215 - O melhor para os nossos filhos
Este é, sem dúvida, um desejo de longa data de quem tem filhos. Infelizmente, durante séculos a sua concretização era praticamente impossível, quer por razões legais – o sistema rural medieval, por exemplo, com zero hipóteses de os filhos de um servo virem a ser algo diferente – quer pela pobreza vigente ou perturbações sociais. Mesmo assim tentava-se, colocando os filhos como aprendizes, por exemplo, ou juntando, pais e irmãos, todos os esforços para o “mais esperto” ir estudar.
A questão é que, passadas as muitas e dificílimas barreiras iniciais, o filhote tinha, de facto, uma vida melhor do que a dos pais, uma vez que ter uma profissão ou estudos era uma (quase) garantia de estabilidade financeira. Pequeno detalhe, o “beneficiado” com essa subida social sabia bem os esforços e sacrifícios, muitos deles feitos, até por si, que lhe tinham dado origem.
As coisas mudaram bastante nas últimas décadas e a um ritmo cada vez mais acelerado. O que pouco ou nada mudou foi essa vontade de dar aos filhos a tal vida melhor. Só que...
Para quem passou dificuldades económicas – e não eram poucas no Portugal de há umas décadas – a tal melhoria é vista em termos puramente financeiros, ou seja, uma casa melhor, mais dinheiro, etc. Tudo bem, é um objetivo bom... pelo menos à primeira vista. Ou seja, o problema não está nisso mas no modo como se age para lá chegar.
As criancinhas, por exemplo. Para muitos pais, que pouco ou nada tiveram em miúdos, o sonho é dar aos rebentos tudo e mais alguma coisa, para que “não passem pelas dificuldades que eu passei.” Mas isso tem vários efeitos adversos para o bem-estar futuro dos destinatários de tantas benesses. Habituando-se desde bem cedo a receberem tudo o que pedem – ou, em muitos casos, exigem – não dão valor a nada. É que, muito francamente, um brinquedo único e muito “namorado” sob a Árvore de Natal brilha bem mais do que um monte de coisas pedidas, muitas vezes, apenas porque passaram na televisão ou “toda a gente tem”.
E, embalados na ideia de que a bolsa dos pais é um saco sem fundo, se surgem problemas financeiros que exijam alguma contenção nas despesas, pois é, entram logo em depressão, como está na moda dizer-se, porque deixou de bastar abrirem a boca para receberem – atitude essa que muitos levam, com efeitos péssimos, para a idade adulta.
Há ainda um outro aspeto desta questão. Como parte do tal desejo de os filhos terem o que eles não tiveram, muitos pais escondem-lhes a realidade financeira da família porque “são demasiado novos para se preocuparem”. Penso que já contei o caso de uma turma do liceu, penso que do 10º ano ou ainda mais velhos, a quem pediram que dessem o preço de vários artigos. Pois bem, coisas como pão, leite, etc. foram tremendamente subestimadas, sendo um choque total descobrirem o seu preço real. Já jogos de computador... acertavam ao cêntimo.
Ou seja, para além de crescerem com a ideia de que basta abrir a boca para terem tudo o que querem, muitas crianças e jovens crescem totalmente alheios ao rendimento da respetiva família e às despesas mensais inevitáveis a que têm de fazer frente. Isto sem esquecer que muitas dessas despesas são prestações para pagar artigos que se calhar já nem usam ou, até, que já se estragaram.
Atenção, não digo que se façam os filhos passar dificuldades sem que haja, de facto, necessidade, acho é que se dá demasiada ênfase à parte material. O que será mais útil para uma vida melhor em adultos, satisfazerem-lhe todos os caprichos e mantê-los numa redoma estanque ou encorajar boas qualidades, o gosto pelo trabalho, o prazer de ter algo obtido pelo nosso esforço, só para citar algumas.
Não seria, também, melhor dar menos ênfase às coisas e mais ao tempo passado juntos e a atividades partilhadas? Isto não lhes daria uma bem maior estabilidade emocional, não seria, de facto, uma melhor base para se lançarem à descoberta do que os satisfaz, de facto? E, acima de tudo, demonstrar que “viver melhor” não se resume à parte económica, não faltam pessoas abastadas que vivem vidas miseráveis.
Há ainda a ênfase que muitas famílias dão a estudos universitários, não porque os filhotes gostem de estudar mas pela ideia, vinda de trás, de que ter um curso é uma garantia automática de uma vida melhor. Só que agora, quando todo o gato sapato, mais o papagaio e o cão, têm um, estes deixaram de ser o que eram há ainda bem pouco tempo. E em muitos casos, uma formação profissional ou um curso técnico dariam bem mais garantias de um futuro risonho – bom, se conseguirem encontrar onde o fazer...
Resumindo, em vez de pensarmos no futuro dos filhos meramente em termos materiais, dando-lhes tudo e mais alguma coisa, muitas vezes com graves consequências para o orçamento doméstico, seria bem melhor prepará-los para enfrentar a vida e tudo o que ela traz, de bom e de mau. Sem esquecer que, à velocidade com que o mundo muda atualmente, não há mesmo garantias de que o que é bom hoje, materialmente falando, o seja também amanhã.
E talvez assim não tivéssemos tantos jovens que, ao mínimo percalço que sofrem na vida, se vão totalmente abaixo e não fazem a menor ideia de como reagir, tendo crescido com a ideia de que o mundo lhes deve tudo e mais alguma coisa e que caso não possam satisfazer de imediato os seus caprichos... é o fim do mundo!
Para a semana: E o caricato continua. Mais alguns pequenos casos que até custa a crer que aconteçam.
