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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

Luísa Opina

26
Ago22

47 - A eterna praga dos incêndios!

Luísa

Para variar, estamos novamente em plena época de incêndios, devastadores para as populações dessas áreas e para o país em geral.

E voltamos a ver pessoas sem a menor formação para isso a tentarem ajudar no seu combate, numa tentativa desesperada de salvarem pelo menos parte dos seus bens. E voltamos a ouvir a eterna conversa de falta de meios, de dificuldades de acesso, de falhas do sistema de comunicações, de suspeitos de fogo posto detidos, enfim, um vira o disco e toca o mesmo que, infelizmente, já se arrasta há anos.

Para mim, uma das causas desta triste situação está no que eu chamo, por falta de um termo melhor, de “preconceitos” de quem nos governa, da comunicação social em geral e da usual gente bem pensante.

Ora vamos por partes.

Vim para Portugal já em plena década de 80 e só algum tempo depois comecei a prestar atenção a este problema recorrente. Ora nos primeiros anos em que acompanhei o assunto, a culpa dos incêndios era claríssima para políticos, jornalistas e comentadores em geral: os madeireiros!

Sim, esses repelentes capitalistas pagavam para que incendiassem florestas a fim de poderem comprar a madeira ardida por baixíssimo preço. Provas? Nenhumas, obviamente. O que não impediu que se gastasse imenso dinheiro a criar parques para essa madeira, comprada com o dinheiro dos contribuintes, claro, para além de um sem fim de regras e leis.

Curiosamente, os incêndios continuaram, chegando até a surgir em zonas já quase totalmente ardidas e onde qualquer aproveitamento do que sobrevivesse seria de lucro mais do que duvidoso.

Culpado seguinte? Os eucaliptos! Da maneira como falavam, quase dava a sensação de que entravam em combustão espontânea, pegando fogo a tudo e mais alguma coisa. Houve o usual choro e ranger de dentes, queria-se a proibição geral e imediata do seu cultivo – apesar do seu fortíssimo contributo para a economia deste país – enfim, histeria até dizer chega.

Estranhamente, ninguém chamou a atenção para o pequeno detalhe de que eucaliptais privados, pertencentes a empresas de papel ou a quem para elas vendia, não ardiam, isto apesar de ficarem muitas vezes totalmente cercados de matas públicas, que, essas sim, ardiam totalmente, com ou sem eucaliptos.

Mas, em vez de tentar perceber porquê, ver o que essas empresas faziam para impedir a catástrofe, preferiu-se restringir o dito eucalipto.

Infelizmente, a catástrofe continuou a repetir-se, ano após ano, com gravíssimas consequências, incluindo mortos e feridos. E, espanto dos espantos, muitos desses incêndios eram em zonas onde nem eucaliptos havia!

Mas continua a perdurar a ideia de que os fogos surgem “por obra e graça do Espírito Santo” e, mais recentemente, com a ajuda do aquecimento global, ou antes, das alterações climáticas, apesar de surgirem, na sua maioria, de madrugada – que, como todos nós sabemos, é o período mais quente do dia...

E continua-se a falar em ordenamento do território e limpeza das florestas e compram-se a preço de ouro meios aéreos antiquados e nada adequados ao nosso país – primeiro, os célebres Kamov, agora uns Canadair, que até são ótimos, se forem bem escolhidos. Mas, na prática, nada se faz.

Veja-se a limpeza de florestas e matos. Os privados fazem-no, que remédio, apesar de muitos não terem forças para isso e, mesmo que pudessem pagar, o que é muito duvidoso, dificilmente arranjariam quem o fizesse por eles. Mas, e o que é do Estado?

Bem sei que a maior parte desse tipo de terrenos está nas mãos de pequenos proprietários, só que têm muitas vezes por perto terrenos que são públicos e que são deixados ao abandono.

Lembro-me do caso de um casal algures no norte que tinha uma floresta pública mesmo junto às traseiras da sua propriedade. Começou a exigência da limpeza de matos, fizeram-na no que era seu, só que tinham mato altíssimo mesmo junto ao seu muro – uma pequena faísca e de nada lhes valeria terem cumprido as regras. Após inúmeras tentativas, em vão, de resolução do caso, optaram por limpar uma faixa de 3 metros junto ao muro. Pois bem, aí já houve celeridade, surgiu logo a GNR a multá-los por terem “cortado coisas” em terras públicas!

Os acessos são outro problema perene. Mas se uma Câmara, uma Junta, tentar abrir caminhos como deve ser, caem-lhes logo em cima porque estão a estragar a natureza e a dar acesso fácil aos incendiários – sim, pelos vistos, não haver acessos tem-nos impedido de atear fogos!

Junte-se a isso, como o meu pai sempre dizia e alguém lembrou recentemente, que o mapa de zonas de alerta máximo serve, basicamente, para que os ditos incendiários saibam onde poderão operar com o máximo sucesso.

Para mim, há algumas medidas que urge tomar.

Primeiro, abrir o acesso a matos e florestas. Havendo caminhos e locais preparados para piqueniques ou mero descanso, como há, nomeadamente, na Alemanha, a população da zona começa a ver esses terrenos um pouco como seus, como algo de que pode desfrutar. Sem contar que o trabalho dos bombeiros fica muito mais facilitado.

Mais ainda, porque não voltar a uma prática medieval que voltou a estar na moda em Inglaterra e que é a criação de porcos nas florestas? Como são animais inteligentes, basta criar estruturas para colocação de alguma ração nas bordas das ditas, tocando uma sineta diariamente à mesma hora, e eles surgem logo a correr. No resto do dia, procuram alimento por conta própria, revolvendo o mato e matando-o eficazmente.

Segundo, no seguimento do que disse no post anterior, a criação de pequenas albufeiras ou reservatórios para água da chuva, e não só, que possam também dar apoio ao combate a incêndios, evitando assim as longas deslocações e esperas para que os carros de bombeiros se possam abastecer.

Terceiro, a compra de meios aéreos adequados ao tipo de incêndios que temos e a responsabilização pessoal (e financeira) de quem tem tomado as catastróficas decisões que todos conhecemos.

Quarto, e importantíssimo, a profissionalização total dos bombeiros. Sim, há sempre lugar para a existência de bombeiros voluntários, mas como complemento de um grupo nuclear profissional. Podia, por exemplo, funcionar em paralelo com o serviço militar, dando uma outra opção similar.

E, como as populações acabam sempre por ter de participar ativamente no combate a incêndios nas zonas em que residem, que tal dar-lhes também alguma formação nessa área? Assim, seriam bem mais eficazes e correriam muito menos perigo. Haveria ainda a vantagem de poderem fazer o chamado apoio de retaguarda, deixando as frentes ativas para quem o faz profissionalmente.

Temos ainda os incendiários e as “penas suficientes”, segundo alguém do atual Governo. Pois, as penas são tão graves que a maioria dos detidos são mais do que reincidentes. E, atenção, detido não significa condenado, há sempre a falta de provas... Como um jovem que há uns anos foi apanhado três vezes, de madrugada, a andar de mota muito perto da zona onde estava a começar um grande incêndio e nada lhe aconteceu, estava só a passear...

E caso não o saibam, o jovem que ateou um grande incêndio na Madeira, em que morreu gente, foi condenado em 2017 a 14 anos de cadeia, o que significa que deve estar a sair, pronto para outra.

Só mais um detalhe, como a vigilância florestal seria economicamente incomportável, que tal pormos as nossas Forças Armadas a acamparem durante o verão em várias zonas do país? Teriam um acampamento base em cada uma dessas áreas, de onde sairiam diariamente em patrulha diurna – e, sobretudo, noturna. Faziam exercício, apanhavam ar puro e contribuíam para o bem-estar do país que os sustenta. E podiam, até, testar o uso de drones para vigilância.

Para a semana: E o problema é o aborto nos EUA! – A decisão do Supremo dos EUA é mais importante que não haver onde dar à luz em Portugal...

19
Ago22

46 - É o clima

Luísa

Nesta época de incêndios – e está a ser um ano catastrófico – decidi revisitar o tema das alterações climáticas, que já tratei anteriormente no meu post de 2021, O céu está a cair (https://luisaopina.blogs.sapo.pt/8-o-ceu-esta-a-cair-4291).

Como continuamos a ouvir que a causa disto tudo “é o clima”, ou antes, as mudanças provocadas pela ação do Ocidente (sim, só do Ocidente, como explico no post acima citado), achei que talvez não fosse má ideia dar uma pequena perspetiva histórica das famosíssimas alterações climáticas. É que o nome mais recente, “catástrofe climática” não pegou, digamos, por isso os fazedores de opinião voltaram à versão anterior.

Mas antes, um pequeno comentário. Já repararam que se alguém se lembra de contestar uma qualquer afirmação “científica” sobre este assunto é logo acusado de não acreditar nas alterações climáticas? A sério? É que se há quem não acredita nelas são precisamente os que mais as apregoam –a fazer fé neles, são a descoberta do século, ou antes, a maior descoberta de sempre.

Ora do que muitos como eu duvidam não é da existência das ditas alterações, sempre as houve e haverá, só acabarão se a Terra morrer ou se a envolvermos numa cúpula como Asimov descreveu em alguns dos seus livros, nomeadamente em As Cavernas de Aço.

Não, do que duvidamos é da influência que se atribui à ação do homem (Ocidental) e, acima de tudo, a afirmações catastrofísticas como esta que ouvi na TV a uma “cientista do clima”, tipo “já há 4 milhões de anos que o nível do mar não era tão elevado”. Provas? Nenhumas, claro, por isso no dia seguinte, numa outra entrevista, essa frase passou a “já há muito tempo”.

Mas o tema favorito é mesmo o aquecimento global – já agora, esta foi a primeira versão do título dado a este assunto. É raro o dia em que não ouçamos, “são as temperaturas mais elevadas desde que há registo.” E se nos limitarmos aos atuais registos meteorológicos, até são capazes de ter razão.

A questão é que há outro tipo de registos, que nunca são citados porque desdizem todo este cenário de catástrofe inédita.

Por exemplo, sabiam que no século X largas áreas da Islândia, agora cobertas de gelo, eram cultivadas? Que quando os Vikings colonizaram a Gronelândia, mais ou menos por essa altura, ocuparam zonas que são agora inacessíveis devido ao gelo? Pois é, nunca acharam estranho terem chamado Terra Verde a uma ilha enorme que tem gelo em quase 80 % da sua superfície e o que resta não é lá muito verdejante?

Temos também o chamado Período Quente Medieval de que, curiosamente, nunca se houve falar. Decorreu entre o ano 1000 e 1200 e, análises a plantas, árvores e outros elementos, feitas por climatologistas a sério, dizem-nos que, nalguns pontos da Europa, as temperaturas chegaram a ser 2 a 2 graus superiores às registadas no início do século XX – e isto sem centrais a carvão ou carros.

Sim, não há registos antigos como os que temos agora, mas, lendo crónicas e outros textos da época lemos sobre alterações profundas na agricultura, na floração das plantas e até nas estações do ano, que levaram à deslocação forçada de populações e uma elevada mortalidade daí resultante.

Recuando mais um pouco, temos o Período Quente Romano, entre 250 a.C. e 400 d.C. Pesquisadores da zona do Canal da Sicília podem agora afirmar que foi o período mais quente dessa região nos últimos 2000 anos.

E estou a restringir-me a alterações climáticas dos últimos dois milénios, que incluíram as devastadoras “megassecas” nos atuais EUA, por exemplo, a do Nebrasca (1276-1313) e a do Colorado (1276-1313).

E já que falamos em secas, não é curioso andarmos há anos a falar disso em Portugal sem que, no entanto, nada se faça? E não me refiro a fechar uma central a carvão ou acabar com os carros a gasolina para pôr fim ao tal aquecimento global.

É que, para além do clima, há outras razões para as secas estarem a piorar, sendo a principal a explosão populacional.

Ora vejamos. Em 1100, Portugal tinha 495 000 habitantes. Em 1900, ou seja, após 800 anos, esse número tinha subido para pouco mais de 5 milhões. E cerca de 100 anos depois, tínhamos duplicado esse número, ultrapassando os 10 milhões de habitantes!

Pior ainda, durante uma boa parte da nossa história o consumo de água era reduzido, mesmo na agricultura. Não temos muitas zonas propícias à criação de canais de irrigação natural, como na Madeira, e, sem distribuição mecanizada desse líquido, gastava-se apenas o indispensável. É que, mesmo nas cidades, era preciso ir buscar água ao chafariz ou fonte mais próxima. E no campo, a única opção eram poços, as chamadas minas ou algum rio ou riacho que circulasse na zona.

Ora os hábitos de consumo mudaram imenso, basta pensar no banho. E na agricultura, já não nos contentamos a esperar que chova “pela vontade de Deus” e, se não chover, é a seca e a morte dos mais fracos – uma das razões do lento aumento da população durante séculos é que, quando subia um bocado, havia uma seca, uma epidemia ou algo similar que causava uma baixa considerável.

Sabemos quase desde que somos país que este cantinho da Europa tem uma grande propensão para secas. E o que fazemos para minorar os seus efeitos? Pois bem, pouco ou nada.

Defendo há anos a criação de albufeiras, que armazenem água para fins agrícolas e de criação de gado, espalhadas um pouco por todo o país. Nem teriam de ser muito grandes ou complexas, é um daqueles casos em que a quantidade é o mais importante – tome-se Israel como exemplo.

Também nunca entendi porque não se reaproveita sempre a água saída das ETAR, que é, muitas vezes, bem melhor do que a que é usada como base para o abastecimento de água.

Outro projeto muito contestado pelos “ambientalistas” era o do transbordo do excesso de água do rio Douro, por exemplo, para outros rios de menor caudal e / ou para albufeiras ou lagos artificiais, com a vantagem de isso reduzir imenso o célebre problema das cheias desse rio em anos em que chove mais. Mas isso era interferir com a natureza...

Isto, sim, seriam medidas a sério, em vez do atual “a culpa é das alterações climáticas”!

E já agora, um aquecimento global a sério também traria vantagens. Por exemplo, choveria mais em toda a área do deserto do Saara, permitindo o crescimento de vegetação e, claro, a presença de animais. A Islândia e Gronelândia voltariam a ser o que foram brevemente há dez séculos. E muitos outros casos similares, em que zonas atualmente inabitáveis passariam a poder sê-lo.

O que me leva ao meu ponto final. Porquê este pânico todo em relação ao desaparecimento dos glaciares? Que, diga-se de passagem, já nem deviam existir, a fazer fé em “previsões científicas” algumas tão recentes como 2008, teriam acabado de vez até 2020.

É que quando ouço as lamúrias a eles respeitantes fico logo a pensar no que teria sido dito no início da atual Idade Interglacial se estes “iluminados” estivessem presentes e vissem a brutal redução da cobertura de gelo na Europa, que levou a brutais inundações por todo o lado – e, já agora, a tornar o Saara habitável entre 11 000 e 6000 anos atrás.

A que atribuiriam as culpas? Ao metano produzido pelos mamutes em extinção? À punição pelos excessos de consumo de muitas tribos da época? Pena não haver uma máquina do tempo...

Para a semana: A eterna praga dos incêndios! – Todos os anos, a mesma tragédia, a mesma culpabilização, a mesma inércia...

12
Ago22

45 - Velhos não são lixo

Luísa

O envelhecimento da população é um assunto que está muito na moda, mas sempre acompanhado de previsões económicas catastróficas e do já muito típico choradinho de “coitados dos velhinhos”. Mas, muito francamente, o problema não é o disparo no número de pessoas acima dos 60 anos mas sim o facto de não termos a flexibilidade e a imaginação para repensar esta nossa sociedade. E, por muito que falemos de cuidar dos idosos e respeitá-los, a triste realidade é que os vemos, de facto como lixo tóxico.

Basicamente, oscilamos entre dois extremos, num verdadeiro cenário de esquizofrenia.

Por um lado, fartamo-nos de ouvir falar das más condições em que vivem muitos idosos, das pensões de miséria, da solidão, do abandono por parte dos familiares, enfim, um nunca acabar de queixumes, bem verdadeiros, diga-se de passagem, mas que são, infelizmente, os mesmos desde há muitos anos sem que nunca se faça nada para os minorar.

Mas, ao mesmo tempo, temos o contínuo refrão de que é preciso aumentar a natalidade para suportar os custos com a população idosa, que o atual desequilíbrio de 159 idosos para 100 jovens é insustentável a muito curto prazo,  deixando, enfim, no ar a ideia de que os idosos são um peso para a sociedade, consumindo fundos que tanto custam a ganhar e nada dando em troca.

E, sentindo-nos muito virtuosos por lastimarmos os tais “velhinhos, coitadinhos”, seguimos com as nossas vidinhas sem sequer nos darmos conta de que os estamos a ver como desperdícios que nos ficam bem caros.

Pois bem, acho que devíamos acabar de vez com esta ideia de que os idosos não passam de um sugadouro de meios e que já nada podem contribuir para a sociedade e para o país. E, sobretudo, acabar com essa dos “velhinhos”, que até surge na boca de dirigentes de organizações supostamente de defesa dos direitos da terceira idade.

É verdade que, ao contrário do que aconteceu durante séculos ou até milénios, os idosos já não são o repositório da sabedoria da sociedade em que vivem. Tudo muda agora demasiado depressa e é quase impossível uma pessoa de uma certa idade conseguir acompanhar essas contínuas evoluções, sobretudo quando ouve repetidamente que isso já não é para ela.

Mas isso não significa que seja inútil! Muitos idosos seriam até bem capazes de trabalhar, de “contribuírem”, se não estivessem sempre a ouvir dizer que o seu tempo já passou e que está na altura de darem lugar aos novos, sendo arrumados a um canto com o pretexto, repito, muito “virtuoso” de que já trabalharam muito e agora é altura de descansarem.

E a reforma obrigatória, pelo menos para quem é do Estado, também não ajuda. Será que quem fala em diminuir a idade em que nos podemos reformar está ciente dos inúmeros problemas psicológicos que muitos reformados enfrentam precisamente porque se sentem postos de lado, como uns sapatos velhos?

Para quem trabalhou toda a vida, parar de repente, como acontece agora, não é de modo algum a melhor solução. De membros da sociedade plenamente contributivos, passam, literalmente de um dia para o outro, a desocupados. Ora isso não está certo, penso até que a reforma devia ser facultativa, quem assim o desejasse poderia continuar a trabalhar. E mesmo que a esmagadora maioria aceitasse ir para casa, o simples facto de terem essa opção seria um bom estímulo psicológico.

Passando agora à solidão, esta é mais uma das muitas questões em que se fala muito, mas nada se faz. No fundo, achamos perfeitamente natural que os idosos vivam separados de nós e nem sequer pensamos em como passam o tempo. Esse assunto só vem à baila quando algo acontece. Por exemplo, os infelizmente vários casos em que idosos foram descobertos mortos em casa semanas ou meses depois de terem falecido.

E se em vez de os ostracizarmos fizéssemos um esforço para lhes proporcionar algum contacto humano?

Não custaria muito uma junta de freguesia criar a chamada “árvore telefónica”, em que todos os dias um idoso recebe uma chamada da pessoa antes dele na tal árvore e, logo a seguir, fala com a que vem depois dele nessa estrutura. Nem que a conversa se limite a um “olá” e “como está” já era uma ligação a outras pessoas. E caso alguém não respondesse, isso seria de imediato um sinal de alarme. E lembremo-nos que estes casos têm todos acontecido em freguesias minúsculas que lutam com unhas e dentes contra a sua fusão numa única maior com o pretexto de que iriam perder o contacto com a população. Pois!

Mais ainda, que tal pensarmos em “adotar” um avô ou uma avó? Só faria bem aos jovens terem contacto com alguém bem mais velho e o idoso em questão não se sentiria posto de parte só por ter passado do “prazo de validade”.

E os lares não têm de ser o que muitos são agora, “armazéns” onde se despejam idosos indesejados. Sim, muitos acabam por ter de recorrer a uma dessas instituições porque precisam de cuidados que a família não tem condições de lhes prestar. Mas por cada um destes há muitos outros que são simplesmente largados ali para não incomodarem a vida de ninguém.

Sempre achei curioso que haja tantas regras para a criação de um lar, mas que nada se faça para manter os seus utentes inseridos na sociedade que os rodeia. Fala-se em terem animadores culturais, motoristas, enfim, um nunca acabar de pessoal, mas resume-se tudo a mantê-los dentro daquelas quatro paredes, para que não perturbem o “mundo real”.

Ou seja, temos “eles” e “nós” e um abismo entre ambos. E isto está errado a muitos níveis e para os dois lados.

Sim, temos vidas ocupadas, o pouco tempo livre que  nos sobra devia ser para nossa diversão, só que tudo isso não passa de uma fuga a uma situação que nos é, confessemo-lo, desagradável.

É que, se formos sinceros connosco, teremos de admitir que uma das grandes razões de pormos os idosos de parte é que a sua existência é um lembrete, nada bem-vindo, de que é esse o nosso futuro, de que, a médio ou a longo prazo, será a nossa vez de sermos tratados como lixo e postos totalmente à margem de tudo e de todos. E a nossa resposta a esse temor é enfiar a cabeça na areia e fingir que nada disso irá acontecer, que ficaremos novos para sempre...

Já agora, o meu outro blogue, Ir para novo, trata precisamente de envelhecer, Pode encontrá-lo em https://irparanovo.blogs.sapo.pt/

Para a semana: É o clima! – Os bem-pensantes descobriram as alterações climáticas... e a culpa é do Ocidente.

05
Ago22

44 - Jornalismo ou jornalixo?

Luísa

Ouvimos frequentemente jornalistas afirmarem-se como os guardiões da verdade, os defensores da democracia, enfim, a única barreira entre o “povo” e a tirania. E até têm razão, se estiverem a falar do jornalismo de há algumas décadas, que teve realmente um papel importantíssimo na revelação de muitos segredos e escândalos e que vigiava, com olho de lince, a sociedade e, acima de tudo, os seus políticos.

Infelizmente, tudo isso ficou para trás e o que temos agora em nada se assemelha ao que era e, muito menos, ao que nos repetem que é.

Neste meu post irei referir vários aspetos tremendamente negativos do chamado quarto poder.

Penso que só os mais distraídos é que ainda não notarem que jornalista é agora um propagandista político, mas, atenção, só de determinada política (e políticos). Com exceção de alguns nomes mais antigos, que se dão ao luxo de pensarem por si e chamarem “os bois pelos nomes”, a regra é não relatar factos lesivos dos interesses da esquerda e empolgar os que possam lesar a chamada direita. Ou seja, um jornalista considera-se o único decisor do que deve ou não ser contado e da “luz” sob a qual as coisas devem ser vistas e quem se atrever a pensar de outro modo...

Exemplos? Pensem em Passos Coelho / Sócrates (5000 euros de dívida à Segurança Social / 25 milhões emprestadados), Lula / Bolsonaro (só roubou umas coisinhas / é um ladrão) e, sobretudo, Trump / Biden (curioso que não se ouça falar dos inúmeros problemas que assolam atualmente os EUA). Ou, a nível de partidos locais, PCP / Chega (lembro que a UE equiparou o comunismo ao nazismo).

Sim, sei que ninguém é isento, mas, a menos que seja um editorial ou uma coluna de opinião, um jornalista devia, no mínimo, tentar sê-lo. É que ninguém o elegeu como “dono da verdade” e, além disso, se quer fazer política, então faça-a sério, abertamente.

Pior ainda do que acima disse, publicam-se e transmitem-se muitas vezes notícias que não passam de meros boatos, apenas porque convêm a determinados setores da nossa sociedade.

Quem viu o filme Os Homens do Presidente recorda certamente a regra repetida pelo editor do Washington Post – que na época era um jornal a sério e não a autêntica “folha de couve” em que se tornou – de que uma notícia, para ser notícia, precisava de ser confirmada por três fontes. Agora temos sorte se existe ao menos uma!

E como corolário, digamos, desta faceta, há notícias que são lançadas com um enorme estrondo e que, quando se chega à conclusão de que não são o que tinham pensado à primeira vista, desaparecem abruptamente.

Um exemplo? Há uns anos houve motins violentíssimos entre dois bairros de Londres, um deles de maioria indiana. Os noticiários televisivos encherem-se de imagens trágicas e de discursos sobre racismo, tolerância, neonazis, etc. Mas no dia seguinte, tudo isso desapareceu. Como vejo noticiários de canais estrangeiros, sei que a situação durou quase uma semana, com incêndios, destruição, mortos e feridos. E porque é que deixaram de falar disso? Pois bem, a luta era, de facto, entre paquistaneses e indianos e não entre brancos e estes últimos. Como foi decidido que só brancos são racistas, pois bem, eliminou-se a notícia.

Temos também esta situação altamente curiosa, sempre que um português tem problemas num outro país, a nossa comunicação social alinha logo com os que mais o vituperam sem, mais uma vez, se darem ao trabalho de verificar os factos.

Lembram-se daqueles jovens acusados da violação em grupo de duas espanholas? A história tinha, à partida, inúmeras incongruências e detalhes absurdos. Mas os nossos jornalistas foram dos mais ferozes a atacarem-nos. E já notaram que o caso pura e simplesmente desapareceu uns dias depois? Se aquilo aconteceu de facto, não seria de pensar que haveria seguimento até à sua conclusão judicial? Ou será que os factos provaram que afinal não havia caso?

Temos ainda o modo como tentam escamotear pormenores quando relatam crimes. Já repararam que se o suposto criminoso é branco isso é dito com todas as letras mas se não o for, é apenas uma pessoa? Acham que quem os lê ou ouve ainda não descobriu isso?

Outro problema é o facto de se limitarem a repetir o que outros disseram, sem se darem ao trabalho de verificarem se é ou não verdade. Há uns anos, deu-se um caso que achei paradigmático. Um aluno de liceu, algures no Norte, publicou, para se divertir, uma história absurda no jornal da escola. Com grande espanto seu, foi depois publicada pelo jornal da região e daí passou para os nacionais, sem que ninguém tenha olhado para ela e pensado, “Isto é muito estranho, talvez seja melhor verificar.” E este foi só um exemplo do que se passa.

Temos também a profunda ignorância de muitos repórteres sobre os assuntos que estão a investigar. Lembro-me de há uns anos uma jornalista estar a fazer uma reportagem sobre problemas com a alimentação de gado e um criador ter referido que usava bagaço na ração que dava às vacas. Pois bem, a dita repórter lançou logo uma “piadinha” sobre embebedar os animais, ignorando, pelos vistos, que bagaço não é só álcool. Então quando o tema tem a ver com ciência, mesmo vagamente, é um festival de disparates. Ninguém nasce ensinado ou pode saber tudo, mas se vão falar de um determinado assunto mais complexo seria de esperar que se informassem um pouco antes de o fazerem.

Não vou sequer entrar nos “pontapés no português” e na deturpação que sofrem certas notícias porque, aparentemente, ninguém tem dinheiro para contratar um bom tradutor. Estes são, infelizmente, problemas transversais à nossa sociedade, mas bem mais graves quando vêm da comunicação social porque acabam por influenciar o modo como muitas pessoas falam.

Resumindo, para mim os jornalistas têm agora credibilidade zero, a menos que me provem, repetidamente, o contrário.

Quem me conhece sabe que há uma coisa que repito muitas vezes e que é a seguinte: se um jornalista anunciar que amanhã o sol vai nascer – atenção, não me refiro a “vai nascer à hora tal” mas simplesmente, “vai nascer” – entrarei logo em pânico por receio de que tenha acontecido algo à nossa estrela. É que se foi dito pela comunicação social, é muito provável que esteja errado.

Para a semana: Velhos não são lixo! – Em vez de lastimar o envelhecimento da população, que tal repensar o conceito de velhice?

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