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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

13
Dez24

166 - Greves

Luísa

Como seria de esperar, agora que temos um governo “de direita” as greves regressaram em força. E há-as para todos os gostos e feitios. E, também inevitavelmente, ouvimos os usuais choradinhos a darem toda a razão aos grevistas, números diferentes de adesão à greve entre entidades empregadoras e sindicatos, o atirar total de culpas ao atual governo... resumindo, um vira o disco e toca o mesmo.

E há, também, um outro pequeno detalhe de muitas delas serem à sexta-feira ou à segunda-feira... ou numa véspera de feriado. Diga-se de passagem que cá em casa isso tem sido apontado há anos, mas só agora começo a ouvir alguns comentários (poucos) sobre isso.

Começo por afirmar que defendo o direito à greve... mas não nos moldes em que decorre em Portugal, onde é, basicamente, decretada pela direção do sindicato em questão. Sim, algumas são “votadas” em plenário de trabalhadores, mas eu sempre achei que uma votação de braço no ar não é uma votação a sério, há toda a pressão psicológica – e não só – dos colegas ali presentes para se ser uma “Maria vai com as outras”.

E não tenhamos ilusões, muitas greves são feitas por razões meramente políticas – é que não nos esqueçamos que as duas maiores centrais sindicais são feudo dos dois grandes partidos de esquerda, o PCP e o PS.

O resultado disto tudo é que já ninguém liga às “justas reivindicações” debitadas por rádios e televisões, a reação normal é, até, “Outra greve?” seguida de um encolher de ombros. Compare-se isso com o que aconteceu há alguns anos na Alemanha quando o maior sindicato do país anunciou uma greve: o país ficou em suspenso a tentar entender a situação, era a primeira em décadas!

Dito tudo isto, gostaria de sugerir umas alterações à lei da greve, uma bastante fácil de implementar, as outras um pouco mais morosas e, acima de tudo, mais suscetíveis de suscitar uma feroz oposição.

Vamos à primeira: as greves só poderiam realizar-se de terça a quinta-feira, mas nunca na véspera de um feriado ou no dia seguinte a um. Ou seja, fim de pontes improvisadas.

Depois, a existência de um livro de ponto da greve. Ou seja, quem tenciona fazer greve, tem de o assinar, caso contrário é simplesmente uma falta que terá de ser justificada.

E porquê? Bom, nunca vos intrigou a discrepância, às vezes enorme, entre os números indicados pelo sindicato que decretou a greve e os da respetiva entidade empregadora? Para mim, a explicação é fácil, basta ter em mente que muitas das greves, ou antes, a sua quase totalidade, ocorrem no setor público. E que este tem todo um sistema de faltas justificadas. Por exemplo, se uma situação “de doença” não exceder três dias consecutivos, duas vezes por ano, não precisa de comprovativo.

Há, ainda, o pequeno detalhe de em certos setores, como os transportes, ser muito fácil paralisar todo o sistema por parte de meia dúzia de pessoas, obrigando, de facto, a uma adesão a 100 %. Vejam-se os comboios, basta impedi-los de partir das estações terminais para ter uma paralisação total. Ou seja, os números dos sindicatos refletem quem não trabalhou nesse dia, os da entidade empregadora deduzem desse número quem ofereceu uma outra justificação para não o fazer.

É claro que a existência de um livro de ponto da greve traria consigo outros problemas, nomeadamente represálias sobre quem não assina. Sim, leram bem, sobre quem não assina. Ouvimos falar muito das pressões dos patrões sobre os trabalhadores para não fazerem greve, mas nada se diz sobre as exercidas pelos sindicatos.

Quando vim para Portugal no início dos anos 80, toda essa cena de greves fascinava-me. É que tinha estado a trabalhar numa República Democrática Popular onde, claro, não existem – supostamente porque esse tipo de país já é um paraíso para os trabalhadores... E o que mais me intrigava era ver a ação dos piquetes de greve, que insultavam e chegavam, até, a agredir quem ousava fazer-lhes frente. Espantosamente, vim a descobrir que é ilegal impedir os colegas de trabalhar, os ditos piquetes só podem, por lei, convencê-los a bem da bondade da greve.

Mas a principal mudança estaria no modo de decidir uma greve. Fim, claro, das greves decretadas apenas pelas direções dos sindicatos. E fim, também, às votações de braço no ar. Qualquer greve teria de ser votada, por voto secreto (urna fechada) pelos sindicalizados em questão. Mais ainda, só iria para a frente se tal fosse decidido por um mínimo de 51 % de votos a favor e com um número de votantes não inferior a 75 %. Parece um exagero? Bom, os sindicatos estão sempre a dizer que representam a vontade dos trabalhadores.

Porque será que fico com a ideia de que passaria a haver muito poucas greves? É que muitos sindicatos são tipo clube de futebol: muitos sócios, mas poucos pagam as quotas ou prestam atenção ao que se passa. E quantos dos atuais sindicatos que dizem representar milhares de trabalhadores o fazem de facto?

Último detalhe, a proposta de greve apresentada a votos teria de explicitar muito bem as suas razões e o que estava a ser feito em termos de negociações – isto para evitar algo muito nosso, a “greve de aviso” antes mesmo de se apresentarem as exigências – perdão, as reivindicações.

Falarei da greve do INEM noutra altura, aliás no post que planeio para este domingo no meu outro blogue, Ir para Novo, intitulado Idadismo na Medicina II, irei fazer-lhe referência. Por agora digo apenas isto: porque é que a Policia não pode fazer greve mas a Emergência Médica pode? Não são ambas igualmente importantes para a segurança dos cidadãos?

Para a semana: Natal, tempo de paz? Sei que é usual desejar paz para o mundo, mas quais são as hipóteses disso acontecer?

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