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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

05
Nov21

6 - Uma sociedade de coitadinhos

Luísa

Não sei se têm reparado, mas “coitadinhos” é um dos termos que mais se ouve quando se liga a televisão, e não só. Para além dos “velhinhos, coitadinhos” a que me referi anteriormente, temos as criancinhas, os jovens, as mulheres, enfim, é um nunca acabar de gente coitadinha.

Curiosamente, se olharmos para os factos, nunca houve tantas oportunidades no nosso país nem nunca se viveu melhor – sim, fala-se muito no abismo entre ricos e pobres e nas muitas pessoas que vivem no limiar da pobreza, o que até é verdade, mas nunca se refere que o valor desse limiar tem aumentado imenso nas últimas décadas e que um pobre de hoje não o seria há uns vinte anos ou ainda menos.

Os pais têm de ir cedo para o emprego? Coitadinhas das criancinhas que têm de se levantar a uma hora tão matinal e passam o dia cheias de sono. É claro que não há a menor menção da hora a que as ditas criancinhas se deitam, quando a realidade é que ficam muitas vezes a pé até bem tarde a ver programas televisivos nada adequados à sua idade.

Não há empregos de pedra e cal à espera de todos os jovens que se formam, muitas vezes em cursos que para além de lhes darem uma certa cultura não têm a menor utilidade? Coitadinhos dos jovens que sofrem com a precariedade no emprego. Francamente, acham mesmo que o sonho de um jovem deva ser arranjar aos vinte e poucos anos o emprego que terá para o resto da vida? Não os devíamos antes encorajar a explorar o mundo do trabalho para verem o que realmente gostam de fazer? Isto sem contar que com o ritmo de mudança atual das sociedades, a ideia do “emprego para a vida” já devia ter desaparecido. Mais ainda, aquilo de que gostamos aos vinte é muitas vezes enfadonho uns anos mais tarde, mas, pela teoria vigente, há que aguentar porque a única coisa que importa é ter um contrato permanente de trabalho.

As mulheres, então, são coitadinhas por natureza. Curiosamente, num país que tanto se queixa da baixa taxa de natalidade, sempre que querem falar da situação da mulher no mundo laboral, lá vem a inevitável análise de que, coitadinhas, têm a sobrecarga dos filhos pequenos e por isso não conseguem singrar em empresas. Ou na política. Ou noutra coisa qualquer. A sério? A maioria das mulheres portuguesas têm filhos pequenos? E que, pior ainda, nunca crescem? É claro que isto evita uma análise a sério da situação ou, até, a simples questão de saber se todas as mulheres querem uma carreira.

E não esqueçamos os tais velhinhos que, independentemente do seu estado de saúde e estatuto financeiro, são sempre coitadinhos, o que tem a imensa vantagem de não termos de olhar a sério para eles e ver quem são e de que é que precisam, basta a satisfação de sabermos que os lastimamos. E ignorando com total displicência que uma pessoa de sessenta anos de agora é bem diferente de uma da mesma idade há uns anos, na forma física e na mental, precisando, pois, de um outro papel na sociedade.

Mas a aplicação mais frequente do termo tem a ver com o “mau do mundo moderno”. Basicamente, somos todos uns coitadinhos porque somos forçados a viver neste terrível mundo impessoal, tecnológico, apressado, enfim, infernal! Não sei em que mundo nasceram essas pessoas, mas duvido seriamente que a sociedade por que tanto suspiram tenha alguma vez existido, exceto em livros totalmente fantasiosos.

Sabem a que me refiro, um mundo de pequenas povoações em que todos se conhecem e se entreajudam, onde não há pobres, onde a vida decorre calma, com tempo para “cheirar as rosas”, enfim, um mundo cheio de paz e boa vontade...

E é um fenómeno que alastra cada vez mais neste nosso risonho país, a tal ponto que um dia destes será difícil encontrar um grupo, um subgrupo até, na nossa sociedade a quem o epítome não tenha sido aplicado.

Estranhamente, quando as criancinhas se tinham de levantar cedo não para irem para a escola mas para ajudarem os pais nos campos ou em que ficavam entregues a si mesmas ou a irmãs pouco mais velhas do que elas enquanto os pais trabalhavam, não eram coitadinhas.

Os jovens que começavam a trabalhar antes dos dez anos, muitas vezes em tarefas demasiado pesadas para os seus corpos, e que sabiam que os esperava uma vida de trabalho árduo só para sobreviverem, não eram coitadinhos.

As mulheres que tinham filhos atrás de filhos, que viam muitos morrerem ainda bebés, que trabalhavam duramente nos campos ou em fábricas para além de cuidarem da casa e dos filhos e que nem educação recebiam, não eram coitadinhas.

Os idosos, esses, que a menos que tivessem bens ou família disposta a sustentá-los, caíam na mais negra miséria e abandono, também eles não eram coitadinhos.

As pessoas que viviam em casas em que o que agora consideramos abaixo do mínimo aceitável seria um luxo (um quarto de banho para dez, por exemplo), que percorriam quilómetros a pé todos os dias para irem à escola ou ao emprego por não haver transportes, não eram coitadinhas.

Francamente, exatamente como com os tais arautos da desgraça, nunca percebi a utilidade de todas estas cenas do coitadinho, nunca apresentam soluções nem analisam as coisas a sério, limitam-se a dizer “coitadinhos os / as...” e pronto, está o assunto arrumado. Pior ainda, à força de tanta repetição, quem os ouve acaba por se convencer de que é, de facto coitadinha.

Fico com a ideia de que “coitadinho” é uma noção que só nasce em sociedades de abundância, é que nas outras as pessoas estão tão ocupadas a tentar sobreviver que não têm tempo para se sentirem coitadinhas.

E para terminar, de acordo com a DGS, Portugal é o país europeu com maior consumo de ansiolíticos e antidepressivos e o seu consumo tem aumentado imenso. Hum... Porque será?

 

Para a semana: Partam-se os vidrinhos – leiam para saberem o que isso é...

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