221 - Venezuela e similares
Apesar de com algum atraso, pelo memos no caso da Venezuela, vou falar um pouco de algumas questões internacionais que têm ocupado os meios de comunicação, bom, isto nos poucos intervalos deixados pela campanha eleitoral, sondagens para todos os gostos e mil e um comentadores de ambas.
Comecemos pela Venezuela. Não entendo o espanto com que foi recebida a notícia da captura do Maduro, uma vez que o Trump disse repetidas vezes que o iria fazer. Mas o que não me espanta mesmo nada é o tipo de reações com que esse ato foi recebido.
A primeira indignação veio da “grave violação do direito internacional” que, curiosamente, só é evocado quando os Estados Unidos ou Israel estão mais ou menos envolvidos. Falou-se também muito da ilegalidade de “raptar” um governante legalmente eleito... bom, só se for à moda da Rússia, China e Cuba, os únicos países democráticos para a esquerda e os bem-pensantes usuais.
Pior ainda, já há vários anos que o Maduro não passava do líder de um grande cartel de droga, sobretudo para exportação para os EUA, garantindo assim, graças aos seus chorudos lucros, o apoio das Forças Armadas. Lembremo-nos que aquando da eliminação de lanchas rápidas usadas nesse tráfego o dito veio a público denunciar o ataque a “navios” venezuelanos.
Tivemos, depois, a enorme preocupação com as más condições da prisão onde aguarda julgamento, juntamente com a sua cúmplice, a mulher. Pelos vistos, as prisões venezuelanas repletas de presos políticos são verdadeiros hotéis de cinco estrelas, pelo menos nunca ouvimos a menor preocupação quanto ao modo como essas pessoas estavam a ser tratadas.
Veio, depois, a crítica de que Trump só tinha eliminado Maduro, deixando ativo o resto do seu governo. Até entendo isto, já tinham todos o seu discurso muito bem preparado para criticar a instalação de um governo fantoche dos americanos e tiveram de o meter na gaveta.
Temos, também, o petróleo venezuelano de que, diga-se de passagem, os EUA não têm a menor necessidade. O grande argumento, repetido à saciedade pela substituta do Maduro, é que pertence ao povo venezuelano. Pois, quando estava a ser entregue à Rússia a troco de sucata militar e sabe-se lá que mais ou vendido a preço de saldo à China para ir atenuando a enorme dívida contraída com este país, também sem que se saiba a troco de quê, estou certa de que o povo desfrutou dos lucros obtidos!
Não é giro que os mesmos que continuam a viver “à sombra da bananeira” da PIDE e do Salazar não tenham o menor problema em elogiar e apoiar as piores ditaduras desde que tenham a “cor” correta? E que os que tanto falam das prisões políticas no tempo da nossa ditadura nada tenham a dizer quando se veem perante os muitos milhares presos, torturados e mortos na Venezuela? Isto para não falar da China...
Vimos, até, cúmulo dos cúmulos, manifestações na Europa e nos EUA a favor da libertação desse tão democrático e honesto senhor. Curiosamente, pouco ou nada se falou dos milhões que saíram daquele país para fugirem à fome, falta de medicamentos e perseguição política. E até nem seria difícil encontrá-los, a Colômbia, por exemplo, está cheia deles!
Como último detalhe, adorei o pânico devido à escolta de um petroleiro da Venezuela por um navio de guerra e um submarino russos – pois, deviam ter ficado em casa, viu-se, mais uma vez, que se lhe fizermos frente a sério a Rússia recua – e se estão a pensar na Ucrânia, lembro que durante vários dias a única reação da União Europeia e do Biden foi oferecer asilo político ao Zelensky, uma aprovação tácita da ocupação total desse país pelos russos.
Passemos, agora, ao segundo tema, o Irão, mais uma vez um belíssimo escaparate da hipocrisia da esquerda e não só. Foram precisos vários dias de manifestações em massa por todo esse país para a nossa comunicação social lhes dedicar um niquinho de tempo. E, mais uma vez, os que se gabam da coragem precisa para lutar contra Salazar nada dizem da dos muitos iranianos que arriscam, eles sim, a vida nestas manifestações.
Não o digo à toa, já terão morrido mais de 1500 e, segundo ouvi hoje, as famílias só recebem os corpos se pagarem uma choruda quantia ao governo! Bom, parece que aprenderam com os seus amiguinhos chineses, na China as famílias dos presos condenados à morte recebem a conta das balas usadas.
A Internet está cheia de memes a comparar as ruas cheias de gente a berrar pela Palestina e as mesmas ruas em relação ao que se passa no Irão. Mais ainda, suspeito que se os EUA se envolverem, então, sim, teremos manifestações enormes a favor... do atual regime. Bom, já há alguns protestos de comentadores desde que surgiu o filho do xá, segundo parece o regime dos ayatollahs tem sido um brilharete de democracia e direitos humanos comparado como o que havia antes da queda do xá, sobretudo para as mulheres.
Não nos esqueçamos que o Bloco de Esquerda, o tal da “lei do piropo” – com penas de prisão de até 3 anos – esteve sempre calado em relação ao modo como as mulheres são tratadas no Irão. E quando uma delas foi presa, torturada e morta por tirar o lenço em público, vimos algum protesto? Foi considerada uma heroína por essas boas “feministas”? Bom, não me espanta nada dizerem, não nos esqueçamos de que estiveram contra a proibição da burca porque esta é um elemento “cultural”.
Só espero que, caso o regime iraniano caia, a Europa não tenha a brilhante ideia de oferecer asilo político aos seus líderes, correu tão bem quando foi o Komeini!
Resumindo, para os “donos da verdade”, só se deve falar nas situações que eles aprovam ou desaprovam e a defesa da liberdade dos povos é feita com o tipo de tagarelice a que a ONU, infelizmente, nos tem habituado ou com “flotilhas” e similares.
Para a semana: Pensar fora da caixa Fala-se muito na rapidez com que tudo muda atualmente, mas quando se trata de agir... a base continua a ser a mesma
