134 - Só alguns são trabalhadores...
A minha vinda definitiva para Portugal deu-se no início dos anos 80, apesar de ter passado anteriormente dois anos neste país, a partir de 76 / 77, mas como estudante. Como sempre faço quando mudo de país, dediquei-me a ler jornais de fio a pavio e a ver o máximo de noticiários – bom, na altura só existia a RTP – para tentar perceber o que se passava no meu novo lar.
E uma das coisas que me chamou de imediato a atenção foi o número de greves e protestos laborais, era rara a semana em que não houvesse pelo menos um desses acontecimentos. E posso garantir-vos que tentei, muito a sério, entender o que se passava e o que pretendiam, até porque tinha lido bastante sobre sindicalismo.
Houve várias coisas que me chocaram, digamos, sendo a principal o enfeudamento – sim, é o termo correto – da maioria esmagadora dos sindicatos a partidos políticos, sobretudo de esquerda. E também, provavelmente por influência destes, as votações de braço no ar, com a inevitável pressão para “ir na onda” com o que quer que a respetiva direção quisesse.
Mas aquilo que mais me intrigou foi o modo como usavam o termo “trabalhador”. Ouvindo-os, acabei por chegar à conclusão de quem trabalhava por conta própria ou até mesmo quem o fazia por conta de outrem, mas sem ser sindicalizado, não entrava nessa definição.
Infelizmente, esse foi uma dos conceitos que perdurou até hoje.
Por exemplo, quando “especialistas” – e se costumam ler-me sabem porque usei aspas – afirmam que se pode pôr o funcionalismo público com a semana de quatro dias porque isso não trará grandes contratempos financeiros. Espantoso! É esse o único critério? Pelos vistos, é, pelo menos para os ditos e também para os sindicatos.
Mas... e o resto da população, a tal que não tem direito a um dia por mês para tratar de assuntos? Se com cinco dias já é complicado resolver as coisas, imagine-se como será em quatro! Mas tudo bem, na maior parte dos casos não entram na definição de “trabalhador”.
À parte tudo isto, já repararam que a definição de trabalho e de emprego têm evoluído imenso em todo o mundo Ocidental mas que para muitos dos nossos partidos – e sindicatos – continua tudo na mesma? E que, por defeito profissional ou por nunca terem trabalhado, como acontece com muitos dos nossos políticos, não fazem a menor ideia do que se passa o mundo real?
Por exemplo, durante a pandemia, em que as empresas que o podiam fazer optaram pelo trabalho à distância, só ouvimos falar de problemas, na maior parte inexistentes exceto nas suas cabecinhas. Basicamente, era uma desgraça a ser evitada a todo o custo porque trabalho a sério só é num local de trabalho de betão e aço, com horários a cumprir e rodeado dos restantes trabalhadores.
Hum... porque será que suspeito que muitos dos abrangidos só não ficaram nessa opção após a pandemia porque não lhes foi proposta? É que a tendência mundo fora é haver cada vez mais pessoas a escolherem trabalhar em casa, até mesmo em tarefas que à partida se poderia julgar serem inadequadas para tal. E fazem-no por vontade própria e com grande satisfação pessoal e profissional, tanto deles como de quem os contrata.
Mas políticos, sindicatos e até muitos patrões continuam parados no tempo, pior ainda, muitos trabalhadores, no sentido amplo do termo, também, não tentando, sequer, explorar outro modo de fazerem o que fazem ou, até, de passarem a fazer outra coisa, o mundo atual está cheio de possibilidades para quem não está agarrado à ideia do “emprego para a vida”.
E sim, estou ciente de que ainda há muitos portugueses sem habilitações para muitos destes empregos, mas, em vez de choradinhos, que tal possibilitar-lhes uma mudança de rumo? A começar logo no ensino obrigatório, aposto que muitos dos alunos nem sequer fazem ideia deste tipo de opções, a menos que conheçam alguém a trabalhar deste modo.
E como um dado recente diz que os patrões portugueses são dos menos qualificados da UE, que tal fazer ações educativas que os tenham como alvo? É que este novo mundo é algo verdadeiramente assustador para muitos deles, de tal modo que nem tentam começar a conhecê-lo ou às vantagens, muitas delas financeiras, que lhes poderia trazer.
Há ainda um outro aspeto, o chamado trabalho precário. Diga-se de passagem que, tantos anos depois da minha chegada a Portugal, esta expressão ainda me faz imensa confusão. É que nunca entendi como pode ser o sonho de um jovem entrar para uma empresa – ou para o Estado – onde ficará, muito quietinho, até à Reforma e a fazer, de preferência, praticamente sempre a mesma coisa.
Se fosse essa a minha perspetiva de vida, garanto-vos que entraria em depressão profunda. Sim, trabalho há muitos anos como freelancer na mesma área, mas apenas porque o que faço é suficientemente variado para não se tornar rotina. E sim, não tenho um salário garantido ao fim do mês, mais o resto das regalias que muitos parecem ver com o Bem Supremo, mas posso trabalhar à minha vontade.
E não sou a única, é que trabalhar por conta própria está a tornar-se uma opção cada vez mais popular, sobretudo aliada ao uso de novas tecnologias. É que se pode ser, até, um chamado nómada digital, ou seja, alguém que anda a viajar, parando uns tempos em cada local, mas mantendo-se a trabalhar a maior parte do tempo. Há cada vez mais profissões e trabalhos em que não interessa onde estamos, desde que haja uma boa ligação à Internet, o que importa a quem nos contrata é que as tarefas sejam cumpridas.
Ora aqui está uma boa opção para as aldeias desertificadas, torná-las apelativas para esta nova onda de trabalhadores à distância, em muitos casos bastava garantir a tal boa ligação à Internet que o resto iria aparecendo.
Só que, para quem manda na política e para os sindicatos, todas estas pessoas não têm direito pleno ao nome de trabalhador...
Para a semana: Em vez de... Sugestões de opções para alguns problemas atuais
