2 - Os homens não devem ajudar em casa
Comecemos por fazer uma pausa para dar tempo aos insultos, ataques cardíacos e outras reações similares a este título. E agora, vamos por partes.
Analisemos primeiro a palavra “ajudar” e o que ela implica. De acordo com o dicionário, significa “dar ajuda a, auxiliar”. Ou seja, eu ajudo quando faço alguma coisa que não é minha obrigação fazer e com a intenção de auxiliar alguém. A ênfase está, ou devia estar, em “algo que não tenho obrigação de fazer”.
E este é que é o problema. Quando dizemos, “os homens devem ajudar em casa” estamos de facto a dizer que as tarefas domésticas são da exclusiva responsabilidade da mulher, quer esta tenha ou não um emprego no exterior, com as mesmas ou até mais horas de trabalho que o homem.
Ora isso já devia há muito ter deixado de ser verdade. Se um homem e uma mulher partilham uma casa e ambos trabalham fora, a manutenção do lar é da responsabilidade de ambos. E não, não estou a esquecer os casais homossexuais, é que neste caso, quer sejam dois homens ou duas mulheres, não há uma ideia preconcebida do papel de cada um na sociedade e em casa. Vou pois limitar-me aos casais heterossexuais.
Estranhamente, a brigada do politicamente correto, que anda sempre à procura de nomes ou frases que consideram ofensivos ou, no mínimo, não adequados a uma sociedade moderna, nunca pegou neste caso. Esquecimento? Distração? Ou acreditarão no íntimo que é à mulher que competem os assuntos da casa e que, se tiver muita sorte, arranja um parceiro que a “ajude”?
Pelos vistos, neste caso não se acredita na força das palavras para alterar situações discriminatórias, prefere-se continuar a falar das mulheres como umas coitadinhas que têm uma dupla tarefa a cumprir e a arranjar quotas para tudo e mais alguma coisa usando isso como pretexto.
Se quisermos alterar realmente a posição da mulher na sociedade e no mercado de trabalho temos de começar por esquecer a “ajuda” dos homens em casa e a dar o máximo realce à distribuição das tarefas domésticas por ser esse o dever de ambos.
Atenção, não sou partidária de um regime rígido, quase contabilístico, tipo ontem fiz eu isso, hoje é a tua vez. Há sempre tarefas que uns apreciam mais do que os outros e que fazem melhor ou pelo menos não tão contrariados. E desde que o esforço não recaia todo sobre uma das partes deve ser encontrada uma solução que agrade a ambos. Solução essa que se pode ir alterando com o tempo, sobretudo havendo filhos – sim, estes também devem participar, contribuir para as tarefas domésticas, e não “ajudar” e muito menos a troco de mesadas ou outras benesses.
Se uma das partes estiver em casa a tempo inteiro – e atenção, disse uma das partes, não vejo problema nenhum em ser o homem a fazê-lo – então, sim, a outra parte, se colabora quando chega a casa, estará a ajudar na verdadeira aceção da palavra.
Reconheço também que há, infelizmente, mulheres que fazem uma autêntica sabotagem à colaboração do parceiro, por não estarem dispostas a passar pelo período de aprendizagem de alguém muitas vezes totalmente estreante em certas tarefas. Ou porque as incomoda verem o seu parceiro a ser melhor num campo considerado tradicionalmente feminino, como a cozinha.
Ou ainda por no íntimo acharem pouco digno de um homem ter de fazer tarefas domésticas. E esta atitude não vem apenas de pessoas idosas, criadas noutras épocas e com outros costumes, tenho-a ouvido, com grande espanto meu, em mulheres jovens e até em adolescentes.
Até por isto seria muito importante eliminarmos a expressão “ajudar em casa” do nosso vocabulário, para que as novas gerações vejam como sua obrigação natural contribuir para a manutenção de um lar de que também desfrutam, seja como filhos ou como parte de um casal.
Há ainda mais um inconveniente para o uso deste termo, ajudar. É que à força de o ouvirem, muitos homens ficam no mínimo baralhados e até, digamos, magoados, quando ouvem as respetivas esposas queixarem-se da sobrecarga de trabalho que têm com emprego e casa porque eles “ajudam” nas tarefas domésticas. Podem até ver nesse tipo de comentário uma espécie de traição e, francamente, não deixam de ter uma certa razão – dentro do que sempre ouviram dizer que era a sua função num casal, cumprem integralmente e são “bons rapazes” ao irem além do mero contributo financeiro.
Ou seja, o que está errado não é o que os homens fazem ou não fazem em casa mas sim o paradigma em que isso se tem inserido: as mulheres trabalham em casa, os homens “ajudam”.
Queremos uma mudança nesta situação? Pois bem, o primeiro passo seria alterar a perceção. Não será uma mudança instantânea, custará mais a uns do que a outros, mas é indispensável se quisermos uma sociedade mais igualitária, outro termo também muito na moda. E essa mudança de perceção não afetará apenas os homens mas também as mulheres e será importantíssima para que estas comecem a reformular o seu papel no lar, no casal e na própria sociedade em que vivem.
Espero que agora já concordem comigo, os homens não devem ajudar em casa, devem sim fazer a parte que lhes compete como membros de um casal.
Para a semana: Deixem os bullies em paz - pois, mais uma vez, não é o que pensam.
