3 - Deixem os bullies em paz
Primeiro, um pequeno esclarecimento. Para mim, cenas como aquela recente em que um rapaz foi atropelado quando fugia de um grupo de colegas da sua escola nada têm a ver com bullying, são violência pura e simples e deviam ser tratadas como tal. Ou seja, este texto refere-se apenas a bullying não físico.
Sempre que há um caso grave, surgem os inevitáveis especialistas com os seus comentários sobre possíveis causas e soluções, mas sempre virados para o bully ou bullies em questão. Na minha opinião de não “especialista”, essa é a abordagem errada. Sim, poderá resolver aquela situação pontual – apesar de o mais provável ser torná-la mais encoberta – mas não soluciona o problema da vítima ou vítimas. Estas continuarão à mercê do próximo bully e, acreditem, há sempre mais alguns no seu futuro.
Ou seja, o que devíamos fazer era fortificar possíveis vítimas, torná-las, digamos, “estanques” a futuros ataques.
Não estou a culpar a vítima, mas há pessoas mais atreitas a serem vítimas de bullying e isso tem menos a ver com as suas características e mais com a sua personalidade. Se um bully entrar numa sala com cem pessoas que nunca viu antes, em minutos vai direto à mais suscetível de ser uma sua vítima. É uma clara lei da atração...
E já agora, recordo que bullying não é algo que só acontece na infância e na adolescência. Há muito na vida adulta e bem mais sofisticado e difícil de ver como tal. É por isso que é importante trabalhar com as pessoas para que lhe sejam o mais indiferentes que lhes seja possível. É que se o bullying não resulta, o bully em questão parte em busca de uma nova vítima.
E falo por experiência própria! Em miúda (e não só) tinha tudo para ser uma típica vítima de bullying. Mas nunca o fui porque sempre tive um “defeito”: só ligo à opinião de meia dúzia de pessoas que respeito – e nem sempre em todas as áreas. Quanto às outras, é claramente um caso de “os cães ladram e a caravana passa.”
Tem de haver algo de muito errado no modo como criamos as crianças da nossa sociedade se estas ficam totalmente arrasadas caso lhes chamem gordas, baixas, estúpidas, enfim, os vários epítetos usados normalmente como armas de arremesso. Pior ainda, muitas vezes esse achincalhamento vem até de pessoas que não conhecem ou que conhecem apenas da Internet, que não sabem quem são ou o que valem. Mas o sacrossanto “dizem” sobrepõe-se a tudo e destrói-lhes totalmente a vida, um pouco de cada vez. Ou, no mínimo, prepara-as para uma vida adulta infeliz e cheia de complexos.
Fala-se muito em autoestima, mas, atendendo aos resultados, não passa de conversa fiada. Se levássemos isso a sério e imbuíssemos as crianças com ela, desde bem novinhas, haveria certamente muito menos bullying. E pessoas mais felizes.
Outro problema relativo a bullying está na indignação seletiva. Passo a explicar. Se um miúdo usar um termo racista em relação a outro – atenção, chamar branquelas ou algo assim a um branco não conta – ou se fizer uma referência depreciativa a ele ser homossexual ou transgénero ou disser algo certas religiões, cai-lhe este mundo e o outro em cima. Mas se tiver o cuidado de evitar estas situações, pode ser bully à vontade que nada acontece.
Ora as pessoas não são estúpidas, aprendem rapidamente com quem e com quê podem e não podem gozar.
Para além da autoestima, ou falta dela, temos ainda a questão de ser popular, de estar integrado, que lhe está diretamente ligada. Possivelmente por exemplo dos pais ou da sociedade em que se inserem, as crianças adquirem bem cedo a ânsia de estar no grupo popular, nem que para isso tenham de passar a ignorar e a insultar pessoas com quem sentem muito mais afinidades e, em muitos casos, de quem foram amigas durante anos. E isso prolonga-se pela idade adulta, muitos fazem literalmente tudo para não serem vistos como “estranhos”, como alguém à margem.
Ora um bully que se preze rodeia-se sempre de uma corte que o bajula e que repete tudo o que ele diz ou faz – ou que diz e faz coisas ainda mais graves. Se formos analisar casos recentes, descobrimos certamente que os piores ofensores foram precisamente membros mais secundários do grupo, os que têm de se esforçar mais para irem subindo na hierarquia.
E também aqui a falta de autoestima e de independência de pensamento é a grande culpada. É que os membros da dita corte não veem, ou fazem por não ver, que se hoje estão em alta amanhã poderão ser relegados para o papel de vítimas, à mercê da vontade caprichosa do rei bully.
É por isso que, repito, atacar o problema do lado dos bullies não resulta, exceto muito pontualmente e a curtíssimo prazo. Se quisermos acabar com o famigerado bullying ou pelo menos minorar as suas consequências, tratemos de eliminar possíveis vítimas dando-lhes a confiança para ignorarem insultos, bocas e tudo isso.
Sem vítimas, não há bullies! Deixem pois os bullies em paz e tratem é de impedir as pessoas de se verem como vítimas e de reagirem como tal.
Para a semana: Estou farta de arautos da desgraça – pois, refiro-me aos especialistas que nos entram porta dentro todos os dias...
