223 - E continuamos na mesma
Por razões óbvias, decidi alterar o tema desta semana, até porque ainda dá tempo para falar da segunda volta das eleições presidenciais antes da data da sua realização.
Começo por dizer que as minhas críticas não se dirigem ao “antes” da chegada da tempestade Kristin. Talvez se tenha subestimado um pouco a sua intensidade – afinal parece que foi um ciclone de categoria 3 – mas pouquíssimo ou nada se poderia ter feito para minorar o seu impacto.
O problema, como sempre, esteve no “depois”, altura em que constatámos, mais uma vez, não estarmos preparados para nenhum desastre natural, como tempestades, incêndios, sismos, ou não natural, um apagão, por exemplo.
E não estou a criticar bombeiros, GNR e outras forças locais que se esforçaram ao máximo para acudir ao máximo possível de situações.
Comecemos pela declaração de calamidade pública que surgiu apenas 30 horas depois, isto apesar de se saber desde os primeiros instantes que a situação era gravíssima em várias zonas do país. Para quem não o sabe ou já não se recorda, aqui fica o que implica essa declaração, prevista na Lei de Bases da Proteção Civil:
- a mobilização de pessoas por um determinado período de tempo;
- restrições ou condicionamentos à circulação de pessoas;
- fixação de cercas sanitárias e de segurança;
- constrangimentos / limites ao uso de serviços de transportes públicos, comunicações e abastecimento de água e energia, assim como ao acesso de bens de primeira necessidade.
A declaração da situação de calamidade "legitima o livre acesso dos agentes de proteção civil à propriedade privada, na área abrangida, bem como a utilização de recursos naturais ou energéticos privados, na medida do estritamente necessário para a realização das ações destinadas a repor a normalidade das condições de vida", estipula a lei.
Para mim, um dos pontos mais importantes seria o primeiro, “a mobilização de pessoas”. Era óbvio, repito, desde os primeiros instantes que a situação era gravíssima e que iriam faltar, necessariamente, meios para lhe fazer frente. Sendo assim, porque não usar os disponíveis e parados, como o Exército? Sim, sei que em certas zonas os militares estiveram presentes para ajudar, possivelmente por ser a sua área – lembro que a Base de Monte Real foi muito afetada e os militares aí residentes foram ajudar a Marinha Grande.
Mas foram exceções. Ouvimos falar em povoações isoladas por a estrada de acesso ter abatido e de que se desconhecia a situação. Será que a Engenharia Militar já não existe? As nossas Forças Armadas não têm meios de ultrapassar esse tipo de obstáculos para se poder chegar a essas pessoas?
Vimos, também, mais uma vez populares a tentarem cortar árvores que impediam a circulação, a tentarem fazer arranjos improvisados em telhados arrancados, enfim, a arriscarem-se, muitas vezes, para tentarem melhorar um bocadinho a situação em que se viam. Houve pedidos para lonas e similares para cobrirem telhados até haver hipótese de os arranjar, mas sem que se olhasse para a questão de quem as iria colocar. Mais uma vez, que tal enviar os nossos muitos soldados e respetivo equipamento para resolver essa questão?
Como temos ouvido, há muitas zonas sem água nem luz. E atendendo aos muitos postes de alta tensão que vimos partidos e que não são fáceis de substituir, é um problema que não terá uma solução em breve, pelo menos se usarmos modos convencionais de pensar. A questão da água está, segundo sei, a ser resolvida graças a geradores para manterem as bombas a funcionar, mas, mais uma vez, esta solução é lenta e não abrange todos.
E como não poderia deixar de ser, há roubos nas zonas afetadas, o que leva muitos a temerem deixar as suas casas ou empresas, por muito mau que seja o seu estado. O problema é que não há polícias em quantidade suficiente para ajudarem quem precisa e, ao mesmo tempo, patrulharem zonas enormes.
Quanto às comunicações... bom, as redes de telemóvel irem abaixo, tudo bem, é normal numa situação destas. Mas o abençoado SIRESP voltou a “brilhar” – pela negativa, claro. Como isto tem acontecido sempre que é necessário, não será altura de lhe arranjar uma alternativa, senão plena pelo menos temporária? Por exemplo, fornecer às juntas de freguesia telefones por satélite para que os residentes da zona possam contactar os serviços de emergência caso deles necessitem. E, porque não, serem o ponto de contacto entre familiares, recebendo e enviando mensagens. O mesmo para chefes de bombeiros e outras entidades no terreno, a serem usados quando tudo o mais falha.
Sei que temos a Proteção Civil – e falarei dela mais em detalhe num outro post – mas não faltará um organismo de cúpula que estude cenários de catástrofe de todos os tipos e as opções possíveis para minorar o sofrimento dos afetados por elas? Poderiam usar como modelo o que os Ministérios da Defesa de vários países fazem para situações militares ou o que vemos, por exemplo, em séries americanas passadas em hospitais em que há “calhamaços” com o que fazer em inúmeras situações anormais. É claro que esses cenários de nada servirão caso fiquem “no segredo dos deuses”, devendo, isso sim, ser entregues às diversas entidades chamadas a responder no terreno.
Nota final, o chamado “aproveitamento político” e a ação dos nossos governantes. Não me incomoda nada Primeiro-ministro e Ministros não terem ido logo às zonas afetadas, muito francamente, essas visitas pouca utilidade têm e transtornam, até, muitas vezes o desenrolar das operações. Seria bem mais útil vermos provas de que estão a trabalhar no assunto, a analisar cenários, a tomar decisões – e levar 30 horas a decretar calamidade pública é tudo menos isso...
Quanto aos dois candidatos presidenciais, fica-me a dúvida: se não tivessem aparecido, qual seria a reação da comunicação social? Aposto que choveriam críticas à sua “indiferença”. E, pequeno detalhe, não acharam curioso ver o senhor de Belém a elogiar a atuação de Montenegro? Não sei bem porquê, fiquei com a ideia de que só o fez para mostrar que está contra o candidato – sabem a quem me refiro – que tinha criticado o nosso PM...
Para a semana: Presidenciais e outros temas políticos Apoios e ações para a segunda volta e outros assuntos da atualidade
