227 - Censura mais uma vez
Falou-se muito, nos últimos tempos, em vedar o acesso às redes sociais a menores de 16 anos com a intenção manifesta de os proteger. Ora na minha opinião qualquer tentativa neste sentido é absurda, inútil e, se devidamente analisada, perigosa.
Vamos por partes, começando pelo inútil.
Será que os proponentes desta ideia acham mesmo que os jovens vão-se deixar ficar fora do que é, para muitos, o seu mundo real? Ou estarão a esquecer-se de que se trata de uma geração muitíssimo habituada a um certo tipo de tecnologia e que se o caminho direto lhes for vedado encontram rapidamente outro?
Há a ideia bem antiga de que os criminosos estão sempre um passo à frente das forças da ordem em termos de ferramentas e novos tipos de crime. E com a enorme quantidade e variedade de cibercrimes que assolam a sociedade atual, será uma proibição de acesso funciona? A China e a Coreia do Norte, essas boas democracias, têm-no tentado. Ou antes, fizeram até algo à partida mais fácil de implementar, impedir o acesso à Internet. Pois... não resultou. Sim, as grandes massas estão cortadas dela, mas há sempre quem lhe consiga aceder.
Resumindo, é pior do que “tapar o sol com uma peneira”.
Passando ao absurdo, não é estranho que, face ao conteúdo de vários programas televisivos muito populares, o perigo esteja só nas redes sociais? E já prestaram atenção às letras de muitas músicas muitíssimo na moda, sobretudo as de rappers?
Atenção, não estou a propor que se corte o acesso de jovens a tudo e mais alguma coisa, acho apenas curiosa esta dualidade de critérios.
Passando ao lado perigoso desta tentativa, começo por lembrar que não é a primeira que surge. Houve há bem pouco tempo a ideia espetacular de proibir as chamadas “fake news”, tentativa essa que soçobrou logo à partida quando foi preciso definir o que isso era e, sobretudo, quem decidiria que uma notícia era ou não falsa – pois, parece simples, ou é verdade ou não é, infelizmente a realidade em que vivemos é bem diferente, se for contra algum ódio de estimação vale tudo, mas se o visado for alguém da estima dos iluminados usuais, então é logo visto como falso.
A ideia subjacente, dizem, é proteger os jovens dos perigos das redes sociais, dando-se inúmeros exemplos de casos graves, alguns até fatais. Mas... será que essa proteção compete ao Estado? Bom, partindo do princípio que funciona, repito, em menos de nada surgiriam dúzias de substitutos das redes sociais sujeitas a restrições e essas, sim, totalmente desreguladas.
Acho estranhíssimo que esta ideia de proibir venha da esquerda – bom, estou a ser irónica, claro. Não seria bem melhor educar, tanto os jovens como as famílias e outros educadores? Mais ainda, sempre achei que a educação dos filhos deve pertencer à família, ao Estado compete o ensino – sim, são diferentes.
E sou totalmente contra o acesso livre e descontrolado de crianças à Internet, quer sejam redes sociais ou outros sites. É claro que muitos pais estão a quilómetros dos filhos em termos de saber usá-la, daí eu ter falado em educação também para os adultos. Mas muito francamente, se dão a miúdos de 7 ou 8 anos, ou ainda mais pequenos, telemóveis com todas as funcionalidades e mais alguma, estão à espera de quê? Contenção nessas idades?
Mas a principal ênfase da tal educação deveria estar em ensinar a resistir a pressões vindas de pessoas ou grupos que, muitas vezes, até nem conhecem e de quem nada sabem. Sempre me meteu confusão a popularidade de alguns desafios que alastram rapidamente e que são, no mínimo, estúpidos, sendo, até, muitas vezes, perigosíssimos. Porque será que tantos alinham, sabendo à partida que podem estar a arriscar a vida? Incluo também aqui as “proezas” cada vez mais idiotas e arriscadas feitas apenas para conseguir “likes”.
E há um outro elemento nesta proposta que é, de facto, um verdadeiro cavalo de Troia para os donos da verdade conseguiram o seu maior desejo, a eliminação de todas as ideias e discursos de que discordam.
Já pensaram como é que uma rede social “sabe” que quem lhe está a aceder tem mais de 16 anos? Pois, usando um documento de identificação – caso vá para a frente, prevejo mais um negócio muitíssimo lucrativo saído de uma proibição feita, dizem, com boas intenções.
Ou seja, qualquer um de nós que queira continuar a aceder às suas redes sociais tem de apresentar um documento de identificação oficial. Dir-me-ão, a solução é fácil, não vamos às ditas. Pois, daí isto ser um cavalo de Troia, é que, uma vez implementado este sistema, o mais provável é ser alargado a toda a Internet para evitar que as pessoas, coitadinhas, acedam a conteúdos nocivos...
Se esta proposta tivesse sido feita por alguém da chamada direita, ou, pior ainda, extrema-direita, já estariam todos a berrar censura e a evocar o Salazar, o fascismo e sabe-se lá que mais. Mas como foi o Sánchez, esse “bom rapaz” socialista, então está tudo bem, só se opõe quem não é boa gente.
O mais giro é que muitos dos que aplaudem fartaram-se de vociferar quando se propôs proibir a presença de telemóveis nas salas de aulas. Pois, é claro que as criancinhas só os usam ali para tirar dúvidas da matéria que está a ser lecionada...
Se a intenção é, de facto, proteger as crianças e jovens, então a chave está na educação e não na proibição. Mas atendendo ao historial recente de tentativas similares de proibir elementos da Internet, sempre a bem das pessoas, claro, fico com grandes dúvidas! Sobretudo por vir e ser aplaudida pelos do costume, para quem banir opiniões que acham “erradas” é mais do que legítimo, só é censura se for contra eles.
Já agora, fala-se sempre tanto da censura no Estado Novo, será que há algum estudo sobre a censura – e houve-a e de que maneira – nos anos imediatamente a seguir ao 25 de abril?
Para a semana: Novo Presidente e não só A tomada de posse de Seguro e outros assuntos atuais
