197 - Perceção e realidade
Face a alguns acontecimentos recentes dentro e fora do nosso país decidi alterar o tema desta semana. A questão é, mais uma vez, não os factos em si mas o modo como os “bem-pensantes” do nosso país e não só os veem e, pior ainda, os tentam “explicar” a nós, pobres mortais que não temos a sorte de sermos uns iluminados como eles.
Comecemos por Múrcia. Os factos são bem simples, após meses – ou mais – de assaltos, agressões, violações e assédios de todos os tipos, deu-se o brutal espancamento de um idoso por um ou mais magrebinos que, ainda por cima, orgulhosos desse seu ato de “coragem”, pespegaram com tudo no YouTube.
Fartos de verem as suas queixas ignoradas pelas autoridades e perante esta última ação de pura selvajaria, a população foi para as ruas no que foi prontamente apelidado de “caça aos imigrantes” ou caça aos “magrebinos”.
Escusado será dizer que a polícia, que nada fizera nos muitos casos anteriores, veio prontamente para a rua armada até aos dentes para deter esses perigosos meliantes – os que protestavam, entenda-se. Aliás, muito à semelhança do que se passou no nosso Martim Moniz onde um grupo, farto da impunidade com que alguns dos “tão esforçados” imigrantes da zona cometiam todo o tipo de dislates, atacou o apartamento de um grupo deles, sendo prontamente identificados e presos. Pequeno aparte, já repararam que nunca mais se falou disso? Será que as pobres vítimas desse suposto ataque xenófobo não eram afinal tão inocentes como diziam?
Voltando a Múrcia, é claro que tudo o que se passou foi culpa da extrema-direita. Vi, até, um “comentador” numa das nossas televisões dizer, com ar de quem se considera tremendamente moderado, “Bom, acredito que muitos dos que foram para a rua até nem são da extrema-direita, mas são certamente de direita, conservadores...” Não, senhor comentador, se calhar até são de esquerda ou nem nunca pensaram em política, são, isso sim, pura e simplesmente, cidadãos normais fartos de se sentirem estrangeiros na sua própria terra e de mal ousarem sair de casa com medo do que lhes possa acontecer.
Perante as reações a que assistimos de jornalistas, comentadores e políticos, enfim, a fauna do costume, é de espantar que muitos se comecem a virar para a suposta extrema-direita? É que, muito francamente, são os únicos que os ouvem e que prestam atenção aos seus problemas.
O que me leva à segunda questão, a demolição de um bairro clandestino em Loures. Quem ouça os comentários tecidos em torno desse acontecimento fica com a ideia de que qualquer pessoa pode chegar a Portugal, desde que não seja branca, entenda-se, construir uma barraca mal amanhada no primeiro sítio que lhe aparecer e pronto, fica logo com direito a casa!
Pior ainda, tentaram passar a mensagem, pelo menos nos primeiros dias, de que os “coitadinhos” tinham sido apanhados desprevenidos e que nada sabiam da demolição iminente – curiosamente, tinham esvaziado as barracas...
Ora há um dado curioso nesta situação. Segundo dados da Câmara de Loures havia em março deste ano umas cinquenta e poucas barracas naquele bairro, cujos moradores foram identificados e avisados da demolição. Mas em junho já tinham aparecido mais cento e cinquenta e tal barracas novas! É claro que isto só espanta quem vive na bolha, ou antes, no universo paralelo dos “bem-pensantes”, acontece sempre que se sabe que um bairro clandestino vai ser demolido e os seus moradores realojados – é logo um sinal para o número de barracas aumentar de um modo de fazer inveja ao milagre da multiplicação dos pães.
A única coisa que me espantou em todo este cenário foi ouvir o presidente da Câmara de Loures que, lembro, é socialista, dizer, e estou a parafrasear, “não se podem dar as coisas a quem simplesmente berra mais alto”. A sério, se votasse nessa área, tinha o meu voto!
Bom, houve uma outra coisa que me causou estranheza, o que é que a Amnistia Internacional tem a ver com este caso? Curioso, não é, na Síria matam-se cristãos num verdadeiro genocídio, agora estendido aos drusos (sim, também são cristão, mas é uma vertente muito específica deles) e nem piam. Umas barracas são demolidas em Portugal e querem explicações?
Última questão, esta relativa à liberdade de opinião. Começo, claro, pelo caso da Joana Marques e os Anjos. Não vou tomar partido, nem sabia quem ela era, mas à força de ouvir chamar-lhe “grande humorista” fiz questão de ver umas coisinhas. E se aquilo é humor... Mas a questão é esta, se ela tivesse feito “humor” com causas queridas da esquerda, transgéneros, por exemplo, ou gozado com pessoas como as Manas Metralha – perdão, Mortágua – acham que os mesmos viriam em defesa dela e da tão badalada e apregoada – quando convém, claro – liberdade de expressão?
Acho que todos sabemos a resposta, atendendo, até, ao que aconteceu esta semana na Assembleia da República com um deputado do PS a dizer que tinha vergonha do presidente da dita por o ter advertido por ter chamado fanfarrão ao Ventura. Imaginemos agora que tinha sido o Ventura a chamar qualquer coisa, por muito inócua que fosse, a um deputado da esquerda... Pois, nesse caso bradariam que uma simples advertência era pouco, devia era ser expulso!
Pois é, perante tudo isto e milhentos outros casos similares, fica-me a ideia de que a fenda entre perceção e realidade de quem tenta mandar e formar opiniões, os tais “Donos da Verdade”, está a degenerar a passos largos para um abismo rival da Fossa das Marianas!
Para a semana: Protegemos mesmo as crianças? Com o choro e ranger de dentes a que assistimos recentemente, é altura de fazer esta pergunta.
