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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

03
Dez21

10 - O pecado esquecido

Luísa

Para os que, mal leram o título, imaginaram um texto muito religioso, e por religioso querem dizer cristão, claro, confesso abertamente e desde já que a sua origem é de facto religiosa, mais especificamente, católica. Mas sempre me intrigou não se lhe dar ênfase, dentro e fora do mundo da religião, uma vez que para mim é um conceito básico de uma vida realmente ética.

Todos já ouvimos falar dos pecados mortais (ou capitais, consoante a fonte), sim, os do filme Se7en. Alguns saberão também da existência dos pecados veniais que, como o nome indica, são muito menos graves, um exemplo seria dizer mal de alguém pelas costas – sim, é pecado!

Mas nos meus tempos de Catequese nunca me ensinaram que havia um terceiro tipo de pecado, o pecado por omissão e que é, na expressão do Padre António Vieira, “um pecado que se faz não fazendo”.

Confusos? Continuem a ler e já entenderão.

O que os pecados mortais e veniais têm em comum é estar implícito neles que fizemos algo mau, algo que prejudicou alguém ou a nós próprios. No pecado por omissão, pelo contrário, não fizemos rigorosamente nada. E, elemento muito importante, essa nossa inércia até nem causou mal a ninguém (ou a nós). Mas se tivéssemos agido, teríamos feito bem a alguém (ou, mais uma vez, a nós).

Vamos lá a uns exemplos da sua expressão mais simples.

Sabem aquela amiga que anda triste ou preocupada e que um telefonema nosso poderia animar um pouco, mas não nos apetece fazê-lo? Pois bem, não lhe ligar é um pecado por omissão, podíamos ter feito um pouco de bem e não o fizemos, apesar de o nosso silêncio não ter feito mal.

Vemos alguém na rua com um ar perdido e até nem custaria muito perguntar se precisa de ajuda? Pois, não vale a pena, outros certamente ajudarão. Uma pessoa de idade está atrapalhada com inúmeros sacos e tem dificuldade em subir ou descer umas escadas? Bom, não nos compete cuidar dela, pois não?

Todos nós passamos diariamente por situações destas na rua, em casa, com desconhecidos, vizinhos ou familiares. E o facto de não termos feito algo por essas pessoas não as prejudicou, se nós não existíssemos ou não estivéssemos simplesmente presentes, a sua situação seria exatamente a mesma. Por isso não “pecámos” no sentido estrito do termo.

Destes exemplos há de imediato uma conclusão a tirar: podemos ser pessoas excelentes, das que nunca fazem nada que não devam fazer, um exemplo para quem nos conhece, uns verdadeiros “santos”, e apesar disso cairmos constantemente neste pecado.

Se passarmos a um nível mais geral da sociedade, então as situações multiplicam-se.

É o trabalhador que nunca falta e que até cumpre bem as suas funções, mas que não vai aquele bocadinho mais além e dá o melhor de si em tudo o que executa. São os pais que cuidam dos seus filhos e lhes dão o que podem em termos materiais, sobretudo, mas que, por exemplo, não os ensinam a pensar por si porque é “para isso que existe a escola”. São as horas que se desperdiçam em distrações ocas, meramente para passar o tempo, quando as podíamos usar para melhorar os nossos conhecimentos ou colaborar em obras de ajuda a quem dela precisa.

Levando este conceito um pouco mais longe, para a área da política, por exemplo, é não ir votar “porque não vale a pena” em vez de nos esforçarmos por entender o que está em jogo e, até, de participar a sério quanto mais não seja a nível local. É ver problemas locais ou nacionais e não pensar em como se pode ajudar a resolvê-los, ficando passivamente à espera que alguém, o célebre Sr. Alguém, tenha uma ideia e organize tudo o que tem de ser feito.

É, até, não nos informarmos devidamente e nos limitarmos a repetir acefalamente o que ouvimos dizer, em vez de melhorarmos a nossa compreensão dos problemas que afligem a nossa sociedade e, melhor ainda, ajudarmos outros a compreendê-los.

Como veem, este pecado pode ter começado como um conceito cristão, mas penso que podemos todos concordar que a sociedade seria certamente um lugar melhor se nos ensinassem desde muito novos a não o cometer. Seria certamente um bom tema para as célebres aulas de Cidadania de que tanto se tem falado ultimamente.

Mas um grande problema deste conceito é que, ao contrário dos pecados capitais e veniais, que estão bem definidos, este é muito vago, é, basicamente, “ver o bem que se podia fazer e ficar parado”. Daí eu achar que quanto mais cedo formos educados para esta ideia, mais atentos estaremos às situações desse tipo que surjam ao longo da nossa vida.

Já dizia o Padre António Vieira, “a omissão é o pecado que com mais facilidade se comete e que com mais facilidade se desconhece”. E acrescentou ainda, “e o que facilmente se comete e dificultosamente se conhece, raramente se emenda”.

Se vos fizer sentirem-se melhores, não pensem nisto em termos de pecado, com a sua conotação de Inferno e tudo isso, mas sim como um modo de melhorarmos quem somos, fazendo o bem sem a isso sermos obrigados.

 

Para a semana: Mitos perigosos – e que muitos males causam atualmente.

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