Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Luísa Opina

31
Mar23

77 - Coisas curiosas

Luísa

Começo por explicar que, devido aos acontecimentos dos últimos dias, decidi adiar para a próxima semana o post anunciado. Refiro-me, claro está, ao crime horrendo no Centro Ismaelita e, sobretudo, às reações e comentários feitos sobre o assunto.

Para os mais distraídos, recordo que um afegão, com estatuto de refugiado, entrou nesse centro, onde recebia lições de português, feriu o professor e matou à catanada duas mulheres. Estes são os factos, nus e crus.

Lembro, também, que a religião ismaelita e a que vigora no Afeganistão pertencem a vertentes opostas (e inimigas) do Islão.

Face ao modo como a notícia foi dada inicialmente, sem referir dados sobre o atacante, deduzi imediatamente que se tratava de um não branco – pois, hoje em dia o que uma notícia não diz é bem mais importante do que o que diz, mas isso será o tema de um post futuro.

Curiosamente, pouquíssimo tempo depois do ataque, o Sr. Marcelo, que nunca perde uma oportunidade de “botar faladura”, já estava a dizer que o atacante tinha sofrido um episódio psicótico, diagnóstico confirmado pelo Comissário da Polícia.

Curioso, lendo sobre o assunto, uma afirmação dessas exige uma avaliação de vários factos, entrevistas a familiares, amigos, colegas, etc., exames médicos de vários tipos... mas, pelos vistos, temos aqui uma área onde podemos passar a poupar imenso dinheiro, apresenta-se o caso ao senhor de Belém e pronto, assunto resolvido.

Curiosamente, quando um branco ataca um local ou pessoas de outras raças, o mesmo senhor aparece também logo com uma conclusão cheia de certezas, só que, nesse caso é... adivinharam, racismo, xenofobia, intolerância. É que pelos vistos, o muito popular “passou-lhe uma coisa pela cabeça”, “sofre de perturbações mentais” ou o bem mais atual “episódio psicótico” estão vedados a quem é europeu ou, pior ainda, é branco e cristão.

Desde o ataque tenho assistido, estupefacta, à lista de “justificações” dada para justificar o injustificável. E, estranhamente, ninguém pergunta como é que foi uma coisa momentânea quando ele levou uma catana para o local. Já agora, onde é que se arranja uma? É que eu não sei mas, pelos vistos, um estrangeiro a viver em Portugal só desde 2021 e sem falar muito português não teve qualquer problema em conseguir uma.

Quanto às vítimas, passámos pelo menos dois dias a quase nem ouvir falar delas. É que perante o “coitadinho” do afegão, não têm o menor interesse...

Infelizmente, este tipo de desculpabilização de atos criminosos horrendos, desde que sejam cometidos pela pessoa “certa”, não é de agora nem se restringe ao nosso país.

Se um branco entra numa mesquita e insulta alguém, é gravíssimo, soam logo os pedidos de uma pena exemplar. Mas nos últimos anos têm sido queimadas dúzias de igrejas em França em zonas maioritariamente muçulmanas e nem chegam a ser notícia. Mais ainda, se por mero acaso, for apanhado alguém, pois bem, sofre inevitavelmente de perturbações mentais, como o do ataque na ponte Westminster em Londres ou o do atropelamento de pessoas num mercado de Natal na Alemanha.

Há, ainda, as “justificações” para todos esses crimes. É que quem os comete nunca, mas mesmo nunca, é culpado. Não, a culpa é do Ocidente, do “homem branco”, do colonialismo, das más condições em que vive, das desigualdades sociais, enfim, a culpa é das vítimas.

Já agora, analisando friamente o que se passou, onde estão os protestos dos defensores das mulheres? É que o dito afegão atacou deliberadamente duas mulheres indefesas, matando-as de um modo cruel. E ninguém tem nada a dizer sobre este claro caso de violência contra o sexo feminino?

E a tão apregoada tolerância religiosa, também não suscita comentários ele ter cometido o ataque num centro que pertence a uma versão do Islão a que a dele é ferozmente antagónica?

E não há nada a dizer sobre as vítimas? O Sr. Marcelo, o tal que nunca perde uma oportunidade de abrir a boca, só mostrou preocupação pelo criminoso, pelos filhos do dito e pela hipótese de isto ser usado como pretexto para controlar a vinda de supostos refugiados. Só que nada disse às famílias das vítimas ou, se o fez, foi muito tardiamente e de modo bem discreto.

Mas em termos de argumentos de desculpabilização, o melhor de todos, no mau sentido, claro, é que o criminoso estava a ser pressionado pelos talibãs para regressar ao Afeganistão. Muito francamente, se os ditos sabem que ele existe e, ainda por cima, têm o seu contacto telefónico, talvez seja conveniente investigar muito bem quem é esse senhor. É que com tantos milhares de afegãos que têm fugido, duvido que isto aconteça com todos – ou até com alguns.

Quando é que comentadores, jornalistas, políticos, etc. tomam consciência de que esta reação de tudo desculpar não é sinal de tolerância, é, isso sim, uma prova de que não veem as pessoas como iguais? Ou seja, trata-se racismo, puro e simples. É que, no fundo, acham que essas pessoas não têm capacidade para cumprir as regras morais mais básicas...

É que, pelo menos no que me diz respeito, estou farta de ver um ataque de um branco a um não branco ser notícia durante dias, envolvendo a SOS Racismo (a tal que inclui o Sr. Mamadou...), mas se for ao contrário ou não é relatado ou é-o de passagem e, repito, com, no mínimo, o “passou-lhe alguma coisa pela cabeça”.

Haja igualdade!

Para semana: O patriarcado A propósito da demissão da primeira-ministra da Nova Zelândia

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Calendário

Março 2023

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D