Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Luísa Opina

02
Dez22

61 A geração entediada

Luísa

Nunca fui grande fã de dar nomes às gerações, sejam ou não depreciativos, mas durante o infame confinamento houve um termo que me vinha repetidamente à mente sempre que ouvia falar nos problemas dos jovens, nas sequelas psicológicas do isolamento, da dificuldade em acompanharem as aulas, enfim, entendem o que quero dizer. E qual era esse termo? Pois bem, entediados.

E sabem o que acontece quando nos chamam a atenção para uma coisa e a partir daí passamos a vê-la em todo o lado? Aconteceu-me precisamente o mesmo aqui e, pior ainda, lançou a sua sombra deprimente para o passado.

Vamos lá a ver se entendem o que quero dizer.

O que mais ouvimos durante esses meses, da boca dos jovens e não só, era o enfado por não poderem sair, estar com os amigos. E a frase mais usual era, “não temos nada para fazer.”

Analisemos um pouco tudo isto.

Ou seja, num mundo ligadíssimo graças às redes sociais, em que os ditos jovens estão viciados – sim, é o termo correto – e em que a maior parte dos “amigos” são virtuais, estar em casa causa problemas de isolamento? Mais ainda, quem nunca viu grupos de jovens algures num centro comercial, café ou outro local, teoricamente juntos mas na prática todos agarrados ao respetivo telemóvel, como se a sua vida dependesse disso?

Mais ainda, as tais saídas que deixaram de ter, serão mesmo de convívio? Ou limitam-se a ir em grupo aos mesmos sítios e a fazer as mesmíssimas coisas em nome de uma suposta diversão?

Mas o principal vem do “não temos nada para fazer.” Mais uma vez, a sério? Quando têm o mundo literalmente na ponta dos dedos? Quando surgiram milhentas atividades online, precisamente destinadas a quem se viu em casa inesperadamente, ginástica, ioga, aulas de todo o tipo, trabalhos manuais, enfim, um sem fim de coisas?

Ou será que os nossos jovens são todos atletas que precisam mesmo de um local de treino específico para desenvolverem a sua atividade?

Atenção, não estou a menosprezar esta sensação de isolamento e não terem nada para fazer, muito pelo contrário, o problema está precisamente aí, em sentirem-se à nora por não poderem fazer o seu habitual.

Não sei o que andámos a fazer com estes jovens, mas a triste realidade é que não se sabem entreter. Fica-nos, até, a sensação de que têm pavor a verem-se sozinhos perante si mesmos. E até os tão falados (nessa altura) convívios e saídas com amigos são feitos mais por ter de ser do que propriamente por gosto.

Resumindo, a vida é um tédio tremendo que se disfarça com um frenesim de “distrações” que são tudo menos isso.

Muito francamente, dei comigo a pensar no que aconteceria se pegássemos nesta geração e, num cenário de ficção científica, os puséssemos em confinamento há duas ou três décadas, nem era preciso mais. Ou seja, sem internet, sem videojogos, sem telemóveis, com um único canal de televisão a funcionar apenas umas horas por dia, sem e-readers...

Sim, cenário de ficção científica porque só assim seria uma verdadeira experiência. É que os jovens dessa época sabiam ocupar-se e divertir-se e, muito francamente, se viessem com essa do não há nada para fazer, pois bem, acho que sabem qual seria a resposta.

Já pensaram na tremenda oportunidade perdida que foi o confinamento? Podia ter sido usado para explorarem coisas e, quem sabe, descobrirem até alguma paixão ou vocação. Ou para aprender algo para que nunca têm tempo na “vida normal”. Ou para tentarem conhecer a sério os amigos que dizem ter, sem a distração de um local de diversão, centro comercial ou isso.

E este tédio abrange todos os setores da sua vida. Os estudos? Uma seca. Estar com a família? Mais do que seca! Passatempos? Bom, só os da moda, digamos, e mais para não destoar do que propriamente por prazer.

Dir-me-ão, mas esta nova geração está muito empenhada em mudar o mundo, em corrigir os muitos erros cometidos.

Mas está mesmo? Sim temos assistido a inúmeros protestos, marcas e quejandos. Já agora, não é curioso que sempre que querem protestar contra algo começam logo por encerrar os respetivos estabelecimentos de ensino? O grande problema em relação a este suposto empenhamento é a falta de conhecimentos sobre o assunto em questão.

“Fechemos as centrais a carvão!” Pois, mas só as do Ocidente, se lhes perguntarmos ignoram que só este ano a China inaugurou mais de 600. “Fim dos combustíveis fósseis!” Mas nunca houve uma geração que tanto usasse o carrinho para tudo e mais alguma coisa, até mesmo para distâncias que podiam muito bem fazer a pé.

Mas a melhor de todas é o apelo ao fim do capitalismo. Pois, o tal capitalismo que lhes permite só começarem a trabalhar tarde – e mesmo assim, muitas vezes, só para arranjar fundos para distrações – e que, sejamos sinceros, lhes dá tempo e liberdade para protestarem contra o dito.

É que se este protagonismo em mudar o mundo fosse real e não apenas mais um sintoma do imenso tédio que os afeta estariam,  esforçar-se-iam, certamente, por se informar mais sobre as questões antes de protestarem, mais ainda, fá-lo-iam de modo seletivo, sem se deixarem ir na onda do tema da semana. Pois, mas há que arranjar algo para fazer...

Para semana: É preciso é anunciar! E não, não me refiro a publicidade comercial...

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Calendário

Dezembro 2022

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D