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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

07
Jun24

139 - Os apoios da cultura

Luísa

Ouvimos continuamente dizer que “faltam apoios à cultura” ou que “a cultura devia ser mais protegida”. O problema, para mim, é que quando ouço isto faço imediatamente a pergunta: que cultura? E se acham que é algo descabido, façam uma pequena experiência, tentem definir esse termo. Pois é...

É claro que fica implícito que cultura é apenas o que a nossa “elite cultural” decide que o é. Veja-se o que se passou com duas esculturas que a Câmara de Lisboa pôs no Largo do Município e que tiveram direito a um abaixo assinado de inúmeras “luminárias” a exigir que fossem retiradas porque lhes faltava qualidade e constituíam poluição visual! E o monumento no topo do Parque Eduardo VII é ótimo?

O problema é que esta atitude de Donos da Cultura (DDC) – não confundir com Donos da Verdade (DDV), embora muitas vezes sejam os mesmos – se estende a todas as outras áreas da dita cultura e tem subjacente a ideia de que se os portugueses não frequentam certos espetáculos ou espaços é porque são incultos e ignorantes e as suas ideias devem ser ignoradas. Mas não os seus impostos, bem entendido.

Veja-se o teatro. Já repararam no disparate que é o horário dos espetáculos para o estilo de vida atual? Sim, antigamente funcionava muito bem. É que dava perfeitamente para as pessoas saírem do emprego, irem a casa jantar e mudar de roupa – pois é, ia-se ao teatro “bem vestido” – e voltar a sair para o teatro. Mas agora, entre o trânsito e a distância cada vez maior a que muitos vivem do emprego, a única solução é deambularem a esmo até às 21, quando o espetáculo começa. E deitarem-se tardíssimo, o que não se coaduna com terem de se levantar cedo para chegarem a horas ao trabalho.

Curiosamente, em Londres e Nova Iorque muitos espetáculos começam às 19h30, terminando, pois, a uma hora decente para os seus frequentadores irem para casa e terem umas boas horas de sono. Mas, ei, são só duas grandes capitais, nada que valha a pena seguir!

E, é claro, os senhores do teatro fazem apenas peças a seu gosto e se os “pategos” dos portugueses não gostarem, azar. E não lhes ocorre irem encenando peças mais populares, digamos, para atrair as pessoas que os sustentam, pelo menos parcialmente, com os seus impostos, mais ainda, para lhes irem despertando o gosto pelo teatro.

Outra questão que me intriga na área teatral é as companhias estarem “de pedra e cal” na cidade onde se instalaram. Nos EUA há o chamado “summer stock”, basicamente teatro de verão, que também existia no Reino Unido – francamente, não sei se se mantém tal como era, mas sei que há uma versão de teatro ao ar livre em Londres e noutras cidades durante o verão.

Basicamente, uma companhia de teatro escolhia peças que pudessem ser feitas com poucos atores e pouquíssimos cenários, metiam tudo numa ou mais carrinhas e passavam o verão a percorrer o país, parando em pequenas vilas onde atuavam em celeiros, ginásios, ao ar livre, enfim, onde houvesse espaço.

Muitos atores consagrados passaram por isto e consideraram-no uma boa aprendizagem, até porque não se limitavam a atuar, tinham de ajudar com cenários, guarda-roupa, iluminação, tudo. E para muitos nessas terras pequenas era a sua primeira introdução às artes teatrais. Já agora, as peças também eram escolhidas de modo a terem boas hipóteses de agradarem a pessoas com pouco ou nenhum contacto com esta arte. E, apesar de os bilhetes serem baratos, conseguiam, em geral, mais do que o suficiente para pagarem as despesas e ainda terem um pequeno lucro.

Não acham que algo semelhante faria bem mais pela divulgação e futuro do teatro em Portugal do que a mão eternamente estendida à espera de “ajudas”? Sem contar que levaria às tais populações do interior, tão lastimadas, quando convém, pelo seu abandono e isolamento, uma amostra do que os seus impostos sustentam.

Quanto aos museus estatais, proponho duas coisas. Primeiro, definir o seu orçamento para três ou quatro anos, e não ano a ano como atualmente. Poderiam, assim, planear a tempo e horas exposições temporárias e outras ações que os tornariam mais interessantes para visitas repetidas em vez de em cima do joelho como muitos são forçados a fazê-lo agora.

Segundo, exigir uma gestão como deve ser do que possa gerar dinheiro nesse museu. Durante uns tempos ia com frequência ao Museu de Arte Antiga de Lisboa por causa das suas exposições temporárias e terminava sempre na loja para ver se havia algo que me interessasse. Pois bem, os postais com imagens dos Painéis de Santo Antão estavam quase sempre esgotados, apesar de serem o artigo mais pedido pelos seus inúmeros visitantes!

Acho, também, que é mais do que tempo de expor os muitos interesses ocultos dos tais DDC. Falo por mim, claro, mas estou farta de os ver dizer que “isto é cultura e deve ser apoiado” ou a denegrir o que não é feito por eles e pelos seus apaniguados. E se estão tão preocupados com a “ignorância” e “mau gosto” das pessoas da província, como se costumava dizer, que tal saírem das grandes cidades, pelo menos de vez em quando, para espalharem as benesses da sua superioridade?

O mais giro é que toda esta questão dos apoios não se fica apenas por coisas mais óbvias como museus, teatros e uma certa música e dança – os audiovisuais são outro assunto de que falarei um dia destes. Não! Já ouvi até dizer que devia haver apoios para escritores. Hum... como é que se define quem é escritor? Ter uns manuscritos inacabados na gaveta? Ter obra publicada? Bom, em qualquer dos casos, também eu tenho direito a uma ajudinha... venha ela!

Para a semana: Falemos da Europa. A propósito das recentes eleições para o Parlamento Europeu

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