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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

17
Dez21

12 - Mentir dizendo só a verdade

Luísa

Quando era miúda lembro-me de ter lido um artigo ou livro com este título e que muito me fez pensar. Infelizmente não recordo exatamente o que era e uma pesquisa na internet mostra apenas exemplos recentes.

Sei que pode parecer um contrassenso, mas infelizmente é bem real e  políticos e jornalistas são os seus grandes especialistas. Ainda por cima, há vários modos de o fazer e é preciso estar-se realmente muito atento para não se cair na esparrela.

O meu modo favorito consiste em listar uma série de factos totalmente verdadeiros mas que levam inevitavelmente à conclusão errada.

O meu exemplo favorito é o monóxido de di-hidrogénio (DHMO) ou ácido hidroxílico. O alerta para os seus perigos surgiu nos anos 80 e ganhou força em 94 com a criação da Coligação para banir DHMO. Seguem-se algumas das muitas provas apresentadas para a sua perigosidade: principal componente da chuva ácida, no estado sólido causa queimaduras graves, provoca erosão nos solos, foi encontrado em todas as biópsias de tumores cancerígenos, é um dos gases do efeito de estufa, todos os assassinos o ingeriram antes dos seus crimes, causa dependência e a abstenção leva inevitavelmente à morte, a sua inalação também pode causar a morte...

Escusado será dizer que a tal Coligação foi muito popular mas, infelizmente, sem resultados práticos: o DHMO ainda é totalmente legal! E se querem saber porquê, terão de ler este post até ao fim.

Um outro modo de mentir dizendo a verdade consiste em desviar subtilmente o assunto de modo e debitar uma rajada de dados, todos eles bem verdadeiros, mas que nada têm a ver com a pergunta feita e que têm como objetivo principal deixar a impressão oposta à realidade.

Por exemplo, perguntam a um político a sua reação a uma taxa de desemprego que subiu imenso e o dito entra numa descrição animadíssima de futuros programas de formação profissional que estão a ser estudados para serem implementados a curto prazo e que irão melhorar em muito as condições de empregabilidade dos cidadãos. Ou refere taxas de desemprego baixas de anos anteriores e que atribui à ação do seu partido / governo, deixando em quem o ouve a impressão de que afinal está tudo bem.

O político mentiu? Não! E pode até dizer com toda a sinceridade que não é responsável pelo facto de as pessoas terem ficado com a impressão errada sobre o que ele disse (também verdade).

Ou uma sua versão também muito popular em que, por exemplo, em resposta a uma pergunta sobre um crime cometido por alguém, se diz “É um grande especialista em cerâmica neolítica.”

Infelizmente, esta tática não é para todos, exige um certo talento natural. Mas não desesperem, há outra bem mais simples, especialmente para quem é da área jornalística, e que consiste em usar um título pomposo que refere um detalhe da notícia em questão mas que, usado só por si, é totalmente enganador.

Como exemplo, houve a célebre notícia do New York Times de que o Trump pagara apenas 300 e tal dólares em impostos por uma das suas empresas. Pois bem, lendo o artigo todo e tendo ultrapassado dúzias de parágrafos chatérrimos chegava-se finalmente ao facto de que a empresa em questão usara o dinheiro que tinha acumulado nas Finanças e que os tais 300 dólares eram apenas o que faltava num pagamento de vários milhões — é que nos EUA, uma vez pago o imposto anual, não há só os dois resultados existentes em Portugal, pagar caso falte dinheiro ou receber o que se pagou em excesso, lá há uma terceira hipótese que é deixar nas Finanças o excesso a devolver para vir a ser usado num pagamento futuro.

O jornal mentiu? Não, o pagamento nesse ano foi realmente de 300 e tal. Mas enganou muita gente ao enterrar a explicação no último parágrafo de um artigo de fazer sono ao pior sofredor de insónias. E tenho a certeza de que se pensarem um bocadinho recordarão inúmeros casos em que um título, apesar de correto, dava uma ideia totalmente errada dos factos.

Vamos agora à quarta maneira e que consiste em apresentar números de um modo deem um ar favorável ou desfavorável aos acontecimentos. É uma tática muito popular quando se fala em aumento de preços e pode ser usada, repito, de dois modos. Talvez um exemplo seja mais esclarecedor.

Suponhamos que o preço atual de um passe X de transportes públicos é 40 euros e que ia sofrer um aumento. Se o governo responsável por esse agravamento não é da simpatia do jornalista, este dirá, “Que horror! Os passes X vão ser aumentados em 7 %!” Mas se for da sua estima, então é, “Passes X aumentam só 2,8 euros.” Pois, é exatamente a mesma coisa e o jornalista não mentiu, mas sabia perfeitamente que a maioria das pessoas reage de modo diferente aos dois números sem repararem que estão em unidades diferentes.

Há muitos outros modos de conseguir mentir sem dizer uma única mentira, como usar eufemismos com o único objetivo de minimizar a gravidade de uma situação (ou de a maximizar, se for essa a intenção).

Ou o uso de boatos, mas de um modo que deixa quem os conta totalmente livre de responsabilidades pelo seu conteúdo, tipo “Consta que... A ser verdade, é muito grave.” Pois, que culpa tem o inocentinho que o disse se quem o ouviu não se deu ao trabalho de confirmar os factos?

E o DMHO, o tal produto altamente nocivo que devia ser banido? Pois bem, é a comezinha água! Mas se voltarem atrás e relerem o que eu escrevi verão que não há uma única mentira na lista que indiquei ou na mais completa de que tirei esta parte.

Para a semana: A (des)igualdade de género – um tema muito na moda

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