37 - Jovens
Esta semana vou falar de algo que me incomoda há bastante tempo e que é, muito simplesmente, o que se passa com os jovens de Portugal, em particular, e do mundo ocidental em geral.
Com as melhores intenções do mundo tem-se aplicado a teoria de tudo facilitar, de tudo lhes dar, de que a sociedade tudo lhes deve e eles não devem nada a ninguém. Em princípio até soa bem, aplanar-lhes todas as dificuldades para que possam ter uma vida feliz e bem ajustada. O problema é que, para espanto de muita gente, surgiu uma nova geração suscetível a todo o tipo de problemas psicológicos e não só.
O que correu mal?
Quando penso neste assunto vem-me logo à mente uma entrevista a um pediatra a que assisti há uns anos sobre os perigos de, como ele muito bem disse, “envolver as crianças em algodão em rama”. Referia-se a doenças infantis e ao facto de que, como ele explicou, até recentemente as crianças mexiam em tudo, metiam tudo na boca, apanhavam algumas pequenas infeções mas criavam uma boa dose de imunidade. Hoje em dia é tipo, “não mexas na terra”, “que horror, meteste isso na boca, sabe-se lá por onde andou”... E desinfeta-se logo mãos e o mais que vier a jeito. Junte-se a isto o facto de que muitas crianças não têm onde brincar livremente e o resultado está em termos crianças com imunidade zero a tudo – e depois vão para a escola e começam os problemas.
O grande problema está em que se usa a mesma teoria de proteção durante a adolescência. É considerado terrível obrigar os jovens a fazerem a sua quota parte das tarefas domésticas. Ou, se as fazem, é quase sempre tendo como contrapartida uma mesada. E isto sem falar que a mesada passou a ser um “direito”!
Não sou contra dar uma mesada aos filhos, variável com a idade, muito pelo contrário, penso que é uma boa ideia de lhes ensinar princípios básicos de economia doméstica. O problema é que a dita é muitas vezes vista como um extra, como algo a ser usado apenas em diversão e nem toda. Ou seja, para além de roupa, etc., os pais têm a obrigação de pagar jogos, saídas e tudo o mais e a mesada em si é para gastos em ninharias, quase sempre para “fazer figura” com os amigos. E em vez de aprenderem a poupar para um prazer ou o facto básico de que se gastam à toa acabam por não ter para as coisas que realmente querem a lição que tiram é que há sempre um saco sem fundo a que recorrer quando o dinheiro acaba e que se os pais não lhes dão mais é porque são maus.
Outro aspeto deste problema está nas facilidades da vida atual. Sei que é muito comum ouvir dizer que os jovens atuais têm uma vida complicada, mas será mesmo assim?
Uma das vertentes da tal complicação está na falta de empregos. Mas aqui o que mais me choca é o facto de jovens de 20 e poucos anos acharem que têm direito, sim, direito, a um emprego para a vida e com um bom salário e isto independentemente do curso que tiraram. Uma conferência a que assisti, o Prof. Agostinho da Silva disse que todos têm o direito de estudar o que quiserem, não têm é o direito de exigir um emprego nessa área. E tem toda a razão.
As universidades estão cheias de cursos que, muito francamente, não se consegue perceber para que servem, para além da aquisição de conhecimentos, claro. Há ainda o pequeno detalhe de que há uns anos ter um curso superior era garantia de um bom emprego. Agora, com cada vez mais gente a formar-se, bom, estamos a chegar rapidamente a uma fase em que é quase como ter a quarta classe no tempo dos nossos avós...
O verdadeiro problema nesta área está nas expectativas que se criam aos jovens, quer tenham ou não estudos superiores. Há uns anos fizeram um estudo em França sobre jovens com o equivalente ao nosso liceu e porque razão tinham dificuldade em arranjar emprego. Pois bem, todos queriam trabalhar num escritório, apesar de, sem qualificações, irem receber um salário muito pequeno. E torciam o nariz a profissões “menos chiques”, apesar de pagarem melhor e terem mais hipóteses de evolução salarial.
E a nível de quem estuda mais é a mesma coisa. Quantos alunos têm dificuldades num curso de medicina e acabam por desistir, isto apesar da muito alta nota de admissão? Se querem trabalhar na área da saúde, pois bem, há cada vez mais necessidade de fisioterapeutas, por exemplo, sobretudo para cuidados paliativos. E muitas outras áreas onde ou falta pessoal ou até nem existem no nosso país e que, como o famoso envelhecimento da população, começam a ser cada vez mais necessárias.
A culpa nisto tudo não é dos jovens, claro, limitam-se a viver, ou a tirar proveito, da teoria de que as dificuldades são más e têm de ser evitadas a todo o custo. E o resultado está nos inúmeros jogos letais na Internet, como o Blue Whale.
A adolescência e os anos que se lhe seguem deviam ser uma época para correr riscos, para aprender, para experimentar. E sim, para conhecer as dificuldades da vida. Acham realmente que um jovem que nunca mexeu uma palha em casa, que sempre teve tudo o que exigiu, mesmo que a família passasse dificuldades para o conseguir, acham, repito, que está preparado para aguentar qualquer percalço, por muito pequeno que seja?
Vimos aliás o que aconteceu com o confinamento em que, apesar de terem Internet, jogos, contacto eletrónico com os amigos, muitos jovens ficaram com problemas psicológicos por não poderem sair e fazer a sua vida habitual. Se calhar até nem se lembrariam disso, mas as televisões encheram-se de especialistas a explicarem como é problemático ter aulas via Internet, isto para uma geração que vive praticamente nela, e como terem de ficar em casa é um trauma. Se eu fosse jovem e ouvisse isso dia após dia também teria problemas psicológicos.
Para terminar, um pequeno exemplo do problema que andamos a criar. Um tribunal de Guimarães deu uma pensão de alimentos a uma mulher que saiu de casa aos 21 anos porque não aguentava a miséria em que viviam e a mãe, uma operária viúva que ganha o salário mínimo, vai ter de lhe pagar 60 euros mensais até ela fazer 25 anos ou acabar o curso de técnica auxiliar médica – não sei porquê, suspeito que se concluirá a formação bem depois dessa idade... E muita sorte, a filhinha tinha pedido 200 euros, a 1ª instância deu-lhe 90 e a Relação reduziu para 60. Parece anedota? Leiam aqui: https://observador.pt/2022/05/23/operaria-com-salario-minimo-obrigada-a-pagar-pensao-de-alimentos-a-filha-que-saiu-de-casa/
Para a semana: Eutanásia salvará o SNS? – uma pergunta pertinente nos tempos que correm.
