65 - Resoluções, resoluções...
Não consegui resistir à tentação de ser “Maria vai com as outras” e dedicar um post a resoluções de Ano Novo. A diferença é que a maior parte do que digo aqui difere bastante do usual.
Ora vejamos. Mal se aproxima a viragem do ano, muitos de nós começamos a pensar, cheios de entusiasmo, para o ano é que vai ser, farei isto e aquilo, é agora! E a fazer listas cada vez mais longas, mentais ou escritas, do muito que vai mudar na nossa vida.
Infelizmente, essas boas intenções duram quase sempre uns meros dias ou até menos, às vezes no dia 1 já nada fazemos e no dia 2 e seguintes também não porque “falhei um dia, já não vale a pena”.
O post do último domingo do meu outro blogue, Ir para novo, tratava precisamente disso. Chama-se Resoluções de Ano Novo e é um pouco para todos. Resumirei aqui apenas os pontos principais.
Basicamente, um dos grandes problemas das tais listas é serem muitíssimo genéricas. Por exemplo, farei exercício, dar-me-ei melhor com as pessoas, etc. Isto para além de longas. A minha ideia é ter apenas duas resoluções por mês, uma para acrescentar algo à nossa vida, a outra para melhorar um ponto negativo. E sempre tudo muito específico. Ou seja, em vez de “farei exercício”, “darei uma volta a pé ao quarteirão”. E, “deixarei de entrar em cenas com a empregada do café”. No último dia de cada mês, aí vêm mais duas! Ou seja, 24 por ano.
Já agora, podem ser acumuladas... E se, por acaso, nada fez durante todo o mês, não insista, escolha algo novo, se calhar as anteriores não lhe falaram ao coração. Mas não pense no que não fez, a ideia é esta, se chegar ao fim do ano com uma cumprida, bom, é mais do que o usual.
Mas, para além destas resoluções pessoais tão jeitosas – e utópicas – há as outras, as genéricas, que soam sempre bem. Sabem, “um mundo melhor”, mais paz e amor”, enfim, tudo isso.
Mas se pouco ou nada fazemos com as pessoais, estas ainda são piores, nem seque pensamos mais nelas passado o momento do fogo-de-artifício. Mais ainda, se nos perguntarem como, não fazemos a menor ideia... Só que, numa escala bem modesta, podemos realmente contribuir para um mundo e uma sociedade melhores.
Vamos a isto.
Comecemos pelo tema da moda, o ambiente. E não me refiro à histeria das alterações climáticas ou lá o que lhes chamam agora e de exigências “fofinhas” como acabar com os aviões até 2050 – sim, é verdade! Não, refiro-me a algo bem mais modesto e com resultados garantidos.
Por exemplo, apesar de termos melhorado bastante nos últimos anos, ainda somos um país onde se deita muito lixo ao chão, mesmo quando há um caixotinho ali perto. Nas praias e parques, então, nem se fala. Pois aqui está uma boa resolução para 2023 e totalmente realizável: fazer um esforço a sério para não deitar nada para o chão. E se formos a uma praia ou outro local de lazer desse tipo, levar um saquinho para meter o lixo que fizermos. Isto inclui, claro, as “bombas” dos nossos cães...
Se já recicla, parabéns. Se não o faz, bom, é altura de se converter. Mas sabia que pode fazer mais? Ora pense um pouco. É do tipo de querer sempre a última moda em tudo, sobretudo em eletrónica? Já pensou no que acontece a aparelhos que deita fora apenas porque saiu algo novo? Sim, teoricamente são reciclados, mas isso consome energia e nem tudo pode ser reaproveitado. Que tal decidir conter-se um pouco e ficar com o que já tem, desde que funcione bem? Só uns mesinhos... o ambiente agradece.
Passemos à sociedade em geral.
Sei que todos nós temos problemas e que, muitas vezes, andamos na rua embrenhados na nossa vidinha, sem ligarmos ao que nos rodeia, ou antes, a quem nos rodeia. Junte-se a isso a existência cada vez maior de “amigos” virtuais e de contactos apressados via SMS ou similar e temos uma sociedade que não comunica, onde é até um espanto ver alguém a ser simpático com estranhos.
Aqui está uma boa área para resoluções. Por exemplo, fazer um esforço para dizer obrigado a quem nos serve em cafés, lojas, etc. Um sorrisinho a nada obriga e, quem sabe, poderá ajudar quem o recebe a sentir-se um pouco melhor. E por falar em amigos, sim, tem umas centenas no Facebook e isso, mas quando é que contactou pela última vez com os de carne e osso? Resolução, uma tentativa de contacto semanal com alguém de que nada sabe há anos – viável e algo que até poderá ter um desfecho agradável.
Basicamente, tentar não deitar o nosso dia e o dos outros abaixo só porque nos sentimos irritados, cansados, fartos. Em dias de mau tempo, então, é um festival de caras fechadas, ares ofendidos – e não só – por tudo e por nada.
E sabia que um truque bem conhecido para nos sentirmos mais felizes é precisamente fingir que o somos? Pense nisso na próxima vez que lhe apetecer ficar na cama em vez de ir trabalhar e troque o enfado e suspiros por um ar deliberadamente mais alegre – se pensar bem, a sua reação usual costuma ter algum resultado? Aposto que não, exceto entrar num círculo vicioso de esse seu enfado e irritação gerarem ainda mais má disposição... Ou seja, não tem nada a perder se tentar algo novo.
E se é dos que suspira porque “este mundo vai de mal a pior”, meta as mãos na massa. Sim, não irá acabar com a guerra na Ucrânia ou a fome no mundo, mas já pensou em olhar à sua volta e pensar nas muitas instituições que precisam desesperadamente de voluntários, nem que seja uma horinha por semana?
Mais ainda, em termos de política, em vez de se limitar a ficar no café a dizer mal com amigos e conhecidos, que tal informar-se devidamente sobre os assuntos e esquecer o “dizem que”? Sim, não tem o poder decisório de um membro de um Governo, mas, se souber realmente o que se passa, talvez tome decisões melhores quando for altura de votar. Ou, melhor ainda, já pensou que as mudanças podem começar a nível local? Na sua Junta de Freguesia, por exemplo. Sabe como funciona? Os assuntos que irão ser tratados nas reuniões abertas ao público? Em como apresentar sugestões?
Sim, estará a pensar, o que é que isso adianta? Pois é, se todos pensarmos isso, então nada muda, incluindo as generalidades que repetimos, ano após ano, nesta data.
Pois bem, desta vez é mesmo a sério! Comece a mudar o mundo – e a sua vida – um niquinho de cada vez.
Bom, é tudo. Feliz Ano Novo e boas entradas, cheias de boas intenções... para cumprir.
Para semana: Ajudemos a sério. Fala-se muito em ser solidário, mas o que é que isso significa na realidade?
