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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

09
Dez22

62 - É preciso é anunciar!

Luísa

Não é novidade para ninguém que o país padece de gravíssimo problemas, a começar pelos famosíssimos “problemas estruturais” de que ouvimos falar há décadas, mais a ainda mais célebre promessa de que é desta que os irão resolver. Pois...

Perante este cenário, seria de pensar que governos que zelam pelo povo, segundo dizem, tenham já atacado pelo menos um ou dois, talvez os mais leves, digamos, para começar de mansinho. Pura ilusão!

Assistimos, isso sim, quase todas as semanas, ao anúncio de um projeto grandioso, “o maior de sempre em Portugal”, em variadíssimas áreas. Só para citar os mais recentes, temos a compra de umas centenas de carruagens para multiplica a oferta dos transportes ferroviários, o anúncio de que todo o país irá ter uma rede de comboios de alta velocidade, o malfadado novo aeroporto de Lisboa, enfim, obras grandiosíssimas que nos iam projetar à velocidade de um foguetão para a modernidade, o projeto de drenagem de Lisboa para evitar as cheias, que será, mais uma vez, “o maior de sempre em Portugal”...

Curiosamente, o anúncio das novas carruagens repete-se periodicamente e sob duas formas, “vamos comprar” e “comprámos” (este mais frequente) – mas, vendo os factos, ou a entrega está atrasadíssima ou “o cheque está no correio”.

O mesmo se passa com todos os outros anúncios grandiloquentes. Lembram-se da criação de 120 mil postos de trabalho? Das casas de renda acessível? Dos apoios para acabar com a também muito célebre desertificação do interior?

É claro que este sistema tem várias vantagens. A primeira, bom, dá logo uma imagem de que o Governo está a agir, tem projetos e ideias. E não umas ideias comezinhas, não, são só coisas que irão mudar totalmente a face do país.

Depois, e como os políticos estão bem cientes de que o povo tem a memória curta e, se forem da cor política correta, os jornalistas também, podem repetir a mesma promessa / anúncio algumas vezes – vejas as tais carruagens acima mencionadas.

Mas a vantagem maior é outra. Como há planos para um projeto grandioso numa certa área, é óbvio que não vale a pena ir remendando, por assim dizer, o que já existe, uma vez que vai ser substituído.

Como as linhas férreas. Não funcionam ou funcionam mal? Bom, como se vão criar linhas de alta velocidade em todo o país, seria um desperdício gastar dinheiro a melhorar o que já está feito, quanto muito vai-se dando um jeitinho aqui e ali se for mesmo indispensável.

Aliás, foi isto que me levou há anos a pensar que não havia grande vontade de fazer um novo aeroporto de Lisboa. É que precisamente quando o projeto foi anunciado, com a pompa e circunstância usuais, começaram obras de ampliação e de modernização da atual estrutura...

E este estado de não fazer nada porque vem aí algo novo pode durar anos, décadas, até. É que um projeto tão complexo e abrangente não se faz do dia para a noite, são precisos estudos de viabilidade, estudos ambientais, estudos disto e daquilo, projeções, projetos e projetinhos, tudo isto a sair-nos do bolso – e de que maneira! – sem que se veja qualquer resultado prático.

Não acreditam? Quanto já foi gasto com o novo aeroporto? Quantos anos já se passaram desde que foi anunciado? E temos algo de concreto? Não, nem sequer a sua localização.

O mesmo se passa com a tal rede de alta velocidade. Não seria bem mais prático criar já uma linha a ligar Sines a Espanha? Com o engarrafamento que há atualmente no Estreito de Gibraltar, muitos navios passariam a descarregar no Porto de Sines, seguindo depois os contentores de comboio para a Europa. Era dinheiro que entrava no nosso país e era bom para o ambiente!

Já agora, sabiam que o Alfa é um comboio de alta velocidade? Sim, não é um TGV, mas excede os 200 km/hora, por isso tem essa qualificação. O seu único problema é a atual linha férrea, que não lhe permite velocidades dessas na maior parte do trajeto. Por isso repito, em vez de criar uma rede nova, que tal corrigir a atual para permitir a alta velocidade em todo o seu curso? Além do mais, onde é que tencionam meter a nova linha?

Sim, há coisas que têm de ser planeadas no todo antes de se poderem iniciar as obras – como a drenagem de Lisboa. Mas isso não significa passar anos a acertar todos os pontinhos antes de fazer alguma coisa. É bem possível ter uma visão geral do que vai ser feito e começar o mais depressa possível a projetar em detalhe um dos seus componentes.

Voltando ao aeroporto, o mais urgente seria decidir a sua localização e, acima de tudo, de que tipo será: substituo da Portela, complemento do atual... E como irá precisar de uma ligação rápida a Lisboa, mal se decida o lugar onde irá ser implementado, pode-se começar logo com as vias de acesso que, quanto mais não seja, irão servir as populações que, inevitavelmente, para aí se mudarão.

Mas é este o país que temos, não é preciso fazer, basta anunciar que se vai fazer. E quanto maior for o aparato do anúncio e a sua abrangência, melhor é. Espero a qualquer momento ouvir anunciar um plano de construção de habitação barata a 100 anos!

Para semana: A propósito da eutanásia. Quer tenha sido ou não aprovada, é altura de voltar a este assunto

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