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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Luísa Opina

30
Dez22

65 - Resoluções, resoluções...

Luísa

Não consegui resistir à tentação de ser “Maria vai com as outras” e dedicar um post a resoluções de Ano Novo. A diferença é que a maior parte do que digo aqui difere bastante do usual.

Ora vejamos. Mal se aproxima a viragem do ano, muitos de nós começamos a pensar, cheios de entusiasmo, para o ano é que vai ser, farei isto e aquilo, é agora! E a fazer listas cada vez mais longas, mentais ou escritas, do muito que vai mudar na nossa vida.

Infelizmente, essas boas intenções duram quase sempre uns meros dias ou até menos, às vezes no dia 1 já nada fazemos e no dia 2 e seguintes também não porque “falhei um dia, já não vale a pena”.

O post do último domingo do meu outro blogue, Ir para novo, tratava precisamente disso. Chama-se Resoluções de Ano Novo e é um pouco para todos. Resumirei aqui apenas os pontos principais.

Basicamente, um dos grandes problemas das tais listas é serem muitíssimo genéricas. Por exemplo, farei exercício, dar-me-ei melhor com as pessoas, etc. Isto para além de longas. A minha ideia é ter apenas duas resoluções por mês, uma para acrescentar algo à nossa vida, a outra para melhorar um ponto negativo. E sempre tudo muito específico. Ou seja, em vez de “farei exercício”, “darei uma volta a pé ao quarteirão”. E, “deixarei de entrar em cenas com a empregada do café”. No último dia de cada mês, aí vêm mais duas! Ou seja, 24 por ano.

Já agora, podem ser acumuladas... E se, por acaso, nada fez durante todo o mês, não insista, escolha algo novo, se calhar as anteriores não lhe falaram ao coração. Mas não pense no que não fez, a ideia é esta, se chegar ao fim do ano com uma cumprida, bom, é mais do que o usual.

Mas, para além destas resoluções pessoais tão jeitosas – e utópicas – há as outras, as genéricas, que soam sempre bem. Sabem, “um mundo melhor”, mais paz e amor”, enfim, tudo isso.

Mas se pouco ou nada fazemos com as pessoais, estas ainda são piores, nem seque pensamos mais nelas passado o momento do fogo-de-artifício. Mais ainda, se nos perguntarem como, não fazemos a menor ideia... Só que, numa escala bem modesta, podemos realmente contribuir para um mundo e uma sociedade melhores.

Vamos a isto.

Comecemos pelo tema da moda, o ambiente. E não me refiro à histeria das alterações climáticas ou lá o que lhes chamam agora e de exigências “fofinhas” como acabar com os aviões até 2050 – sim, é verdade! Não, refiro-me a algo bem mais modesto e com resultados garantidos.

Por exemplo, apesar de termos melhorado bastante nos últimos anos, ainda somos um país onde se deita muito lixo ao chão, mesmo quando há um caixotinho ali perto. Nas praias e parques, então, nem se fala. Pois aqui está uma boa resolução para 2023 e totalmente realizável: fazer um esforço a sério para não deitar nada para o chão. E se formos a uma praia ou outro local de lazer desse tipo, levar um saquinho para meter o lixo que fizermos. Isto inclui, claro, as “bombas” dos nossos cães...

Se já recicla, parabéns. Se não o faz, bom, é altura de se converter. Mas sabia que pode fazer mais? Ora pense um pouco. É do tipo de querer sempre a última moda em tudo, sobretudo em eletrónica? Já pensou no que acontece a aparelhos que deita fora apenas porque saiu algo novo? Sim, teoricamente são reciclados, mas isso consome energia e nem tudo pode ser reaproveitado. Que tal decidir conter-se um pouco e ficar com o que já tem, desde que funcione bem? Só uns mesinhos... o ambiente agradece.

Passemos à sociedade em geral.

Sei que todos nós temos problemas e que, muitas vezes, andamos na rua embrenhados na nossa vidinha, sem ligarmos ao que nos rodeia, ou antes, a quem nos rodeia. Junte-se a isso a existência cada vez maior de “amigos” virtuais e de contactos apressados via SMS ou similar e temos uma sociedade que não comunica, onde é até um espanto ver alguém a ser simpático com estranhos.

Aqui está uma boa área para resoluções. Por exemplo, fazer um esforço para dizer obrigado a quem nos serve em cafés, lojas, etc. Um sorrisinho a nada obriga e, quem sabe, poderá ajudar quem o recebe a sentir-se um pouco melhor. E por falar em amigos, sim, tem umas centenas no Facebook e isso, mas quando é que contactou pela última vez com os de carne e osso? Resolução, uma tentativa de contacto semanal com alguém de que nada sabe há anos – viável e algo que até poderá ter um desfecho agradável.

Basicamente, tentar não deitar o nosso dia e o dos outros abaixo só porque nos sentimos irritados, cansados, fartos. Em dias de mau tempo, então, é um festival de caras fechadas, ares ofendidos – e não só – por tudo e por nada.

E sabia que um truque bem conhecido para nos sentirmos mais felizes é precisamente fingir que o somos? Pense nisso na próxima vez que lhe apetecer ficar na cama em vez de ir trabalhar e troque o enfado e suspiros por um ar deliberadamente mais alegre – se pensar bem, a sua reação usual costuma ter algum resultado? Aposto que não, exceto entrar num círculo vicioso de esse seu enfado e irritação gerarem ainda mais má disposição... Ou seja, não tem nada a perder se tentar algo novo.

E se é dos que suspira porque “este mundo vai de mal a pior”, meta as mãos na massa. Sim, não irá acabar com a guerra na Ucrânia ou a fome no mundo, mas já pensou em olhar à sua volta e pensar nas muitas instituições que precisam desesperadamente de voluntários, nem que seja uma horinha por semana?

Mais ainda, em termos de política, em vez de se limitar a ficar no café a dizer mal com amigos e conhecidos, que tal informar-se devidamente sobre os assuntos e esquecer o “dizem que”? Sim, não tem o poder decisório de um membro de um Governo, mas, se souber realmente o que se passa, talvez tome decisões melhores quando for altura de votar. Ou, melhor ainda, já pensou que as mudanças podem começar a nível local? Na sua Junta de Freguesia, por exemplo. Sabe como funciona? Os assuntos que irão ser tratados nas reuniões abertas ao público? Em como apresentar sugestões?

Sim, estará a pensar, o que é que isso adianta? Pois é, se todos pensarmos isso, então nada muda, incluindo as generalidades que repetimos, ano após ano, nesta data.

Pois bem, desta vez é mesmo a sério! Comece a mudar o mundo – e a sua vida – um niquinho de cada vez.

Bom, é tudo. Feliz Ano Novo e boas entradas, cheias de boas intenções... para cumprir.

Para semana: Ajudemos a sério. Fala-se muito em ser solidário, mas o que é que isso significa na realidade?

23
Dez22

64 - Falemos de Natal

Luísa

Sim, estamos mesmo à beirinha de mais um Natal e escolhi, por isso, falar de vários assuntos relacionados com esta data que se quer festiva.

E digo isso porque, inevitavelmente, a brigada woke tem feito tudo e mais alguma coisa para acabar com tudo o que signifique Natal – mas sem acabar com a festa em si, entenda-se, um feriado calha sempre bem...

Sabiam que em vários países já não se pode dizer Feliz Natal ou Boas Festas a pessoas que não sejam do nosso círculo íntimo? E mesmo com estas é quase preciso um interrogatório tipo KGB para ter a certeza de que não se vai ofender ninguém.

E repararam no modo como as decorações natalícias em ruas e lojas têm mudado? Usam-se agora laços, formas abstratas, enfim, tudo e mais alguma coisa desde que não possa ser relacionado com a data, como sinos, por exemplo.

Muito francamente, nunca percebi porque é que o facto de se festejar o Natal plenamente ofende quem não o festeja. Dizem que é uma questão de tolerância e de respeito pelas crenças dos outros... A sério? Pois eu acho precisamente o contrário, se alguém que não festeja o Natal fica ofendido por eu lhe desejar Boas Festas, então não sou eu a intolerante, mas sim o “vidrinho” ofendido.

E temos depois os ateus, ou antes, pessoas que dizem que o são. De acordo com o meu dicionário, “ateu é uma pessoa que nega a existência de qualquer divindade”, mais nada. Só que o ateísmo tem-se tornado uma verdadeira religião militante. Já não basta não acreditar, é preciso impedir que outros acreditem.

Acham que estou a exagerar? A Junta de Freguesia da minha zona teve de retirar umas decorações natalícias de rua por pressão feroz e repetida de uma residente que dizia que isso ofendia o seu ateísmo!

Mas passemos a outro tema também muito ligado a esta época, as dádivas que chovem nestes dias.

Sim, todos sabemos que é uma altura do ano “de ouro” para inúmeras instituições de caridade, os seus pedidos de ajuda e peditórios têm sempre um bom retorno. Mas... pensemos um pouco. Em vez de nos precipitarmos a dar o nosso contributo natalício e, aqui para nós, aliviar um pouco a consciência do peso do despesismo em que entramos, apesar de todas as boas intenções, que tal pôr esse montante de parte e doá-lo a meio do ano, por exemplo? É que as necessidades dessas organizações são constantes mas as doações... não.

É que se queremos realmente ajudar, acreditem, seria mais útil assim. É que apesar de receberem bem mais agora, aposto que não dá para o resto do ano.

Outra coisa que me faz confusão, a ceia de Natal oferecida a pessoas que vivem na rua e outras que passam dificuldades. Sim, a intenção é ótima e estou totalmente a favor, exceto... já repararam que é sempre uns bons dias antes do Natal? Que tal fazermos um esforço e tentar organizar uma ceia a sério na data real, ou seja, na Véspera de Natal? Pode ser mais cedo, digamos, por volta das seis, assim ainda dava para ir para casa e ter a ceia com a nossa família.

O que me leva ao último ponto, a solidão no Natal e a depressão que muitas vezes a acompanha.

Sim, é uma altura do ano em que as televisões se enchem de especialistas a falarem no assunto mas, na prática, o que é que fazemos? Pois, nada... ou quase nada.

E não me refiro apenas a pessoas idosas, há muita gente bem mais nova que, por uma razão ou outra, passa o Natal sem companhia. Também não falo dos muitos estrangeiros que vivem no nosso país e que, de um modo geral, têm organizações e grupos que organizam convívios, sobretudo se são de países menos representados, digamos.

Estranhamente, os mesmos que tanto se preocupam com esses imigrantes ignoram por completo os cidadãos portugueses que passam o Natal sozinhos.

Sei que já há hotéis que têm ceias de Natal, mas, muito francamente, não é para toda a gente, pelo preço e pelo que é servido, sim, é tudo muito bom e muito “chique”, mas muitos desses solitários anseiam é por algum convívio.

Pois aqui fica uma ideia, atrasada para este ano, mas a ter, talvez em conta para o futuro.

Que tal as Juntas de Freguesia organizarem uma ceia de Natal, por exemplo, no refeitório de uma escola local? Haveria inscrições (pagas) com antecedência e não seria nada muito especial, apenas a comida – e doces, claro – tradicionais. E música, talvez.

Mais ainda, para contornar problemas de segurança com o uso de equipamento não muito comum, como há certamente funcionários ou ex-funcionários dessa ou de outras cantinas na mesma situação de isolamento, podiam ser contactados para ajudar nessa noite. Sim, ajudar, para ser um Natal mais a sério e criar uma situação de convívio entre pessoas que serão, quase certamente, estranhas no início da festa, não seria um “jantar de restaurante”, todos ajudariam na cozinha, decoração, arrumação final...

Enfim, uma ceia de Natal “em família” para quem não a tem.

Uma outra hipótese seria lares e outros locais similares permitirem a presença de estranhos nessa noite, para dar um pouco mais de convívio a quem não tem para onde ir (ou não pode sair por razões de saúde). Juntar-se-iam, assim, duas solidões e seria, certamente, um serão bem mais agradável.

Enfim, se tem companhia, ainda bem, espero que passe uma bela noite. Se não a tem, tente não cair em depressão, olhe à sua volta, veja se pode ajudar alguém na mesma situação – e se não for este ano, vá fazendo planos para o Natal do próximo ano..

E pronto, Feliz Natal a todos! Quer ofenda ou não alguém...

Para semana: Resoluções, resoluções... Sim, é a "tal" época do anos...

16
Dez22

63 - A propósito de eutanásia

Luísa

A polémica lei da eutanásia foi mais uma vez aprovada pela Assembleia da República e está agora nas mãos do Sr. Marcelo. Não sei nem me interessa saber se é ou não constitucional, a minha total oposição vem de outras causas – e não, nada têm a ver com religião, isto para os que já me estão a chamar beata e outros mimos similares.

Começarei por um breve resumo do que disse num outro post, Os falsos sinónimos, sobre a diferença entre morte medicamente assistida e eutanásia.

Basicamente, a primeira refere-se a pessoas com doenças terminais e a quem é aumentada a dose de fármacos para minorar as dores (e não só), apesar de se saber que isso irá encurtar-lhes a vida. Ou seja, perante uma verdadeira morte anunciada, tenta-se que esses últimos dias ou semanas sejam os melhores possíveis, ou antes, o menos maus possíveis. E, talvez menos frequentemente, da recusa de novos tratamentos por parte de doentes porque os fracos ganhos em quantidade de vida seriam mais do que contrabalançados pelas perdas na sua qualidade

Em contraste, eutanásia tem a ver com pessoas que não estão a morrer, sofrem apenas de condições que lhes minoram a qualidade de vida, quer realmente quer na perceção que têm do seu mundo pessoal.

Os exemplos mais comuns são pessoas tetraplégicas, que dependem de terceiros para tudo, e padecentes de Alzheimer.

Ora são precisamente estes casos que me levam a ser ferozmente contra a dita eutanásia. No mundo atual, uma pessoa tetraplégica pode ter uma vida muito, mas mesmo muito rica e preenchida, se lhe forem dados os meios para tal. Não estamos no mundo de há umas décadas, onde só podiam ficar paradas em frente à TV ou com um rádio ligado, nem podendo, sequer, mudar de canal ou de estação caso o programa não lhes agradasse.

Para além da muita tecnologia já disponível e que pode ser ativada com o olhar, há ainda a realidade virtual... É claro que o grande problema aqui é que este tipo de apoios custa dinheiro e os nossos governos preferem gastá-lo em rendimentos mínimos e noutras “benesses” similares atribuídas a muita gente que, na sua maioria, só padece de “síndrome de aproveitador”.

Quanto às pessoas com Alzheimer, não são elas que vivem em sofrimento, muito pelo contrário. Vivem num mundo sempre novo, em que tudo é novidade, em que tudo é uma descoberta. São, sim, os familiares que sofrem com o seu estado, ao verem deteriorar-se alguém que conheceram cheio de capacidades. Só que, neste caso, a eutanásia seria para aliviar o sofrimento deles e não da pessoa que tem a doença.

E onde é que isto nos leva? Aplica-se a eutanásia a crianças com deficiências profundas, sejam físicas ou mentais? Bom, isso já acontece, só que não lhe chamam eutanásia mas sim aborto. E se acham que exagero, sabem que na Suécia não nascem crianças com síndrome de Down há imensos anos? E que à menor sugestão de que a criança possa, talvez, sim, a ênfase está em talvez, vir a nascer com algum problema, as grávidas são fortemente encorajadas a recorrerem a um aborto.

Temos também o “sofrimento moral que se tornou insuportável”. Como exemplo, temos o célebre caso de uma jovem holandesa de 15 anos que pediu a eutanásia porque não aguentava a depressão! E teve, para esse pedido, o apoio da família e dos vários médicos consultados... Ao contrário do que consta, foi-lhe recusada, mas mais por a lei ser muito recente do que pelo absurdo de uma tal situação. E temos o caso bem recente, penso que no Canadá, de um homem que pediu e obteve a eutanásia por ter ficado surdo!

Outro grande argumento é que a decisão será tomada por uma comissão de especialistas de várias áreas e após várias consultas ao requerente. Pois!

Ou seja, esperamos anos por uma consulta normal (eu estou há 5 à espera de uma de oftalmologia) mas para a eutanásia aparecem logo? Já agora, não temos o exemplo atual das comissões que avaliam o grau de invalidez de funcionários públicos? E todos sabemos como funcionam tão bem...

Fala-se muito na qualidade de vida, ou antes, na sua perda, que leva a que muitos se queiram candidatar à eutanásia. Mas, de onde vem, de facto, essa deterioração? Entre outras coisas, de não haver um serviço de saúde como deve ser, que se preocupe mais com a nossa população do que em ser um “serviço nacional”. Da falta de lares condignos, com pessoal à altura para dar um bom fim de vida aos seus utentes. De não haver pessoal formado – e refiro-me a formações e não a cursos universitários – que dê apoio domiciliário a quem tem alguns problemas, quanto mais não seja para aliviar o fardo dos familiares que cuidam dessa pessoa. Da carência premente de lares de cuidados paliativos ou de quem apoie nessa área quem quer morrer em casa.

Outro aspeto muito usado pelos ferozes defensores da lei é que é ninguém pode ser convencido a pedir a eutanásia e que, se o faz, é porque é esse o seu real desejo.

A sério?

Quantos idosos e pessoas com deficiências diversas ouvem continuamente dizer a familiares, cuidadores e amigos que são um fardo, que assim nem vale a pena viver, que, “se fosse eu, preferia morrer já a ficar nesta situação” e outras frases com o mesmo sentido? Isto para não falar nos maus tratos e abusos orais ou até físicos a que muitos são sujeitos, perante a total passividade da nossa sociedade e dos nossos partidos políticos – pena não serem cães ou gatos...

Ao fim de anos nesta situação, é claro que muitos passam a pensar muito a sério na morte como uma libertação, pelo menos para os que os rodeiam, morte essa a que, se a lei for para a frente, passarão a ter acesso.

Não, a eutanásia não passa de uma solução criada por uma sociedade de facilitismos e que prefere não pensar numa verdadeira resolução dos problemas que a longevidade e a baixa mortalidade infantil acarretam, inevitavelmente.

E já agora, a eutanásia não é novidade, praticou-se durante muito tempo mas sem comissões ou ares de se estar a fazer um ato benemérito.

Durante séculos, quantas crianças pequenas morreram durante o sono na cama dos pais, “por  acidente” ou por doenças e outras causas desconhecidas, sem que houvesse qualquer inquérito – estes só surgiam quando isso acontecia muitíssimas vezes na mesma família e mesmo assim, nem sempre.

Quantos idosos morreram em casa sem se saber de quê, sendo a causa da morte vista meramente como “a idade avançada”?

E uma criança ou adulto que ficasse estropiado, bom, podia não haver eutanásia mas, com as carências económicas e faltas de apoio generalizadas, a sua vida não durava muito.

Ou seja, em vez de avançarmos para uma sociedade mais justa e melhor para todos, estamos, muito simplesmente, a legalizar práticas do passado.

Parabéns, senhores deputados!

Para semana: Falemos do Natal. Tenta-se cada vez mais criar um Natal que não ofenda ninguém... e não só.

09
Dez22

62 - É preciso é anunciar!

Luísa

Não é novidade para ninguém que o país padece de gravíssimo problemas, a começar pelos famosíssimos “problemas estruturais” de que ouvimos falar há décadas, mais a ainda mais célebre promessa de que é desta que os irão resolver. Pois...

Perante este cenário, seria de pensar que governos que zelam pelo povo, segundo dizem, tenham já atacado pelo menos um ou dois, talvez os mais leves, digamos, para começar de mansinho. Pura ilusão!

Assistimos, isso sim, quase todas as semanas, ao anúncio de um projeto grandioso, “o maior de sempre em Portugal”, em variadíssimas áreas. Só para citar os mais recentes, temos a compra de umas centenas de carruagens para multiplica a oferta dos transportes ferroviários, o anúncio de que todo o país irá ter uma rede de comboios de alta velocidade, o malfadado novo aeroporto de Lisboa, enfim, obras grandiosíssimas que nos iam projetar à velocidade de um foguetão para a modernidade, o projeto de drenagem de Lisboa para evitar as cheias, que será, mais uma vez, “o maior de sempre em Portugal”...

Curiosamente, o anúncio das novas carruagens repete-se periodicamente e sob duas formas, “vamos comprar” e “comprámos” (este mais frequente) – mas, vendo os factos, ou a entrega está atrasadíssima ou “o cheque está no correio”.

O mesmo se passa com todos os outros anúncios grandiloquentes. Lembram-se da criação de 120 mil postos de trabalho? Das casas de renda acessível? Dos apoios para acabar com a também muito célebre desertificação do interior?

É claro que este sistema tem várias vantagens. A primeira, bom, dá logo uma imagem de que o Governo está a agir, tem projetos e ideias. E não umas ideias comezinhas, não, são só coisas que irão mudar totalmente a face do país.

Depois, e como os políticos estão bem cientes de que o povo tem a memória curta e, se forem da cor política correta, os jornalistas também, podem repetir a mesma promessa / anúncio algumas vezes – vejas as tais carruagens acima mencionadas.

Mas a vantagem maior é outra. Como há planos para um projeto grandioso numa certa área, é óbvio que não vale a pena ir remendando, por assim dizer, o que já existe, uma vez que vai ser substituído.

Como as linhas férreas. Não funcionam ou funcionam mal? Bom, como se vão criar linhas de alta velocidade em todo o país, seria um desperdício gastar dinheiro a melhorar o que já está feito, quanto muito vai-se dando um jeitinho aqui e ali se for mesmo indispensável.

Aliás, foi isto que me levou há anos a pensar que não havia grande vontade de fazer um novo aeroporto de Lisboa. É que precisamente quando o projeto foi anunciado, com a pompa e circunstância usuais, começaram obras de ampliação e de modernização da atual estrutura...

E este estado de não fazer nada porque vem aí algo novo pode durar anos, décadas, até. É que um projeto tão complexo e abrangente não se faz do dia para a noite, são precisos estudos de viabilidade, estudos ambientais, estudos disto e daquilo, projeções, projetos e projetinhos, tudo isto a sair-nos do bolso – e de que maneira! – sem que se veja qualquer resultado prático.

Não acreditam? Quanto já foi gasto com o novo aeroporto? Quantos anos já se passaram desde que foi anunciado? E temos algo de concreto? Não, nem sequer a sua localização.

O mesmo se passa com a tal rede de alta velocidade. Não seria bem mais prático criar já uma linha a ligar Sines a Espanha? Com o engarrafamento que há atualmente no Estreito de Gibraltar, muitos navios passariam a descarregar no Porto de Sines, seguindo depois os contentores de comboio para a Europa. Era dinheiro que entrava no nosso país e era bom para o ambiente!

Já agora, sabiam que o Alfa é um comboio de alta velocidade? Sim, não é um TGV, mas excede os 200 km/hora, por isso tem essa qualificação. O seu único problema é a atual linha férrea, que não lhe permite velocidades dessas na maior parte do trajeto. Por isso repito, em vez de criar uma rede nova, que tal corrigir a atual para permitir a alta velocidade em todo o seu curso? Além do mais, onde é que tencionam meter a nova linha?

Sim, há coisas que têm de ser planeadas no todo antes de se poderem iniciar as obras – como a drenagem de Lisboa. Mas isso não significa passar anos a acertar todos os pontinhos antes de fazer alguma coisa. É bem possível ter uma visão geral do que vai ser feito e começar o mais depressa possível a projetar em detalhe um dos seus componentes.

Voltando ao aeroporto, o mais urgente seria decidir a sua localização e, acima de tudo, de que tipo será: substituo da Portela, complemento do atual... E como irá precisar de uma ligação rápida a Lisboa, mal se decida o lugar onde irá ser implementado, pode-se começar logo com as vias de acesso que, quanto mais não seja, irão servir as populações que, inevitavelmente, para aí se mudarão.

Mas é este o país que temos, não é preciso fazer, basta anunciar que se vai fazer. E quanto maior for o aparato do anúncio e a sua abrangência, melhor é. Espero a qualquer momento ouvir anunciar um plano de construção de habitação barata a 100 anos!

Para semana: A propósito da eutanásia. Quer tenha sido ou não aprovada, é altura de voltar a este assunto

02
Dez22

61 A geração entediada

Luísa

Nunca fui grande fã de dar nomes às gerações, sejam ou não depreciativos, mas durante o infame confinamento houve um termo que me vinha repetidamente à mente sempre que ouvia falar nos problemas dos jovens, nas sequelas psicológicas do isolamento, da dificuldade em acompanharem as aulas, enfim, entendem o que quero dizer. E qual era esse termo? Pois bem, entediados.

E sabem o que acontece quando nos chamam a atenção para uma coisa e a partir daí passamos a vê-la em todo o lado? Aconteceu-me precisamente o mesmo aqui e, pior ainda, lançou a sua sombra deprimente para o passado.

Vamos lá a ver se entendem o que quero dizer.

O que mais ouvimos durante esses meses, da boca dos jovens e não só, era o enfado por não poderem sair, estar com os amigos. E a frase mais usual era, “não temos nada para fazer.”

Analisemos um pouco tudo isto.

Ou seja, num mundo ligadíssimo graças às redes sociais, em que os ditos jovens estão viciados – sim, é o termo correto – e em que a maior parte dos “amigos” são virtuais, estar em casa causa problemas de isolamento? Mais ainda, quem nunca viu grupos de jovens algures num centro comercial, café ou outro local, teoricamente juntos mas na prática todos agarrados ao respetivo telemóvel, como se a sua vida dependesse disso?

Mais ainda, as tais saídas que deixaram de ter, serão mesmo de convívio? Ou limitam-se a ir em grupo aos mesmos sítios e a fazer as mesmíssimas coisas em nome de uma suposta diversão?

Mas o principal vem do “não temos nada para fazer.” Mais uma vez, a sério? Quando têm o mundo literalmente na ponta dos dedos? Quando surgiram milhentas atividades online, precisamente destinadas a quem se viu em casa inesperadamente, ginástica, ioga, aulas de todo o tipo, trabalhos manuais, enfim, um sem fim de coisas?

Ou será que os nossos jovens são todos atletas que precisam mesmo de um local de treino específico para desenvolverem a sua atividade?

Atenção, não estou a menosprezar esta sensação de isolamento e não terem nada para fazer, muito pelo contrário, o problema está precisamente aí, em sentirem-se à nora por não poderem fazer o seu habitual.

Não sei o que andámos a fazer com estes jovens, mas a triste realidade é que não se sabem entreter. Fica-nos, até, a sensação de que têm pavor a verem-se sozinhos perante si mesmos. E até os tão falados (nessa altura) convívios e saídas com amigos são feitos mais por ter de ser do que propriamente por gosto.

Resumindo, a vida é um tédio tremendo que se disfarça com um frenesim de “distrações” que são tudo menos isso.

Muito francamente, dei comigo a pensar no que aconteceria se pegássemos nesta geração e, num cenário de ficção científica, os puséssemos em confinamento há duas ou três décadas, nem era preciso mais. Ou seja, sem internet, sem videojogos, sem telemóveis, com um único canal de televisão a funcionar apenas umas horas por dia, sem e-readers...

Sim, cenário de ficção científica porque só assim seria uma verdadeira experiência. É que os jovens dessa época sabiam ocupar-se e divertir-se e, muito francamente, se viessem com essa do não há nada para fazer, pois bem, acho que sabem qual seria a resposta.

Já pensaram na tremenda oportunidade perdida que foi o confinamento? Podia ter sido usado para explorarem coisas e, quem sabe, descobrirem até alguma paixão ou vocação. Ou para aprender algo para que nunca têm tempo na “vida normal”. Ou para tentarem conhecer a sério os amigos que dizem ter, sem a distração de um local de diversão, centro comercial ou isso.

E este tédio abrange todos os setores da sua vida. Os estudos? Uma seca. Estar com a família? Mais do que seca! Passatempos? Bom, só os da moda, digamos, e mais para não destoar do que propriamente por prazer.

Dir-me-ão, mas esta nova geração está muito empenhada em mudar o mundo, em corrigir os muitos erros cometidos.

Mas está mesmo? Sim temos assistido a inúmeros protestos, marcas e quejandos. Já agora, não é curioso que sempre que querem protestar contra algo começam logo por encerrar os respetivos estabelecimentos de ensino? O grande problema em relação a este suposto empenhamento é a falta de conhecimentos sobre o assunto em questão.

“Fechemos as centrais a carvão!” Pois, mas só as do Ocidente, se lhes perguntarmos ignoram que só este ano a China inaugurou mais de 600. “Fim dos combustíveis fósseis!” Mas nunca houve uma geração que tanto usasse o carrinho para tudo e mais alguma coisa, até mesmo para distâncias que podiam muito bem fazer a pé.

Mas a melhor de todas é o apelo ao fim do capitalismo. Pois, o tal capitalismo que lhes permite só começarem a trabalhar tarde – e mesmo assim, muitas vezes, só para arranjar fundos para distrações – e que, sejamos sinceros, lhes dá tempo e liberdade para protestarem contra o dito.

É que se este protagonismo em mudar o mundo fosse real e não apenas mais um sintoma do imenso tédio que os afeta estariam,  esforçar-se-iam, certamente, por se informar mais sobre as questões antes de protestarem, mais ainda, fá-lo-iam de modo seletivo, sem se deixarem ir na onda do tema da semana. Pois, mas há que arranjar algo para fazer...

Para semana: É preciso é anunciar! E não, não me refiro a publicidade comercial...

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  75. S
  76. O
  77. N
  78. D