59 - Um país de descartáveis
De um modo geral não dedico muito tempo à chamada “atualidade nacional”, prefiro usar o meu pouco tempo disponível com assuntos mais a meu gosto. Mas, de um modo ou de outro, alguma coisinha vai entrando e dei por mim a pensar que, para a classe política que nos governa e os “pensadores” que supostamente nos estudam, analisam e propõem soluções para a nossa felicidade futura, não passamos de elementos descartáveis que juncam o seu caminho.
Passo a explicar, começando pelos períodos eleitorais.
Como todos temos certamente presente, durante uma época eleitoral – e na cada vez mais longa pré-campanha – candidatos de todos os quadrantes desdobram-se em ações junto dos possíveis eleitores. É um nunca acabar de “arruadas” (termo que odeio, francamente), de idas a mercados e feiras, enfim, de aparições em tudo o que seja lugar (e fique bem na TV). Mas passada a eleição, nunca mais os vemos.
Não se trata sequer de nos porem na prateleira para sermos retirados na vez seguinte. Não, tendo em conta o modo como agem e o que dizem na campanha seguinte, os visados do período anterior foram simplesmente descartados uma vez acabada a sua utilidade e os candidatos conduzem-se como se tivessem perante eles todo um novo eleitorado – sabem, como aquelas botinhas que médicos e enfermeiros enfiam e descartam quando saem da zona... E não é um exemplo escolhido ao acaso, tal como elas servimos apenas para os ajudarmos a fazer o seu trajeto “limpo” até ao objetivo final.
Se esta fosse a única situação em que somos vistos deste modo, enfim, até nem era muito grave. O grande problema é que o mesmo acontece em todas as facetas da nossa sociedade.
Veja-se o caso da pedofilia. Andamos há meses a ouvir falar da comissão de inquérito às vítimas da Igreja, sempre com um ar de aparente preocupação com a gravidade dos casos. Mas casos como um recente em que um pai abusou durante anos das três filhas menores merecem apenas uma pequena notícia que desaparece em menos de nada – e como este, infelizmente muitos outros similares.
Ou seja, também as vítimas da pedofilia são descartáveis, “usam-se” para uma determinada campanha mas, depois, são pura e simplesmente ignoradas. E os mesmos que bramam contra bispos porque “sabiam e nada fizeram” (apesar de só em 2020 o crime ter passado a ser público) nada dizem e, sobretudo, nada fazem em relação aos muitos familiares, muitas vezes a própria mãe, que sabem o que se passa no seu lar e nada dizem e nada fazem.
Já agora, o mesmo é válido para as vítimas de violência doméstica, são “tiradas do baú” para discursos e campanhas da conveniência de quem as faz e prontamente descartadas quando deixam de ser úteis.
Temos também os idosos, esses, então, ainda mais descartáveis do que o resto da população. Foi este, aliás, o tema do post da semana passada do meu blogue Ir para novo intitulado Velhos não são descartáveis. Fala-se muito nos “velhinhos, coitadinhos” mas a triste realidade é que são postos de lado muitas vezes ainda bem antes de atingirem a idade da reforma. O pretexto é sempre o mesmo, “já trabalharam, agora merecem descansar”, mas a verdade é que se prefere não estudar maneiras de lhes dar uma vida ativa até o mais tarde possível, de os manter na malha produtiva – e não só – da nossa sociedade. Ou seja, são descartados, a menos que, também eles, possam ser usados como mote numa qualquer campanha.
E o mesmo se aplica aos jovens. Há “ataques” periódicos sobre serem “o nosso futuro”, mas fora dessas épocas pouco ou nenhum tempo dedicamos a ver se, por acaso, a educação que lhes estamos a dar é realmente a melhor para o futuro deles (e o nosso).
O desemprego e a “precariedade” são também temas muito badalados em certas épocas, mas, mais uma vez, passado o momento aí vem o descarte!
E estou certa de que se pensarem um pouco verão inúmeras áreas em que as pessoas são postas em destaque por razões de interesse de quem o faz – sim, não tenhamos ilusões sobre a “bondade” das intenções com que isso é feito – e, mal passa a ocasião, postas de lado, descartadas, como os tais botins.
Nem sequer acredito que isto seja feito por má fé, não, é bem pior do que isso. É que quem o faz nem sequer nos vê como pessoas, somos apenas peões no seu jogo de singrar na carreira, política ou não, que escolheram. O que lhes importa é a causa do momento, quando passam a outra aí vêm novos atores para a ribalta.
Se fossem só os políticos a fazê-lo, enfim, penso que a grande maioria de nós já não tem grandes ilusões sobre essa classe. Mas passa-se o mesmo com jornalistas, comentadores, “especialistas” disto ou daquilo, ou seja, os chamados influenciadores da sociedade atual. E sim, não acontece apenas no nosso país, mas pelo que tenho observado fico com a impressão de que noutros locais esta atitude é a exceção e aqui tornou-se a norma.
Espero estar enganada, é que, muito francamente, podem chamar-me o que quiserem mas recuso-me, veementemente, a ser vista como descartável, seja pela idade, sexo ou outra coisa!
Para semana: A geração entediada. É o nome que me vem à mente quando penso nos jovens de agora.
