar esta manigância, o próprio Tribunal Constitucional tem dúvidas sobre tudo isto. É claro que se em vez da pessoa em questão fosse um Ventura ou até mesmo um Montenegro, teriam logo a certeza absoluta de que estava mal...
Resumindo, temos à frente das Finanças, o Ministério mais importante na conjuntura atual, alguém que, ou desconhece as leis que nos regem ou conhece-as e decide, muito simplesmente, contorná-las a seu gosto.
Mas tudo bem, de acordo com o seu patrão, o Sr. Costa, temos um Governo sério e que funciona às mil maravilhas num país que não podia estar melhor. Estão a gozar?
Para semana: Quando é que a Europa aprende? A propósito das últimas cenas de “justa indignação” em França.
