208 Analisemos as Autárquicas
Como não podia deixar de ser, hoje falarei das Eleições Autárquicas acabadinhas de acontecer.
Começo por dizer que estranhei ouvir dizer que temos 9 303 840 eleitores recenseados, isto numa população que varia, dependendo da fonte, entre 10,4 e 10,7 milhões de pessoas, número esse que, lembro, inclui menores de 18 anos e estrangeiros com residência legal no nosso país (muitos!). Francamente, parecem-me eleitores a mais. E sim, sei que os cadernos eleitorais foram limpos há pouco tempo e que, segundo parece, duas vezes por ano eliminam pessoas com 100 anos ou mais – espero que não às cegas, com o tão badalado “envelhecimento da população” há, certamente, pessoas vivas com essa idade e que têm todo o direito de votar.
Aliás, há estudos que estimam que o número de recenseados excede em cerca de 10 % o número de habitantes em idade de votar, mesmo assim bem abaixo dos cerca de 20 % da década de 1990. E isso afeta, certamente, os valores da abstenção – que poderão não ser tão elevados como surgem – e, mais importante ainda, a distribuição de mandatos com base no famigerado método de Hondt.
Passemos aos resultados em si.
Há uma característica das Eleições Autárquicas que sempre achei curiosa. E é muito simplesmente esta: se um partido dos “grandes” tem um mau resultado, não devemos misturar alhos com bugalhos, ou seja, Autárquicas e Legislativas são totalmente diferentes. Mas se o resultado é bom... já se sabe, passam a ser a mesma coisa!
E nestas Autárquicas vimos isso repetidamente, pela negativa e pela positiva, em relação a inúmeros partidos. Por exemplo, quando o PS disse que estava de volta. Ou a subida do CDS e da CDU – aqui para nós, acho que os autarcas que venceram essas Câmaras o fizeram APESAR de pertencerem a esses partidos...
E passamos, inevitavelmente, ao Chega. Acho que o seu líder sofreu da mesma confusão quando falou em 30 Câmaras. Mas nada que se compare aos “críticos” usuais e aos seus discursos sobre a derrota que sofreu. Deve ser uma nova definição do termo, estamos a falar de um partido com apenas 6 anos, que só concorreu a 2 Eleições Autárquicas e que passou de uns meros 9 vereadores a 3 Câmaras e 137 vereadores, fora os deputados municipais (637) e membros de Assembleias de Freguesia (1176).
Se isto é uma derrota, o que dizer do BE – zero eleitos por conta própria – e do PAN – a mesma coisa, algo que a sua líder considerou “um resultado modesto” – fora as perdas da CDU, claro.
Há um dado que não tenho conseguido encontrar, exceto quando se trata de maiorias absolutas, como Oeiras e Figueira da Foz. Muito simplesmente, ver, lado a lado, Câmara por Câmara, quem a ganhou e a composição da Assembleia Municipal. É que, infelizmente e como muito bem sabemos, se esta tem uma maioria da cor oposta, digamos, pode impedir o bom funcionamento da Câmara e a tomada de medidas importantes.
Veja-se, por exemplo, a afirmação dessa senhora Leitão de que iria fazer oposição cerrada a Moedas. O que os lisboetas gostariam de ouvir do segundo maior partido do país é que acatava o resultado do sufrágio e trabalharia afincadamente com Moedas para bem da cidade.
Mas isto diz tudo sobre os muitos e eternos problemas do nosso sistema eleitoral. Estamos cheios de “políticos profissionais” que põem, sempre, os interesses do seu partido à frente dos da região que os elegeu e que os sustenta. Daí aparecerem cada vez mais movimentos e partidos locais, sem falar nos candidatos independentes. E nos muitos presidentes de Câmaras e de Juntas de Freguesia eleitos por serem quem são e com base na obra feita em mandatos anteriores, independentemente do partido a que pertencem – daí o meu comentário acima sobre o CDS e a CDU.
É claro que os “comentadores” do costume embandeiraram em arco com o “regresso ao bipartidarismo”. Pois, esperem pelas próximas Legislativas e são capazes de terem uma surpresa, mais uma vez.
É que, como alguns apontam, e bem, nas Autárquicas muitos votam em partidos em que nem sonhariam votar para as Legislativas apenas porque viram que têm feito um bom trabalho. E em freguesias pequenas, em que muitos se conhecem, isso é ainda mais marcante, vota-se no senhor A ou na senhora B sem ligar a menor importância ao partido que representam oficialmente.
Pior ainda, num país em que o compadrio e as redes de favores continuam a imperar, não é nada fácil alterar toda uma situação altamente lesiva dos interesses dos governados e em que quem rema contra a maré partidária corre o sério risco de ser trucidado.
Mesmo assim, houve algumas mensagens claras por parte dos eleitores, como a maioria absoluta de Ricardo Leão – o da demolição das barracas – em Loures, apesar de ter sido tão criticado pelo partido que representava oficialmente e, acima de tudo, pelo inenarrável Costinha. Ou, de certo modo, Lisboa, onde há uma certa unanimidade em considerar que a aliança entre PS e BE foi a causa da derrota socialista na capital.
Como nota humorística final, não adoraram ouvir a Mortágua a esganiçar-se contra o Moedas e a prever-lhe a “derrota certa” quando o partido dela estava a ser arrasado? Pequeno detalhe, ouvi, por acaso, o Sousa Tavares – não estava a olhar para a TV, por isso não vi que era ele quem estava a falar ou teria mudado de canal – a dizer que ela deixara o seu Partido moribundo e que nestas eleições lhe tinha feito o enterro (estou a parafrasear). Confesso que fiquei em choque por concordar com algo que esse “senhor” disse.
Adorei, também, o discurso do líder do PCP que, nem sei bem porquê, li na íntegra. E a indignação de muita gentinha pelo tempo de antena dado ao Chega no pós-eleições, as mesmas pessoas que acham naturalíssimo apanharmos diariamente doses repetidas de políticos e comentadores do moribundo BE.
O pior é que nem podemos descansar da “politiquice”, já estamos em campanha para as Presidenciais...
Para a semana: Quando é que a Europa acorda? Cedências e decisões idiotas (a Palestina), a passividade perante provocações russas, estamos à espera de quê para começarmos a pensar em nós?
