121 - E vivam as greves!
Quando vim definitivamente para Portugal em finais dos anos 80 um dos aspetos da vida portuguesa que mais curiosidade me despertou foi a enorme quantidade de greves. Como eram novidade para mim, dei-me ao trabalho de ler e ouvir cuidadosamente as notícias sempre que havia uma – ou seja, quase todos os dias...
O primeiro detalhe que achei giríssimo foi ouvir sindicatos da CGTP a usarem todo o tipo de propaganda comunista para defenderem o que diziam e faziam. Acontece que eu tinha acabado de viver e trabalhar uns 4 anos num país comunista e, muito francamente, se alguém ali dissesse essas coisas teria um futuro muito negro – e curto!
Mas, enfim, cada um é livre de pensar o que quiser, pelo menos é essa a minha opinião, não partilhada, obviamente, por wokes e similares.
O detalhe seguinte foi a tremenda quantidade de greves que se realizavam neste país tão pequeno em área e população. Pensei, até, várias vezes que seria útil existir um site na Internet – que, lembro, estava na infância – onde os cidadãos normais, digamos, pudessem ir ver quais eram as greves desse dia para tomarem algumas medidas, se o pudessem fazer, ou, no mínimo, para não serem apanhados desprevenidos.
E quando comecei a analisar um pouco mais as coisas, espantou-me o modo como uma greve era decretada, pela direção do sindicado ou pelo “voto” dos sindicalizados presentes numa reunião. Sim, voto entre aspas, tive sempre muitas dúvidas sobre a validade democrática de votar de braço no ar, especialmente em certos ambientes claramente hostis a quem não fosse na onda.
Como tinha lido bastante sobre sindicalismo e greves em outros países, confesso que este sistema me chocou bastante. Em Inglaterra, por exemplo, uma greve tem de ser votada – com votos a sério – pelos sindicalizados todos, mais ainda, se a empresa estiver acima de uma certa dimensão, não muito grande, o resultado tem de ser apurado por uma empresa de fora. Pois, bem parecido...
Outra coisa que me intrigou foi ver a repetição de greves do mesmo setor, sem que percebêssemos bem o que queriam. Será que as direções dos respetivos sindicatos nunca perceberam que a habituação leva à indiferença? Lembro-me de há uns anos um dos grandes sindicatos alemães ter decretado uma greve – bom, votado, também aqui com votos a sério. Pois bem, o país inteiro ficou em polvorosa, queriam saber as razões, o que pediam, tudo. E porquê? Bom, era a primeira greve que faziam desde a sua criação décadas antes, em geral resolviam tudo a bem.
Bem parecido com o que se passa em Portugal onde, se alguém diz “Os transportes estão em greve” o comentário que mais se ouve é, “Outra vez?” E ninguém pergunta porquê.
Mas a melhor, para mim, claro, é a figura da greve de aviso. Sabem, vão começar as negociações e o dito sindicato decreta uma greve para avisar de que fala a sério!
É claro que a maioria das greves neste país são feitas pelos “coitados” dos funcionários públicos. Não que não as haja no setor privado, sobretudo as de um tipo que me deixa sempre intrigada, a greve de trabalhadores de uma empresa que está em dificuldades económicas... pois, ajuda imenso ao futuro económico da dita!
Depois há o pequeno detalhe da definição do termo “trabalhador”. É que para um sindicato só merece esse nome quem lhes pertence. Lembram-se das greves há uns anos contra a abertura de supermercados ao domingo, com o grande argumento de “os trabalhadores têm direito a descansar nos mesmos dias do resto da população”? Pelos vistos as muitas pessoas que trabalham e só podem fazer compras com mais calma nesse dia não são “trabalhadores”.
Há também a definição do termo “negociar”. Pelos vistos, para um sindicato isso significa o outro lado dar-lhes tudo o que pedem – perdão, que exigem! – sem que eles tenham de dar nada em troca.
O que me leva às exigências e justificações. A frase mais comum, sobretudo quando se trata de sindicatos das áreas dos transportes, educação e saúde, é a defesa da qualidade – ou, até, a sua melhoria. Curiosamente, mal conseguem mais dinheiro e regalias, pronto, fica tudo bem, e os papalvos que lhes pagam têm de acreditar que mais uns euros nos bolsos deles vão traduzir-se em melhoria do serviço, da qualidade do ensino e dos cuidados de saúde prestados. Pois!
Há, também, greves com que eu até concordaria, se não viesse depois a saber o que pedem. Como exemplo, há uns anos os trabalhadores de um matadouro entraram em greve porque as instalações eram antigas e potenciavam um real perigo para a saúde de quem ali trabalhava. Aplaudi, claro, quem não o faria? Só que... a sua única exigência era passarem a receber um subsídio de risco! Atenção, não enquanto renovassem o dito matadouro ou fizessem outro, isso nem foi mencionado, não, simplesmente um subsídio – e para sempre, claro, isso estava implícito.
Curiosamente, não vi ninguém fazer uma perguntinha de algibeira: se as instalações eram más a ponto de porem em perigo a saúde de quem lá trabalhava, isso não afetava a qualidade da carne que produzia?
Como último ponto, o que se passa atualmente com os polícias. Entendo que não há dinheiro para o que pedem, mas, muito francamente, porquê dar só a uns e não a todos? Ou os nossos ainda (des)governantes esperavam que não acontecesse nada?
Só mais uma coisinha, há uma greve “ameaçada” que eu adorava que se concretizasse: a dos jornalistas! Será que dávamos por ela?
Para a semana: Desejos para as eleições Como ainda falta um mês, pode ser que alguém escute...
