7 - Partam-se os vidrinhos
Há uns tempos vi por acaso um pediatra num dos programas da tarde (ou da manhã) de um canal português a referir que muitas crianças apanham agora infeções de todo o tipo quando começam a ir à escola porque, palavras dele, os pais tendem a mantê-las “envoltas em algodão em rama”. Até há uns anos, os miúdos comiam terra, molhavam-se, andavam descalços em parques e jardins, enfim, iam ganhando imunidade. Agora, bom, mesmo pais descontraídos fazem tudo para que nada disso aconteça porque podem adoecer. Sim, é bom tomar precauções, mas em exagero têm um efeito adverso.
Infelizmente, fazemos o mesmo em áreas não físicas, digamos. É ver quem arranja mais “situações de trauma” a evitar às “coitadinhas das criancinhas”. Testes, exames? Nem pensar! Dizer-lhes não e impor-lhes regras e limites? Que trauma! Apesar de ainda não termos chegado a esse ponto, houve uma pré-primária americana que proibiu os professores de usarem vermelho nas correções por ser... pois, adivinharam, traumático.
A ideia genérica é que cresçam numa redoma, sem sofrerem a menor contrariedade ou percalço.
É claro que todos gostaríamos de viver num mundo perfeito, onde tudo correria sempre bem e seríamos todos muito felizes. Para além do pequeno detalhe de que o que é uma sociedade ideal para o meu vizinho pode não o ser para mim, estou certa de que uma situação destas levaria à total estagnação da humanidade e, ao fim de algum tempo, ao seu declínio total. E não sou a única a pensá-lo.
As tentativas de criar a tal redoma chegam às vezes a limites absolutamente ridículos. Estou a lembrar-me do caso de uma senhora que escreveu a um canal de TV muito indignada porque num programa da natureza que tinham exibido via-se um grupo de leões a caçarem e a comerem um antílope e isso tinha traumatizado o seu filho de oito anos. É claro que me surgiu logo a pergunta, onde é que a dita criança pensava que os leões iam buscar o almoço? Ao supermercado mais próximo?
Curiosamente, esta proteção tem algumas bizarrias. Proíbem-se alguns contos tradicionais por serem “negros”, digamos, ou sanitizam-se até se tornarem irreconhecíveis, como aconteceu com a versão da Disney da Pequena Sereia. Mas não há problema nenhum em as criancinhas verem o Big Brother ou similares.
Basicamente, há a obsessão pelo “final feliz” e feliz num sentido totalmente convencional (casaram e viveram felizes para sempre...). Mesmo quando mudam a história para incorporar a causa da moda, o final feliz tem de existir.
Há ainda a questão dos “livros adequados” a crianças. E não, não me refiro ao conteúdo mas sim ao seu tamanho e densidade de vocabulário. Sabiam que nos EUA e em Inglaterra há listas de palavras “autorizadas” para as várias faixas etárias e que o uso de termos fora da lista é absolutamente proibido? E que também há um número de palavras máximo a não exceder em caso algum, sob pena de o livro não ser publicado?
Quem é fã da saga Harry Potter notou com certeza a enorme diferença de tamanho entre os dois primeiros volumes e os restantes. É que para esses dois, Rowling era uma desconhecida que vira a sua obra ser recusada vezes sem conta e que, para ser publicada, aceitou, claro, as regras. Depois do tremendo êxito de vendas que teve, as coisas mudaram e exigiu fazer os volumes restantes à sua maneira. Pois bem, as criancinhas devoraram os calhamaços que escreveu, cheios de palavras difíceis e, espanto dos espantos, não ficaram traumatizadas!
Tal como as crianças em algodão em rama que referi no início, este sistema de redoma tem tremendos inconvenientes. É impossível passar uma vida inteira sem sofrer alguns dissabores ou, no mínimo, desilusões, e pessoas criadas deste modo senti-los-ão com muito mais intensidade por falta de hábito. Se tudo foi feito até então para que não tenham dificuldades, o efeito pode, até, ser devastador.
Não defendo, é claro, que se façam sofrer as criancinhas pura e simplesmente para as ir habituando a isso. É claro que não. Mas uma proteção em excesso acaba por lhes ser bem mais prejudicial do que um ou outro desgosto pelo caminho.
E quem vêm elas a ser mais tarde? Pois bem, são os “vidrinhos”, pessoas que se melindram com tudo e mais alguma coisa, por mais inócua que seja, que exigem a retirada de textos, imagens, palavras, factos, até, que “possam ofender alguém” (e francamente, na maioria dos casos é preciso ter uma imaginação delirante para encontrar a tal ofensa), enfim, pessoas que se passam totalmente à menor provocação, real ou imaginada.
Já agora, para quem conhece a realidade americana, estes são o que lá chamam “snowflakes” (flocos de neve), mas sempre achei que o termo “vidrinho” é mais adequado, estamos a falar de pessoas que “se partem” com o menor sopro adverso, ou que supõem ser adverso. As que estão sempre a falar em criar “espaços seguros” onde ninguém se possa melindrar, não hesitando para isso em insultarem forte e feio quem se lhes opõe — é que para elas, quem não concorda totalmente com as suas opiniões não merece ser incluído na redoma.
Se pensarem um pouco, verão que temos muitos vidrinhos por cá e que tudo fazem para que o seu número se multiplique o mais depressa possível. E como temos o mau hábito de importar o que de pior aparece na sociedade americana, não me espantaria nada que em breve sejam proibidos lápis e esferográficas vermelhas...
Daí a minha proposta, partam-se de vez os vidrinhos, deitem-se os estilhaços ao lixo de onde nunca deviam ter saído, e comecemos a educar de acordo com as reais potencialidades das crianças, que são bem mais do que é tomado em conta quando criamos estas regras que, afinal, não protegem, só prejudicam, pelo menos a longo prazo. E reconheçamos de uma vez por todas que tudo, mesmo os atos mais benéficos, podem ser vistos como insultuosos por alguém, algures no mundo e deixemos de desperdiçar tempo e recursos com ninharias, dedicando-nos antes a tentar erradicar o que é verdadeiramente mau.
Para a semana: O céu está a cair... – a propósito da catástrofe climática
