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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

23
Ago25

202 - O país do tudo ou nada

Luísa

Uma das (muitas) coisas que sempre me intrigaram em Portugal é esta nossa mania de não aceitar, pelo menos oficialmente, coisas a meia haste. Ou seja, se uma obra, um projeto, são complicados e dispendiosos, nem pensar em começar por uma versão básica que se vai melhorando aos poucos. Nunca, mas mesmo nunca, se devem aceitar soluções do tipo “do mal o menos”.

Vamos a uns exemplos, começando pelos inevitáveis incêndios de verão que, curiosamente, são sempre tratados como novidade em vez da praga anual que realmente são.

Sei que, pelo menos este ano, houve corporações de bombeiros citadinos, de zonas bem afastadas dos incêndios, que se ofereceram para ir ajudar. E foram logo recusados com o argumento de que “não sabem combater incêndios florestais”. Ou seja, numa situação, ou antes, em inúmeras situações em que havia uma notória falta de meios humanos, recusa-se a ajuda de profissionais porque não são... os certos.

Curiosamente, tivemos – não sei se ainda cá estão – bombeiros de um dos países bálticos que vieram precisamente porque não estavam familiarizados com este tipo de florestas e queriam alargar as suas competências.

Temos, também, os nossos militares, que só muito raramente são chamados a ajudar. Sim, não são bombeiros, mas há, certamente, inúmeras situações em que seriam um elemento importantíssimo para libertar os profissionais do fogo para o que fazem melhor. Podiam, por exemplo, abrir caminhos – sim, ouvimos, todos os anos, falar da falta de acessos que dificulta o trabalho dos bombeiros. Ou ajudar a evacuar populações, animais, alimento para estes, enfim, um sem número de coisas.

Sem falar no papel importantíssimo que poderiam ter na vigilância para evitar – ou minorar – a existência de incêndios. Se passassem uma boa parte do verão em exercícios nas nossas zonas florestais, com patrulhas noturnas que incluíssem, por exemplo, drones com câmaras de deteção de calor, incêndios e incendiários seriam muito mais facilmente detetados e, sobretudo, bem mais rapidamente. Mas, claro, “não é essa a função deles”.

Vemos, também, todos os anos, populares a tentarem combater as chamas que se aproximam das suas casas e bens, enquanto esperam pela chegada dos profissionais. Ora não seria uma boa ideia dar alguma formação a populações de áreas em risco? Mostrar-lhe como usar os seus esforços de um modo mais eficaz e menos perigoso? Mas é claro que os que mandam rejeitam logo esta opção porque... civis não são bombeiros.

Como último detalhe deste tema, sempre achei que uma boa parte da culpa de tantos incêndios se deve ao tudo ou nada dos ambientalistas. Ao contrário de muitos países europeus, não desfrutamos das nossas zonas florestadas, uma vez que não há caminhos, trilhos para bicicletas, zonas periódicas com assentos e um local para fazer lume, ou seja, elementos que nos façam sentir que a floresta é nossa. Pior ainda, acabaram com muitas atividades em parques nacionais que ajudavam imenso a reduzir o mato – cabras, por exemplo, ou porcos, limpam qualquer terreno em menos de nada.

Passando à saúde, vemos exatamente a mesma atitude em relação à suposta falta de pessoal que leva ao fecho de Urgências, sobretudo na área dos Partos. O grande argumento é que não é possível ter equipas com todas as valências e que a sua não presença poria em perigo as utentes.

Ou seja, ir para um hospital sem uma equipa completa é mais perigoso do que ter uma criança numa ambulância dos Bombeiros – ou na rua, como vimos bem recentemente? Já agora, e no seguimento do post da semana passada sobre dados – ou a falta deles – muito gostaria de saber quantas vezes é que a tal equipa com todas as valências tem de intervir!

Já não falo em criar um curso de parteiras, à semelhança do que se passa em inúmeros países europeus, mas será que as enfermeiras atuais, com o seu curso de cinco anos, não podem lidar com a maior parte dos partos? É claro que isso iria beliscar a “importância” do papel dos médicos...

Muito francamente, acho, há muito, que os hospitais subvalorizam o papel das enfermeiras – já agora, uso o feminino porque é mais tradicional... Agem como se estivéssemos ainda na época em que era um curso bastante curto e não uma licenciatura como o é atualmente. Sem contar que talvez fosse boa ideia criar uma série de cursos de menor duração para funções específicas – bom, quando o Passos Coelho o quis fazer para instrumentistas, ou seja, enfermeiras cuja única função seria cuidar dos instrumentos cirúrgicos e passá-los a quem os pedisse durante uma cirurgia, caíram-lhe todos em cima.

E porque não tornar o curso de medicina – e o de enfermagem – mais práticos, como acontece em vários países em que a parte puramente teórica é bem mais curta, mas o curso só fica concluído após mais uns anos de internato e estudo (com exames). Mas não, a atitude vigente ficou bem ilustrada com o que se passou durante o auge da pandemia, com a indignação gerada por haver alunos do quinto ano de medicina a fazerem triagem.

Ou seja, achamos, como país, que só se deve agir quando estão reunidas todas, mas mesmo todas as condições consideradas ideais. Caso falte alguma... bom, nada se faz porque se poderia pôr em perigo a população. Talvez seja altura de relembrar a velha expressão “o ótimo é o inimigo do bom”. Mas, pensando bem, se fôssemos menos “perfeccionistas” teríamos de nos mexer mais, agir, fazer pela vida... assim, temos uma boa desculpa para a inércia.

Para a semana: Vira o disco e toca o mesmo. Acusava-se o PCP de "usar a cassete", infelizmente não são os únicos.

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