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Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade. Haverá um novo texto todas as sextas-feiras

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Luísa Opina

10
Dez21

11 - Mitos perigosos, parte 1

Luísa

Hoje vou começar a falar de uma série de “mitos”, à falta de um termo melhor, alguns muito portugueses, outros infelizmente internacionais, e que causam todo o tipo de problemas e crises. Não que tenha ilusões de que falar neles fará com que desapareçam, mas não me posso coibir de lançar o alerta. Como o tema dá “pano para mangas”, citarei apenas dois este post, um geral, o outro bem nosso.

Mito 1: quem luta contra um ditador é democrata

Este é um dos mitos internacionais mais espalhados atualmente e que tem tido consequências verdadeiramente desastrosas, vejam-se os casos da “Primavera Árabe”, Líbia e Síria.

Vamos por partes. Seria realmente de pensar que quem arrisca a vida e a liberdade na luta contra uma ditadura fá-lo porque quer substituí-la por uma democracia. Faz sentido, não faz? Infelizmente, os factos provam que o único problema que essas pessoas têm com a dita ditadura é não ser a deles.

Uns exemplos?

Fala-se muito na oposição ao governo da Arábia Saudita e de como este é mau para as mulheres. E é. Infelizmente, se lermos o que esses opositores diziam há uns anos (agora moderaram o discurso para deitar poeira nos olhos do Ocidente, falam, como no Afeganistão atual, em respeitar as mulheres à luz do Islão), a sua oposição advém de acharem que o dito governo não é suficientemente religioso, como compete a quem governa o país onde se situa Meca. E já agora, que é demasiado tolerante com as mulheres...

Na Síria, e falo por experiência própria, a gloriosa oposição ao Assad veio de Homs, uma cidade radical islâmica onde quem não cumpria as rígidas regras religiosas, sobretudo as mulheres, era insultado e só não lhe acontecia pior porque a polícia do mau do ditador não deixava. Ora sob o presidente Assad, o mau contra quem lutam, havia liberdade religiosa, cristãos viviam lado a lado com muçulmanos e ninguém podia atacar ninguém, nem por atos nem por palavras. Era também vulgar ver, como eu vi várias vezes quando lá fui de férias, uma mulher totalmente tapada lado a lado com outra de minissaia (e tão míni que quase não existia) e um top reduzido. E nenhuma dizia nada à outra, sob pena de serem presas.

Mas o Ocidente deixou-se enrolar com o discurso da “luta contra a ditadura” e ignorou totalmente os crimes cometidos por esses supostos defensores da democracia, crimes realmente atrozes, sobretudo contra cristãos, mulheres e homossexuais.

Tivemos também a “Irmandade Islâmica” no Egito, com resultados terríveis para uma população mais ou menos laicizada. Na Líbia, o entusiasmo por derrubar Kadafi, fechou os olhos às verdadeiras razões da luta contra ele e que eram, resumidamente, a guerra pelo controlo do petróleo existente em áreas pertencentes a tribos “mistas” (como o Kadafi o era) e que as populações árabes das regiões mais costeiras queriam para si.

O problema é que mal se ouve “lutar contra a ditadura”, o bom senso sai porta fora e ninguém, e por ninguém refiro-me a políticos e sobretudo a jornalistas, se dá ao trabalho de verificar o que é esse movimento de resistência e em que é que acredita.

Mito 2: os sindicatos protegem os trabalhadores

Bom, a teoria é essa e não tenho a menor dúvida de que realmente o faziam, em tempos idos, foram até durante muito tempo a sua única proteção contra todo o tipo de abusos. E presto-lhes a devida homenagem ao muito que fizeram em termos de condições laborais, redução dos absurdos horários de trabalho e muitas outras melhorias.

O problema está no que acontece atualmente com os chamados contratos coletivos de trabalho. E, atenção, neste mito refiro-me única e exclusivamente à realidade portuguesa.

Imaginemos uma empresa com um desses contratos e em que trabalham, lado a lado, o José e o António. O José chega a horas, nunca sai mais cedo, não falta e cumpre as suas funções o melhor que pode. O António, por outro lado, chega muitas vezes atrasado, sai outras tantas mais cedo, falta por tudo e por nada, está sempre a sair para ir tomar um café ou fumar um cigarro e, mesmo quando está presente, pouco ou nada faz, sobrecarregando os colegas com a parte que lhe competia e que não executa. Exemplos extremos? Talvez...

Ora para o sindicato presente nessa empresa, são ambos trabalhadores de pleno direito e tudo o que for negociado em benefício de um, o cumpridor, abrange também o outro, o não cumpridor. Mas tudo bem, a teoria é que contratos individuais de trabalho levam automaticamente à exploração de quem trabalha.

E porque é que este mito é perigoso? Pois bem, por muito boa pessoa que o José seja, mais cedo ou mais tarde vai fartar-se de ser cumpridor quando nada ganha com isso. E a empresa acaba por ficar cheia de Antónios, com consequências fáceis de prever para a sua produtividade e para a criação de riqueza para o país.

É claro que na base deste mito está a tal nova interpretação do termo “trabalhador” que referi em Novo Dicionário Precisa-se, Parte 1, ou seja não é uma pessoa que trabalha mas sim alguém que tem um emprego abrangido por um contrato coletivo de trabalho e sob a alçada de um sindicato.

E acabamos numa situação muito bem retratada no livro “Viver sem trabalhar num país à beira-mar” de Luís Campos. É de 1983 mas pelo que sei, foi reeditado. Li-o há muitos anos e nunca me esqueci do texto com o mesmo título em que, depois de analisar os vários setores dispensados de trabalhar por esta ou aquela razão, o autor chegava à conclusão de que, “em Portugal só trabalhava ele e um outro, por isso o outro que ficasse com tudo, ele estava farto” (estou a parafrasear).

Não nos acautelemos, e será esse o nosso futuro. Mas tudo bem, teremos todos contratos coletivos negociados por sindicatos!

Para a semana: Mentir dizendo só a verdade – pois, parece um contrassenso, mas não o é

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