4 - Estou farta de arautos da desgraça
Não vejo muita televisão por falta de tempo e a pouca que vejo raramente inclui programas portugueses, mesmo assim, entre noticiários e outros programas não pude deixar de reparar na enorme quantidade de “arautos da desgraça”, perdão, de especialistas em tudo e mais alguma coisa que nos entram continuamente pela casa dentro. Então agora com a pandemia, a sua multiplicação é digna do milagre dos pães e dos peixes.
Até seria muito útil ouvirmos o que têm a dizer, ao fim e ao cabo são (supostamente) especialistas no assunto em questão, infelizmente tenho reparado também num pequeno detalhe: falam todos muito em problemas, na tragédia que isto ou aquilo é para as pessoas, pintam um quadro negríssimo da situação atual e futura e depois... mais nada.
Vejamos um exemplo. Durante a pandemia ouvimos repetidamente de sociólogos, psicólogos e outros “logos” como era terrível para a saúde mental dos portugueses terem de estar fechados em casa e como isso viria a ter consequências trágicas num futuro mais ou menos próximo. E eu até concordo que a falta total de convívio não é certamente saudável. Qual é então o meu problema com estes discursos? Pois, é muito simples, só falam do problema mas nunca, nunca apresentam propostas para o minorar.
Estar fechado em casa por razões alheias à vontade própria é mau? É claro que é. Mas há com certeza inúmeras maneiras de contornar ou, pelo menos, de minorar essa situação e seria indubitavelmente mais útil ter um especialista a falar em, por exemplo, “10 maneiras de conviver sem sair de casa” ou “Como jantar com amigos, cada um em sua casa” ou “Relaxe e diversão em confinamento”, em vez de repetir, pela enésima vez, que vivemos numa tragédia e que esta irá dar origem a outras ainda piores.
Curiosamente, antes da dita pandemia ouvíamos estes ou outros especialistas lastimarem situações praticamente opostas, como “a tragédia de os pais nem terem tempo para estarem com os filhos devido aos longos horários de trabalho” ou “as pessoas nem têm tempo para si”, por exemplo, mais uma vez sem propostas para as melhorarem.
Segundo parece, estes especialistas, como bons arautos da desgraça que são, usam lentes especiais que fazem com que tudo para que olham seja trágico, sobretudo comparado com um mundo mítico ideal que nunca se dignam dizer-nos como é.
Pior ainda, fazem com que pessoas que lidam bem com os problemas para que alertam comecem a duvidar de si mesmas. É que se é tudo tão trágico, tão catastrófico, devem ser loucas ou no mínimo inconscientes para pensarem que estão a lidar bem com isso.
Repito, muitas das situações para que nos alertam são realmente más e podem vir a provocar inúmeros problemas num futuro nem muito distante. Não é pois isso que está em causa. O que me repugna é o facto de verem as coisas por um único prisma, o mau. Segundo parece, nunca ouviram dizer que uma crise pode (e deve) ser uma oportunidade se for vista pelo prisma correto.
Vejamos alguns exemplos.
Com a pandemia, muitos foram forçados a ficar em casa sem trabalharem, mantendo ou não o emprego. Não teria sido bom ouvirem da boca de especialistas opções para ocuparem esse tempo? E não me refiro a distrações. É que seria uma oportunidade excelente para meditarem a fundo sobre o tipo de trabalho que fazem e o que gostariam de fazer, para melhorarem ou adquirirem competências (há cada vez mais opções via Internet), ou, até, para tentarem concretizar o sonho de converter em negócio um passatempo...
Outro exemplo, os muitos idosos em lares que ficaram sem visitas dos familiares. Sim, é uma situação trágica, mas que tal proporem soluções para reuniões virtuais (ensinando, por exemplo, o pessoal desses lares a usar o Zoom ou algo similar) ou para outros modos de convivência não física?
E o ensino à distância? Os horrores que ouvimos dizer sobre esta opção – curiosamente, criancinhas australianas passaram anos a estudar via rádio, sim, rádio, e não se deram nada mal com isso. Mas se atendermos às opiniões de peritos em ensino, especialistas em jovens, etc., foi uma solução péssima! Será que ficarem em casa sem estudar teria sido melhor? É que a escolha não era entre ensino presencial e ensino à distância, era, sim, entre este e zero ensino!
Não sou especialista em nada disto, mas como mera leiga que sou parece-me que as comparações não devem ser feitas entre a realidade e uma imagem ideal de uma certa situação. Devem, isso sim, tentar tornar essa realidade, por muito má que seja, na sua melhor versão possível – ou, pelo menos, na menos má. É que francamente, se não podemos eliminar um problema, se, para falar depressa e bem, as coisas são o que são, então para que serve lastimarmo-nos? É pura perda de tempo e, pior ainda, não melhorará a tal saúde mental de que tanto se fala.
Infelizmente, esta questão não surgiu agora com a pandemia, é algo que me desperta a atenção há anos, foi apenas exacerbada por ela, talvez por falta de outros assuntos com o país e o mundo “encerrados”. Fica-se até com a sensação de que um especialista só se acha digno desse nome se fizer de qualquer coisinha uma tragédia. Sim, de qualquer coisinha.
Ou seja, especialista só é especialista se for um arauto da desgraça!
Uma pequena nota, refiro-me aqui a especialistas das áreas sociais, sobretudo sociólogos e psicólogos. Há muito a dizer sobre os de temas mais científicos (energia, clima...), mas isso fica para outra ocasião.
Para a semana: A Internet não é perigosa – pois, não é o que estamos sempre a ouvir....
